Theresa May vence e dá mais um passo para ser primeira-ministra

Após a eliminação de Liam Fox e a desistência de Stephen Crabb, a corrida à liderança dos Tories fica reduzida a três: Theresa May, Andrea Leadsom e Michael Gove

Foi a 28 de novembro de 1990 que a dama de ferro, Margaret Thatcher, abandonou a liderança do Partido Conservador, deixando ao mesmo tempo o cargo de primeira-ministra do Reino Unido. Tudo indica que, 26 anos depois, os Tories e o país voltarão a ter uma mulher a pegar nas rédeas.

Theresa May, ministra do Interior de Cameron, com 165 votos (50%), saiu vencedora da primeira ronda de votação para eleger o próximo líder. No segundo lugar, com 66 votos (20%), ficou Andrea Leadsom, atual secretária de estado da Energia, que conta com o apoio de Boris Johnson. Assim, a confirmar-se a tendência expressa ontem pelos 330 deputados conservadores, o sprint final será disputada no feminino.

Tendo apenas recolhido 16 votos, Liam Fox ficou na quinta e última posição tendo por isso sido eliminado da contenda. Já o ministro do Trabalho e Pensões, Stephen Crabb, depois de ter ficado em quarto lugar com 34 votos, decidiu desistir. Ambos endereçaram o apoio a Theresa May.

O responsável pela pasta da Justiça no atual executivo, Michael Gove, com 48 votos, continua na corrida. Dos 330 eleitores do Partido Conservador apenas um decidiu não votar nesta primeira ronda. David Cameron é o nome do único abstencionista.

Depois da eliminação de Fox e da desistência de Crabb é já amanhã, na próxima votação, que ficarão a ser conhecidos os dois finalistas. A palavra passa depois aos cerca de 150 mil militantes do partido (uma regra aplicada pela primeira vez apenas em 2001). No fim de todo o processo, o novo líder do partido - e futuro primeiro-ministro do Reino Unido - será anunciado a 9 de setembro.

Apesar de a votação de ontem dar a entender que May é a grande favorita e a mais que provável sucessora de David Cameron, na história recente dos Tories nem sempre o vencedor da primeira ronda acaba entronizado como chefe do partido. Em 2001, por exemplo, Michael Portillo partiu na liderança com 29,5% dos votos e voltou a vencer na segunda ronda, com 30,1%, mas foi eliminado na seguinte. O líder escolhido acabaria por ser Iain Duncan Smith.

Também em 2005 aconteceu algo semelhante. David Davis ficou seis votos à frente de Cameron na primeira ronda, mas na segunda viria a perder para o futuro líder por 33 votos. Tudo depende de quem "herda" os apoios dos candidatos eliminados e também de algumas mudanças de opinião.

"É difícil trabalhar com May"

Votações à parte, o dia de ontem na política britânica ficou em grande parte marcado por uma polémica espoletada pela Sky News.

Malcolm Rifkind, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de John Major entre 1995 e 1997, e Kenneth Clarke, ministro da Justiça de Cameron entre 2010 e 2012, enquanto esperavam para serem entrevistados na estação televisiva, decidiram trocar algumas opiniões sobre o momento político. Uma câmara que estava ligada captou o diálogo entre os dois conservadores.

Alegando interesse público a estação decidiu emitir as imagens. Nas considerações que fez, Clarke foi muito pouco meigo para com alguns dos candidatos. "Com o Michael Gove como primeiro-ministro iríamos para a guerra com pelo menos três países ao mesmo tempo", afirmou o histórico do partido, que chegou a disputar a liderança em 1997, 2001 e 2005.

Clarke disse ainda que algumas das ideias que Andrea Leadsom tem defendido são "extremamente estúpidas", que estava convencido de que nem ela nem Boris Johnson eram verdadeiramente a favor da saída da União Europeia e sublinhou que Theresa May é uma mulher com quem é muito difícil trabalhar. Neste último ponto, Clarke, dirigindo-se a Rifkind, acrescentou uma nota de humor: "Bem, mas nós os dois trabalhámos com a Margaret Thatcher!"

Aproveitando as impressões de Clarke, os jornalistas questionaram o gabinete de David Cameron para saber se o primeiro-ministro confirmava que não é fácil lidar com May. "Ela fez um excelente trabalho como ministra do Interior e os dois colaboraram de forma muito próxima em muitas questões", respondeu uma porta-voz de Downing Street. Vários analistas entenderam que esta era uma forma de Cameron, subtilmente, endereçar o seu apoio a May, que, ainda que de forma muito tímida, defendeu a permanência do Reino Unido na União Europeia.

A responsável pela pasta do Interior e possível futura primeira-ministra foi ontem muito criticada por Nicola Sturgeon, chefe do governo escocês, e por Nigel Farage, que na segunda-feira apresentou a sua demissão da liderança dos independentistas do Ukip.

Falando sobre o que poderia acontecer aos nacionais de países da UE que vivem no Reino Unido, May afirmou que nada poderia ser-lhes garantido e que essa estaria entre as questões a serem debatida nas negociações com a Europa. Estas declarações tiveram o condão de pôr Sturgeon, acérrima defensora da permanência na UE, e Farage, uma das mais vibrantes vozes em favor do brexit, a dizer a mesma coisa. Ambos classificaram a posição de May como "nojenta". "É uma desgraça que uma candidata a primeira-ministra pense que seres humanos podem ser usados como moeda de troca numas negociações", sublinhou a líder do governo escocês.

O presidente da Comissão Europeia também escolheu o dia de ontem para lançar farpas até Londres. Boris Johnson e Nigel Farage foram os alvos. "São uma espécie de retro-nacionalistas, não são patriotas. Os verdadeiros patriotas não abandonam o barco quando as coisas se complicam. Ficam até ao fim", disse Jean-Claude Juncker, aludindo ao facto de Boris ter decidido não avançar para a liderança dos Tories e de Farage ter abandonado a chefia do Ukip - depois de ambos terem sido dois dos mais apaixonados defensores do adeus do Reino Unido à União Europeia.

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