Tartaruga sagrada embalsamada no Vietname

A técnica de embalsamar as figuras emblemáticas é algo comum no regime comunista. Desta vez, foi a vez de uma tartaruga, símbolo de independência e longevidade para a população vietnamita.

Depois dos líderes soviético Vladimir Lenine, chinês Mao Tse-tung ou vietnamita Ho Chi Minh, é a vez de uma tartaruga gigante ser embalsamada e exposta. O animal, conhecido no Vietname por Cu Rua ou Bisavô Tartaruga, e cuja morte ocorreu em 2016, era visto pela população como um símbolo de independência e longevidade, com um grande significado espiritual e cultural. E foi nesta semana exposto ao público, em homenagem ao que representa para a população vietnamita.

Uma lenda diz que, no século XV, um herói nacionalista pegou numa espada mágica, usou-a para expulsar as forças chinesas de ocupação e devolveu-a a uma tartaruga que surgiu em Hoan Kiem, no lago conhecido como o lago da Espada Devolvida. Um santuário de tartarugas foi construído numa pequena ilha situada no lago na década de 1880, em homenagem à lenda. O embalsamamento de Cu Rua foi visto pela população vietnamita como uma oportunidade de homenagear a lenda e o animal que viveu naquele lago durante 200 anos.

A morte de Cu Rua ocorreu durante um debate nacional sobre a perceção da dependência política e económica do Vietname em relação à China e provocou uma forte onda de tristeza entre o povo. Alguns chegaram a ligar a morte do animal como um mau presságio para o país e para o Partido Comunista. "As pessoas dizem que a morte da tartaruga traz má sorte e um caminho para os deuses mostrarem que algo está prestes a acontecer ", disse o cuidador do templo budista Vu Thach, localizado perto do lago ao New York Times.

A morte do animal, além de uma perda emocional, foi também uma perda para a biologia. Cu Rua era uma das últimas tartarugas gigantes de carapaça do Yangtze - também conhecida como espécie Rafetus swinhoei. Atualmente, só são conhecidos mais três animais da mesma espécie - um casal num jardim zoológico em Suzhou, na China, e uma tartaruga no lago Dong Mo, nos arredores de Hanói.

Apesar de as tartarugas de Suzhou não terem tido descendentes, descobertas recentes voltaram a reavivar a esperança de salvar a espécie. Uma tartaruga de carapaça do Yangtze foi encontrada em abril do ano passado e, poucos meses depois, outro animal da mesma espécie também foi visto no lago Dong Mo, segundo Tim McCormack, diretor do Programa de Tartarugas Asiáticas. Este disse na passada quarta-feira que as autoridades vietnamitas e os grupos internacionais de defesa da vida selvagem estão numa aliança de "recuperação da espécie" e a criar mais Rafetus swinhoei.

A prática de embalsamamento foi desenvolvida em 1970 por um anatomista alemão e é algo comum de realizar em personagens conhecidas, entre os regimes comunistas. O governo vietnamita rejeitou as técnicas tradicionais de mumificação e optou por plastificar o animal, com a ajuda de especialistas alemães.

O animal foi colocado num templo no lago Hoan Kiem, em Hanói. Acredita-se que Cu Rua morreu de causas naturais. No entanto, o lago Hoan Kiem é conhecido pela poluição, o que poderá ter prejudicado a sua saúde.

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