Trump mente sobre o muro, mas os apoiantes não querem saber

O presidente norte-americano disse que o Congresso lhe tinha dado cerca de cinco mil milhões de dólares (4.3 mil milhões de euros) para construir o "Grande Muro" na fronteira com o México, mas o valor é, na verdade, zero.

Foi uma das suas grandes promessas eleitorais: "Vou construir um grande muro, e ninguém constrói paredes melhor do que eu, acreditem, e muito baratas. Vou construir um grande muro na nossa fronteira do sul e vou obrigar o México a pagá-lo", avisou.

Quase dois anos depois da sua eleição (8 de novembro de 2016), com a pressão a aumentar questionando o cumprimento dessa promessa, o Huffington Post assinala que Trump continua a dizer que a construção da prometida muralha "está bem encaminhada", apesar de nem único metro ter sido construído.

Os seus apoiantes, conta o HuffPost estão "loucos", não com Trump, mas com quem aponta a sua mentira. Em reportagem na Florida, onde o presidente se iria deslocar para um comício este fim de semana, o jornal encontrou vários apoiantes compreensivos com a falta de verdade do seu líder.

"Eu não me importo. Ele fez mais do que qualquer republicano ou democrata ", disse Pete Sandifer, aposentado militar de 58 anos que, com sua esposa, viajou duas horas e meia de Hattiesburg, no Mississippi, para comparecer ao comício de Trump no extremo oeste da Florida.

A partir a loiça

Robert Robertson, na linha de segurança para entrar no enorme hangar onde Trump iria falar, não estava interessado em ouvir conversas sobre as falsidades de Trump relacionadas com o muro - ou sobre qualquer outra coisa. "Todos os políticos são mentirosos. São todos doninhas ", disse o homem de 60 anos da Cidade do Panamá. "Sabe por que ele é tão bom? Porque ele está a partir a loiça toda. Se ele quisesse disparar sobre alguém na Broadway, eu iria declará-lo "inocente".

Em declarações ao HuffPost, Rick Wilson, consultor do Partido Republicano da Florida e crítico de Trump desde que entrou na corrida presidencial, disse que os partidários de Trump ignoram sua falha em cumprir a promessa de marca da sua campanha. "Eles acham que a maior parte está construída ou acham que o cheque mexicano ainda não foi libertado", disse Wilson. "É apenas um pensamento mágico".

Recorde-se que, poucos dias depois de assumir o cargo, Donald Trump se encontrou com o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto e nem abordou o assunto. Segundo o jornal ele reconheceu que o México não iria pagar o muro, mas pediu a Peña Nieto para que não o dissesse publicamente, para evitar constranger os seus partidários.

Nos últimos meses Trump tem afirmado que o Congresso lhe deu 1.6 mil milhões dólares (1.4 mil milhões de euros) e mais tarde foi aumentando esse valor, chegando quase aos cinco mil milhões. Mas, o facto é que o Congresso não tem qualquer valor autorizado para a construção do muro.

As verbas autorizadas nas contas de 2017/2018, cerca de 1.57 mil milhões, são para reconstruir e reparar cerca de 33 quilómetros de vedações ao longo da fronteira sudoeste e pagar algumas medidas adicionais de segurança nas fronteiras.

No comício de Pensacola, Trump repetiu a mentira. "Estamos a construir o muro, como sabem. Conseguimos 1,6 mil milhões de dólares e teremos outros 1,6 mil milhões. Temos o outro terço, mas eu quero construir tudo de uma vez", declarou.

Os apoiantes, assinala o HuffPost, quer os mais idosos, quer os jovens, não se incomodaram com a mentira. "Trump tem boas intenções. Acho que vai fazer muitas das coisas que diz", afirmou Abigail Mainor, uma estudante de 18 anos do Northwest Florida College, que vai votar pela primeira vez nas eleições de terça-feira. "Todo mundo comete erros."

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.