Temer deixa Dilma dois dias sem verbas para comida

Torquato Jardim, ministro da Transparência desde terça-feira, criticou partidos que apoiam o governo Temer duas semanas antes da posse. Delator volta a envolver PMDB

Nomeado na terça-feira ministro da Transparência do governo liderado pelo presidente em exercício, Michel Temer (PMDB), em substituição de Fabiano Silveira, apanhado em gravações a tentar interferir na Operação Lava-Jato, o jurista Torquato Jardim já começa a dar dores de cabeça ao executivo. Em entrevista ao Diário do Povo, do estado do Piauí, de dia 18 de maio, Jardim classificava a base de apoio do novo governo como "um vexame" que permite a governabilidade em nome da "safadeza" e da "corrupção". "São um balcão de negócios", concluía. Membros dos partidos visados reagiram com veemência e exigiram explicações de Temer.

Jardim, já depois da controvérsia, explicou em pequena nota ao jornal O Estado de S. Paulo que fez "uma leitura multidisciplinar da política" e que não vê contradição em comprometer-se com o projeto de Temer "diante de uma perspetiva crítica da história". As críticas do ministro foram ao "centrão", como é chamado o conjunto de partidos - como PTB, PP, PR, PSD e outros - que trocaram o apoio ao governo do PT por uma aliança com o PMDB depois de ouvir as melhores ofertas, dos dois lados.

Para satisfazer o "centrão", de quem depende a governabilidade do país em termos legislativos, o governo Temer aceitou aprovar projetos esta semana na Câmara dos Deputados que aumentam em quatro anos os gastos públicos em mais de 50 mil milhões de reais (cerca de 12,5 mil milhões de euros) e criaram 14 mil novos postos de trabalho na função pública, em contexto de austeridade e crise.

Além dos problemas causados pelo ministro da Transparência on the record, as declarações de outros membros do governo off the record continuam a preocupar Temer. Sérgio Machado, o ex-presidente da Transpetro, transportadora subsidiária da Petrobras, afirmou em delação premiada na Operação Lava-Jato que pagou o equivalente a 17,5 milhões de euros à chamada "turma do PMDB do senado", o grupo mais influente do partido no poder. Os membros dessa turma são Renan Calheiros, presidente do Senado, José Sarney, ex-presidente da República e do Senado, Romero Jucá, ministro do Planeamento demitido há duas semanas, e os senadores Jader Barbalho e Edison Lobão. Machado já causara a demissão de Jucá e de Fabiano Silveira, protegido de Renan, em gravações.

Causou irritação à oposição, por outro lado, que na última quarta--feira Temer tenha cortado o "cartão de suprimento", dinheiro para abastecer a despensa a que a presidente afastada teria direito enquanto aguarda o veredito final do Senado sobre o impeachment. Segundo coluna de bastidores do jornal Folha de S. Paulo, Dilma ficou "furibunda" com "a mesquinharia de Michel Temer". No Palácio do Alvorada, onda ela se mantém, de acordo com o regulamento, circulam 30 funcionários. Contactada, a Secretaria do Governo disse que a suspensão foi provisória, enquanto esperava parecer jurídico sobre os direitos da ex-presidente, tendo sido levantada na noite de sexta-feira.

Enquanto isso, voltam a fazer-se contas aos votos dos senadores na votação definitiva do impeachment. Para ser oficializado como presidente, Temer precisa do voto de 54 dos 81 senadores, tendo em maio convencido 55. Nos últimos dias, porém, foram vistos de visita ao Alvorada para reuniões com Dilma, Cristovam Buarque (PPS) e Romário (PSB), senadores que votaram pela destituição provisória mas que agora se declaram indecisos.

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