Trabalho, bolsa e saúde. O vírus está a mudar o paradigma do mundo

Os balanços atualizados dos infetados com coronavírus, o distanciamento social, as sucessivas conferências de imprensa e o clima de incerteza deixam qualquer pessoa agastada, mas o momento que se está a viver, sem precedentes, é também um choque para a procura e oferta global.

Antes da crise pandémica do covid-19, havia um sentimento generalizado de estabilidade económica. Talvez por isso, muitos tenham sido apanhados de surpresa pelo súbito impacto desta catástrofe, que expôs a fragilidade dos sistemas financeiros.

A crise financeira de 2007-08 ainda está bem presente na memória de grande parte da população, bem como a bolha da internet (entre 1994 e 2000), mas poucos terão vivido a Grande Depressão (também conhecida como Crise de 1929). Embora os governos estejam a tentar transmitir mensagens de alento, prometendo uma recuperação económica o mais prontamente possível, assiste-se já a uma mudança de paradigma.

Milhões de pessoas em todo o mundo já estão em regime de teletrabalho, outros perderam o emprego, e muitas foram as empresas obrigadas a interromper a sua atividade por pelo menos seis meses.

Desemprego nos EUA pode chegar a 30%, diz presidente do FED

Colocando a situação em perspetiva, a taxa de desemprego durante a Grande Depressão atingiu um pico de aproximadamente 25%.

A perceção do que é um emprego seguro

O Canadá recebeu 500 mil novos pedidos de subsídio de desemprego na semana passada, contra 27 mil no mesmo período do ano passado. As companhias aéreas reduziram a sua força de trabalho entre 20% e 50%, com a Air New Zealand a cortar 3500 empregos, a Qantas 5000 empregos e a Air Canada mais de 5000.

O mundo começa aos poucos a reavaliar a perceção do que é considerado um "emprego seguro", à medida que as entidades patronais reagem à necessidade, a curto prazo, de contratar funcionários para a linha da frente, enquanto outros tantos empregados são aconselhados a ir para casa. Em Portugal, veja-se o caso da cadeia de supermercados alemã Lidl, que, face ao aumento exponencial da procura de bens essenciais devido ao coronavírus, está a contratar 500 pessoas. Espera-se que a situação seja temporária. A questão é que ninguém sabe definir concretamente quanto tempo levará. Um estudo, por exemplo, sugere que esta crise poderá durar até 18 meses.

Ferguson é um matemático e epidemiologista cujo trabalho para combater a disseminação do Covid-19 está a influenciar as políticas no Reino Unido, França, EUA e noutros países. O centro que fundou, em conjunto com colegas do Imperial College, o MRC Center for Global Infectious Disease Analysis, colabora com a Organização Mundial de Saúde

Perder o emprego é traumatizante - traz sofrimento, um sentimento de vergonha e pode até levar à depressão, mas é imprescindível lembrar que, como tudo na vida, é temporário. Psicólogos recomendam que todos tentemos rodear-nos (embora mantendo o distanciamento social) de pessoas solidárias, e que aproveitemos o tempo de isolamento para refletir sobre novas oportunidades.

Porque é que isto é importante para nós?

A boa notícia é que a crise será ultrapassada, eventualmente. A má é que se adivinham tempos difíceis, muito antes de se vislumbrar uma melhoria. Mas, como em qualquer crise económica, há sempre oportunidades.

A crise do covid-19 deverá deixar, sobretudo, mais vulneráveis aqueles que mais arriscaram. Vivemos uma época em que se glorifica a ideia de propriedade e os sucessos do dia para a noite. Somos bombardeados todos os dias com novas formas de ganhar dinheiro rápido vendendo fidget spinners na Amazon ou sendo aliciados a deixar o emprego para vender imóveis. Alguns até assumiram os riscos e foram recompensados, mas a verdade é que o mundo assistiu ao maior boom dos mercados em décadas, e a tendência foi para nos tornarmos complacentes com a estabilidade.

Quando algo de inesperado acontece

Certamente, parte da população conseguirá ultrapassar esta crise, mas a maioria não está preparada para lidar com o stress financeiro por um longo período de tempo. E a incerteza está a pesar sobre o tecido empresarial em todo o mundo.

O multimilionário Ray Dalio está a sofrer na pele as perdas generalizadas dos seus investimentos nos últimos tempos. A Bridgewater Associates, maior administradora de fundos de hedge do mundo e fundada por Dalio, está a amargar perdas de até 21%.

