Trump: o não assunto preferido de Barack Obama

Entrevistado pelo príncipe Harry para a BBC Radio 4, o ex-presidente alertou para o uso irresponsável das redes sociais, defendeu o Obamacare e apelou à defesa do ambiente.

Num desafio de respostas rápidas, ficamos a saber que entre Aretha Franklin e Tina Turner, Barack Obama escolhe a primeira. Como prefere o Titanic ao Guarda-Costas ou a série Suits ("obviamente!") a The Good Wife e, entre os Queen e The Queen, o ex-presidente americano escolhe a rainha, ou não estivesse a ser entrevistado pelo neto de Isabel II para a BBC Radio 4, onde o quinto na linha de sucessão ao trono era ontem o diretor convidado. Uma rara entrevista do ex-inquilino da Casa Branca em que este manteve a tradição de não pronunciar o nome de Donald Trump, sem no entanto deixar de lançar umas farpas ao sucessor.

"Um dos perigos da Internet é que as pessoas podem ter realidades completamente diferentes. Podem ficar protegidas por informações que reforçam as suas posições", garantiu Obama , numa conversa gravada em setembro. O ex-presidente alertou para o uso irresponsável das redes sociais que está a distorcer a perceção que as pessoas têm de questões complexas. "Todos nós que estamos na liderança temos de encontrar uma forma de voltar a criar um espaço comum na internet", acrescentou.

Apesar de Obama nunca se referir a Trump, a verdade é que o atual presidente dos EUA tem sido criticado pela forma como usa o Twitter, o que já gerou tensões. Um exemplo recente foi a mensagem de um grupo de extrema-direita britânico que Trump retuitou, levando às críticas da primeira-ministra Theresa May. Longe de se arrepender, o presidente americano voltou ao Twitter para sugerir a May que se preocupasse antes com o terrorismo.

Recordando que "na internet tudo é simplificado" e como "é muito mais difícil ser desagradável e cruel em pessoa do que anonimamente" online, o ex-presidente sugeriu: "Encontrem-se no pub, encontrem-se num local de culto. Juntem-se num bairro e aprendam a conhecer-vos uns aos outros." Saudando o facto de agora poder "acordar mais tarde" e "controlar o meu tempo", Obama considerou o Obamacare, a sua reforma da saúde, como um dos maiores feitos dos seus oito anos na presidência. "Que bênção enorme poder dizer que mais 20 milhões de americanos têm hoje seguro de saúde", afirmou. Mais uma vez, nem uma palavra sobre Trump, mas a indireta é clara: o republicano fez da revogação do Obamacare a sua prioridade, mas acabou por ver as repetidas tentativas fracassar no Senado. Mesmo tendo os Republicanos maioria naquela câmara, como têm na Câmara dos Representantes.

Outro assunto em que o novo inquilino da Casa Branca cortou radicalmente com a herança do antecessor foi o ambiente, tendo retirado os EUA do Acordo de Paris sobre Alterações Climáticas. Ora Obama usou o seu tempo aos microfones da BBC para chamar a atenção para esta questão. "Vejam algumas das tragédias que aconteceram recentemente com os furacões que devastaram primeiro Houston e partes da Florida e depois Porto Rico."

Desde que saiu da Casa Branca, Obama, 56 anos, aproveitou para umas longas férias que o levaram das Caraíbas ao Havai, dedicando-se à sua fundação e à construção da sua biblioteca presidencial em Chicago. Em outubro, voltou ao terreno para apoiar Ralph Northam, candidato a governador da Virgínia. E mais uma vez teve Trump na mira - sem o mencionar. "Se tem de dividir as pessoas para ganhar uma campanha, não vai conseguir governá-las. Não vai conseguir uni-las mais tarde", afirmou. Já em maio arrancara uma gargalhada a quem o ouvia em Boston ao ironizar: "Havia uma razão para a reforma da saúde não ter sido feita mais cedo: era difícil." Isto depois de Trump ter confessado: "Ninguém imaginava que ia ser tão complicado."

Obama não foi o único convidado especial do príncipe Harry, que conversou também com o pai, o príncipe Carlos, num programa em que abordou assuntos que lhe são caros, como as Forças Armadas (serviu no Afeganistão), a saúde mental ou a criminalidade juvenil.

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Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.