Torra diz que antecipará eleições catalãs mas só depois de aprovar orçamento

O presidente da Generalitat defende que a atual legislatura chegou ao fim, por causa da crise e da divisão entre independentistas do Junts per Catalunya e da Esquerda Republicana da Catalunha. Processo de aprovação do orçamento deve durar ainda dois ou três meses.

O presidente do governo catalão, Quim Torra, anunciou esta quarta-feira que a atual legislatura "chega ao seu fim" e que antecipará as eleições na Catalunha depois de ser aprovado o orçamento. Algo que deverá acontecer, segundo os media espanhóis, em finais de março ou princípios de abril.

"É preciso pôr o país e as suas necessidades acima de quaisquer interesses e avançar para o objetivo de concluir o mandato de 1 de outubro [de 2017, data do referendo independentista] reencontrando-nos na unidade. Depois de o orçamento ser aprovado no Parlamento catalão, anunciarei a data das eleições", escreveu Torra no Twitter, partilhando o vídeo da declaração institucional que fez desde o palácio da Generalitat. As eleições estavam só previstas para finais de 2021.

"Esta legislatura já não tem mais caminho. Chegou ao seu fim", disse o líder do governo catalão, admitindo um "deterioramento da confiança mútua" entre o seu partido, o Junts per Catalunya e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC). "Na segunda-feira não se respeitou o consenso do independentismo", indicou, acrescentando que "o governo catalão não pode funcionar sem unidade e estratégia partilhada e lealdade entre os seus sócios".

Em causa a decisão do Parlamento catalão liderado por Roger Torrent (da ERC) de lhe retirar o cargo de deputado, depois de Torra ser condenado a 18 meses de inabilitação para assumir cargos públicos por ter recusado tirar os símbolos independentistas da varanda da Generalitat durante a campanha eleitoral. "Desprotegeu-se a instituição da presidência ao retirar a condição de deputado. E isto põe em risco de maneira permanente o governo da Catalunha".

O Junts e a ERC são os parceiros no governo e, na tarde desta quarta-feira, o vice-presidente da Generalitat e responsável pela pasta da Economia, Pere Aragonès, vai apresentar ao resto do executivo a proposta de orçamento para que possa ser aprovada e ser enviada ao Parlamento catalão. "Agora é hora de máxima responsabilidade e é preciso pôr o país acima de qualquer interesse partidário. O país precisa que aprovemos um orçamento que deve resolver muitas necessidades sociais", indicou Torra. Aragonès só conheceu o conteúdo da declaração momentos antes de Torra falar.

Reações

O Partido Socialista Catalão (PSC) foi um dos primeiros a reagir ao anúncio de Torra, com Alicia Romero a dizer à TV3 que o discurso foi "dececionante" e que é preciso "não alargar a agonia", pedindo ao presidente do governo que convoque de imediato as eleições. "A cidadania não merece dois meses de espectáculo", afirmou Romero, lembrando que Torra passou os primeiros minutos do discurso a criticar os parceiros de governo. O PSC não vai aprovar o orçamento.

Já o Ciudadanos, através de Carlos Carrizosa, defendeu que "Torra já não é presidente" e que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, deve desconvocar de imediato a reunião que tem prevista com ele a 6 de fevereiro e demiti-lo. Torra disse na intervenção que pretende manter o encontro com o primeiro-ministro socialista. O diálogo com a Catalunha foi uma das condições para Sánchez contar com a abstenção da Esquerda Republicana na Catalunha na sua investidura.

Por seu lado o Partido Popular anunciou que vai apresentar queixa contra Torra por usurpação de funções, visto continuar na presidência da Generalitat. O estatuto da Catalunha diz que o presidente deve ser eleito entre os deputados, argumentando-se que como deixa de ser deputado devia deixar também a chefia do governo catalão.

A nível de governo, o vice-primeiro-ministro Pablo Iglesias, da Unidas Podemos, reitrou a necessidade de "diálogo" na Catalunha. "Se houver eleições apresentam-se os partidos políticos e rapidamente haverá governo na Catalunha. Pouco mais há a dizer", acrescentou durante uma visita às zonas afetadas pela tempestade Gloria.

(Notícia atualizada com as reações dos partidos à declaração de Torra)

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