"Triste" com Trump, Madeleine Albright brinca com pedir asilo a Portugal

A ex-secretária de Estado americana encerrou as Conferências do Estoril com duras críticas ao atual presidente.

A figura parece frágil, a condizer com os 80 anos feitos a 15 de maio, mas quando começa a falar, numa voz forte e clara, Madeleine Albright volta a ser a mulher de armas que entre 1997 e 2001 liderou a diplomacia americana na era Clinton. E não poupa nos ataques ao atual presidente americano. "Os cidadãos foram perdendo a confiança nos parlamentos, nos media... E isso leva a fenómenos como o brexit ou Donald Trump", afirmou na sua intervenção que ontem encerrou as Conferências do Estoril.

Mais tarde, em conferência de imprensa, a primeira mulher secretária de Estado dos EUA, mais do que desiludida, disse-se "triste" com a nova Administração e o novo inquilino da Casa Branca. "Sou uma imigrante. Uma cidadã americana naturalizada. Sempre achei incrível como é que alguém como eu podia chegar a secretária de Estado. Estou muito perturbada com a trajetória que os EUA estão a ter. E muito triste com as coisas que aconteceram nesta viagem [de Trump à Europa]. Acredito na NATO, acredito no artigo 5, acredito no Acordo de Paris", sublinhou.

Vestida de azul escuro, com o eterno e enorme alfinete de peito a brilhar sobre o coração e uns sapatos vermelhos a dar um toque de cor, Albright explica que o que sabe das intenções de Trump em relação ao Acordo sobre o Clima, assinado em Paris em 2016, é o que viu na televisão. "Não sei se é verdade [que o presidente vai retirar os EUA do acordo]. Espero que não o faça. Estou muito perturbada se ele sair porque sei que nós e os chineses somos os que criam alguns dos problemas", admite. E acrescenta: "E vai prejudicar a nossa economia. O problema da poluição e as mudanças climáticas prejudicam a economia. Espero que ele não saia e não abdique da liderança americana nesta matéria". Minutos antes, diante de uma plateia rendida, que a interrompeu várias vezes para aplaudir, dissera até esperar que "a televisão esteja errada". "Há notícias falsas!", brincou, usando uma das expressões favoritas de Trump.

Apresentando-se como "uma filha da Europa que encontrou refúgio nos Estados Unidos", Albright - nascida Marie Jana Korbelova em Praga, na então Checoslováquia - considerou "doloroso" ver a forma como Trump lidou com os parceiros da NATO. E explicou que "líderes de ambos os lados devem perceber que não podemos enfrentar uma nova geração de desafios desunidos". Mais, "não podemos deixar estas tensões fazer o que 40 anos de propaganda soviética não conseguiram: dividir-nos". Convencida que "a Europa tem muito a ensinar ao mundo sobre o valor da democracia e o custo da guerra" e que os EUA também têm muito a ensinar enquanto "país construído por indivíduos vindos de todo o mundo e unidos por valores comuns", a ex-secretária de Estado garantiu que "juntos somos uma boa equipa".

Sublinhando a necessidade de os governos aprenderem a responder às necessidades das pessoas, Albright admitiu por exemplo que uma das falhas da campanha de Hillary Clinton nas presidenciais - em que participou como apoiante da ex-primeira dama - foi não perceber como muitos americanos se sentiam abandonados pelos políticos. Questionada sobre o avanço do populismo e se, depois do brexit e de Trump, a vitória de Emmanuel Macron em França, frente a Marine Le Pen, a líder da extrema-direita, revela uma mudança de rumo, a ex-chefe da diplomacia americana mostrou-se cautelosa. "Não sabemos. É um de cada vez. Não foi só França. A Holanda e outros mostraram que não querem seguir o populismo. Mas todas as eleições agora são muito importantes. Temos de devolver a confiança nas instituições. E fazer as pessoas perceber que não é a ira e estar contra algo que vai trazer mudança", explicou. E deixou o alerta: "Estamos num estado muito volátil. Temos de estar atentos as eleições alemãs e às eleições em toda a parte", disse.

Afirmando que "a democracia pode não dar uma garantia contra as agressões, mas é a melhor garantia que temos", Albright recordou que "não é coincidência que os locais de maior ação dos terroristas sejam países não democráticos". Quanto à situação da Síria, e reafirmando estar a falar em nome pessoal e não pelos EUA, a ex-chefe da diplomacia, Albright defendeu a necessidade de um acordo político e lamentou ainda não ter havido uma definição sobre a posição da Administração Trump.

Lembrando de novo a sua situação de imigrante, Albright repetiu a necessidade de distinguir os imigrantes e refugiados dos terroristas. Até porque "a maioria das pessoas quer viver no país onde nasceu porque tem lá família e conhece a língua. As pessoas não partem por ser fácil", disse, admitindo que o caso do pai foi diferente, partiu porque "não queria trabalhar para os comunistas". E defendeu que os Estados Unidos devem ter uma política de imigração generosa.

Revelando não ter perdido nada do sentido de humor, Albright já durante a conferência começara a resposta a uma pergunta sobre as consequências de Trump para a Europa exclamando: "Se calhar vou ter de pedir asilo!". No final da intervenção, e afirmando-se feliz por ter regressado a Portugal, voltou a brincar: "Se tiver de voltar porque o presidente Trump não me quer lá, voltarei!"

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