Tillerson veio à NATO pedir maior empenho aos aliados

Encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros da Aliança Atlântica estava previsto para 5 e 6 de abril mas foi antecipado para contar com o secretário de Estado americano

Tillerson. Ou só Rex. O nome do secretário de Estado americano foi o mais repetido ontem nos corredores do quartel-general da NATO em Bruxelas. A reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, prevista para a próxima semana, foi antecipada para garantir a presença do ex-CEO da Exxon. Diante de uma multidão de jornalistas, o chefe da diplomacia de Donald Trump voltou a falar nos recursos "financeiros e não só" de que a Aliança precisa para garantir a segurança dos seus Estados membros.

A insistência na meta de gastar 2% do PIB em defesa não espanta. Reflete o que o próprio Trump tem martelado. E o que os aliados, em 2014, se comprometeram a fazer no prazo de uma década. Mas nem todos concordam. A começar pela Alemanha. "2% significaria despesas militares de cerca de 70 mil milhões de euros, não conheço nenhum político alemão que diga que isso é alcançável ou desejável", afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Sigmar Gabriel. A Alemanha vai a votos a 24 de setembro para dar um quarto mandato a Angela Merkel ou a vitória ao social-democrata Martin Schulz.

Na conferência de imprensa final, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg desvalorizou estas divergências. "Todos os aliados entendem e aceitam que é preciso partilhar o fardo da defesa. E respeitam a decisão de 2014." Sem comentar diretamente as palavras de Sigmar Gabriel, o norueguês lembrou ainda que a própria Alemanha "começou a gastar mais" e "está no bom caminho". Stoltenberg voltou a insistir na criação de planos nacionais em cada um dos 28 Estados membros para estabelecer como chegar aos 2%, garantir as capacidades militares da Aliança e a participação nas missões e operações da NATO.

Antes do almoço, a foto de família foi oportunidade para alguns dos ministros cumprimentarem Tillerson. O secretário de Estado americano chegou ao lado de Stoltenberg, posições que mantiveram na imagem. Na ponta esquerda do palco, a ministra canadiana Chrystia Freeland chamava os retardatários. Primeiro o britânico Boris Johnson, que se posicionou ao lado de Tillerson. E já com toda a gente em posição, o francês Jean-Marc Ayrault e o alemão Sigmar Gabriel chegaram a pedir desculpas.

Com o brexit a dominar as notícias, à chegada ao encontro Boris Johnson garantiu aos jornalistas que o Reino Unido pode ter acionado o processo para sair da União Europeia mas está "empenhada na defesa e segurança desta região". Mais, o chefe da diplomacia britânica, antigo correspondente do jornal The Daily Telegraph em Bruxelas, sublinhou que a segurança europeia "não é moeda de troca em nenhuma negociação".

Nas respetivas vindas a Bruxelas, tanto o vice-presidente Mike Pence como o secretário da Defesa James Mattis deixaram uma mensagem clara: a NATO tem o apoio dos EUA mas os restantes membros da Aliança têm de aumentar as despesas em defesa para chegar à meta dos 2% do PIB. Estabelecida em 2014, esta apenas é cumprida por cinco dos 28 países da NATO - Estados Unidos, Grécia, Reino Unido, Estónia e Polónia.

O próprio presidente Donald Trump acusou a Aliança Atlântica de ser uma organização "obsoleta" e exigiu aos aliados que façam mais para partilhar o fardo de garantir a segurança da Europa. Depois de receber Stoltenberg na Casa Branca a 12 de abril, Trump deverá estar presente em Bruxelas a 25 de maio para participar na reunião dos chefes do Estado e do governo da NATO.

À chegada para o encontro, Stoltenberg reafirmou que o compromisso com os 2% não é "para agradar aos americanos", é para "garantir a segurança da Europa". Quanto à mudança de data da reunião, prevista inicialmente para 5 e 6 de abril mas antecipada por coincidir com uma visita do presidente chinês Xi Jinping aos Estados Unidos que impossibilitaria a presença de Tillerson em Bruxelas, Stoltenberg explicou que só mostra a "flexibilidade da Aliança e o compromisso dos 28 com a relação transatlântica".

As reticências de Tillerson em vir a Bruxelas reforçaram as dúvidas sobre o compromisso da administração Trump com a NATO. Num momento em que a Casa Branca ainda não nomeou o sucessor de Douglas Lute como embaixador na Aliança Atlântica, os media têm avançado o nome de Richard Grenell, ex-porta voz na ONU. Aos 50 anos, Grenell é um defensor da NATO como contraponto à influência russa no Leste da Europa.

* em Bruxelas

A jornalista viajou a convite da NATO

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