Trump elogia Bolsonaro em mais uma jogada de tweet-diplomacia

Depois de uma repreensão dura de Emmanuel Macron na cimeira do G7, Jair Bolsonaro recebe o apoio de Donald Trump. A nova "guerra fria" faz-se no Twitter

Se a diplomacia era, como escreveu Ambrose Bierce, no seu Dicionário do Diabo, "a arte patriótica de mentir pelo nosso país", talvez tenha abdicado da "arte" pela pura repetição. Donald Trump inaugurou a era da diplomacia nas redes sociais. Nos últimos dias, a página de Twitter de Trump inclui elogios a quase todos os líderes mundiais mais relevantes. Alguns são improváveis (a Macron, a Trudeau, a Xi Jinping, por exemplo). Outros são normais (a Boris Johnson). Outros são táticos.

Depois de uma semana terrível para Jair Bolsonaro, Donald Trump resolveu elogiar também o Presidente brasileiro. "Eu conheço bem o Presidente @jairbolsonaro das nossas relações com o Brasil. Ele está a trabalhar muito nos incêndios da Amazónia e em todos os aspetos fazendo um ótimo trabalho para o povo do Brasil - Não é fácil. Ele e seu país têm o total e completo apoio dos EUA!"

Mas o significado deste tweet tem várias camadas. Porque o "completo apoio" de Trump pode querer mostrar aos países europeus que os EUA não vão seguir a linha que Merkel e Macron pretendem, para obrigar o Brasil a cumprir metas ambientais.

A semana passada foi dura, e azeda. Jair Bolsonaro esteve no centro de uma polémica mundial, pela sua resposta aos fogos devastadores na Amazónia. Vários países, como a Alemanha e a Noruega, anunciaram que iriam cortar as ajudas financeiras prestadas ao governo brasileiro para a gestão ambiental na floresta amazónica.

A França havia, na semana passada, colocado a hipótese de impedir a assinatura do acordo de comércio da União Europeia com o Mercosur (grupo de países da América do Sul, que inclui o Brasil) porque Bolsonaro "mentiu". Na base da acusação do Eliseu está a Amazónia, a prova de que o Brasil decidiu "não respeitar os compromissos ambientais e não se empenhar em matéria de biodiversidade".

Mas o auge da contestação francesa a Bolsonaro surgiu, durante a cimeira do G7 no passado fim de semana em Biarritz. O Presidente francês Emmanuel Macron, que tinha sido visado, com a sua mulher Briggite, por um comentário de Bolsonaro no Facebook, afirmou, numa conferência de imprensa, esperar que o Brasil "tenha rapidamente um presidente que se comporte à altura do cargo".

É claro que houve muito mais do que isso. Por exemplo, o filho de Bolsonaro chamou "idiota" a Macron e o ministro da Educação brasileiro, Abraham Weintraub, acrescentou três adjectivos à ofensiva diplomática de Brasília contra Paris: "calhorda, oportunista e cretino".

Entretanto, na cimeira do G7 ficou decidido um (modesto) pacote financeiro de ajuda ao Brasil para o combate aos fogos na Amazónia, de 17,9 milhões de euros. O ministro brasileiro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, rejeitou a ajuda: "Agradecemos, mas talvez esses recursos sejam mais relevantes para reflorestar a Europa. Macron não consegue sequer evitar um previsível incêndio numa igreja que é património da humanidade [Catedral de Notre-Dame] e quer ensinar o quê para nosso país? Ele tem muito o que cuidar em casa e nas colónias francesas."

Na terça-feira, Bolsonaro tirou o tapete ao seu ministro: "Eu falei isso?" Ou seja, o presidente brasileiro não rejeita a ajuda do G7. Mas coloca uma condição: Macron tem de lhe pedir desculpas por lhe ter chamado de "mentiroso".

"Então, para conversar ou aceitar qualquer coisa da França, que seja das melhores intenções possíveis, ele [Macron] vai ter que retirar essas palavras e, daí, a gente pode conversar", disse. "Primeiro, ele retira, depois ele oferece e daí eu respondo", explicou Bolsonaro, numa entrevista em Brasília.

A explicação é complexa, e não parece ter muitas condições para ser posta em prática. Seria preciso que Macron pedisse desculpas, antes de voltar a oferecer a ajuda financeira, e só aí Bolsonaro decidiria se a aceitaria ou não. Talvez a solução venha a ser publicada no Twitter.

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