A lição aqui não é acumular dinheiro; haverá necessariamente momentos em que se tornará imprescindível recorrer às poupanças. Resta saber quem é que as tem. Mas também já se assistiu ao impacto de uma falta de reservas quando a liquidez secou repentinamente.

De acordo com o Statistics Canada, departamento do governo federal do Canadá que produz estatísticas, a economia líquida média de todas as famílias canadianas foi de apenas 798 euros (852 dólares) em 2018. Aquelas com rendimentos mais baixos gastaram mais do que auferiram, contraindo avultadas dívidas para financiar o seu consumo.

Com a economia em contração, começar-se-á a assistir a uma mudança no comportamento de consumo. O segredo passa por entender os riscos a que estaremos expostos

Alemanha e novas medidas para mitigar o impacto económico

Uma recessão é inevitável, mas os governos estão a encetar esforços para mitigar o impacto económico do coronavírus. A Alemanha, por exemplo, está prestes a revelar novas medidas naquilo que os analistas estão a descrever como uma "mudança de jogo" para um país que é o líder da prudência fiscal.

O estímulo fiscal ocorre num momento em que a Itália está a reforçar o seu bloqueio depois de o número de mortes por coronavírus ter ultrapassado os 6000, e a Espanha decidiu prolongar o estado de emergência nacional até 11 de abril. A Europa é o epicentro do coronavírus desde meados de março, com mais novos casos confirmados do que qualquer outro lugar do mundo.

O plano alemão é um fator decisivo

A Alemanha pretende aumentar os empréstimos em até 150 mil milhões de euros neste ano, bem como aprovar um Orçamento suplementar de 156 mil milhões de euros. O governo liderado pela chanceler Angela Merkel também está a preparar um fundo de resgate de 500 mil milhões de euros para setores considerados críticos.

Itália aperta o bloqueio

Enquanto isso, a Itália ordenou no fim de semana o encerramento de toda a produção industrial, e quase todos os serviços privados e públicos. Isso significa que apenas o que o executivo considera "negócios essenciais" continuará a operar.

"Esta é a crise mais difícil que o país enfrenta desde a Segunda Guerra Mundial", afirmou o primeiro-ministro, Giuseppe Conte

Espanha intensifica resposta ao vírus

O governo espanhol, por sua vez, também deverá prolongar o estado de emergência até 11 de abril, face ao contínuo aumento de mortes. A Espanha tem o quarto maior número de casos confirmados de coronavírus no mundo, depois da China, da Itália e dos EUA. Na segunda-feira, havia mais de 30 mil casos confirmados e 2000 mortes.

E o que se passa com a economia da Coreia do Sul?

A possibilidade de uma recessão económica na Coreia do Sul irromper dentro de 12 meses é de 33%, segundo uma recente pesquisa da Bloomberg. O vice-primeiro-ministro, Hong Nam-ki, secunda as projeções, depois de ter constatado que as repercussões da disseminação do coronavírus iriam traduzir-se num crescimento económico negativo no primeiro trimestre deste ano. Da mesma forma, o Banco da Coreia mencionou que a taxa de crescimento económico no primeiro trimestre do ano seria menor do que a do primeiro trimestre de 2019, 0,4% negativo.

As exportações sul-coreanas dispararam impulsionadas pelo teletrabalho

Porém, que diagnóstico se pode fazer desta projeção quando relatórios dados a conhecer na segunda-feira indicam que as exportações sul-coreanas dispararam impulsionadas com a necessidade de meio mundo de estar agora confinado a casa em regime de teletrabalho?

Os semicondutores, o bem mais exportado pelo país, saltaram 20,3% num ano, segundo dados do Serviço de Alfândega da Coreia do Sul na segunda-feira. Melhor do que o aumento de 15,4% observado em fevereiro.

"A procura das empresas de computação em nuvem aumentou as vendas de chips para servidores, e o aumento do regime de teletrabalho também contribuiu para uma subida exponencial da demanda por servidores", segundo o Ministério do Comércio sul-coreano.

"Mas as exportações em abril e maio irão cair", refletindo a queda significativa nos contratos de exportação vistos a partir de fevereiro.

A gigante Samsung Electronics disse na semana passada que a pandemia iria prejudicar a venda de smartphones e dispositivos eletrónicos neste ano, embora o mercado de chips - que representa cerca de metade do lucro operacional da Samsung - tivesse registado um crescimento na procura.

Separadamente, uma pesquisa com 915 exportadores na segunda-feira mostrou que as empresas sul-coreanas esperam que as suas operações caiam a pique no segundo trimestre, com bloqueios e quarentenas em todo o mundo a afetarem a demanda global.

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