Staffan de Mistura. O otimista que está a tentar levar a paz à Síria

O italiano foi obrigado a adiar esta semana as negociações entre governo e oposição. O cerco a Aleppo está a levar a uma fuga de civis

O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu-se ontem para ouvir Staffan de Mistura explicar a decisão que tomou esta semana de suspender até dia 25 as negociações de paz. Na altura, o enviado especial da ONU para a Síria justificou a sua decisão, argumentando que era preciso "mais trabalho" para preparar todos as partes envolvidas - governo de Bashar al-Assad e oposição. Esta reunião foi pedida pela Venezuela, que atualmente preside a este órgão, com o embaixador venezuelano na ONU a explicar que a audição serviria para "estar em contacto com Staffan de Mistura e apoiar tudo o que precise para que as negociações sejam um sucesso".

Mas no terreno a situação tem novos contornos. Dezenas de milhares de sírios estão a fugir por causa da intensificação, registada ontem, dos ataques da Rússia em torno de Aleppo. Vários trabalhadores humanitários disseram à Reuters temer que a cidade poderá em breve ficar nas mãos das forças do regime de Bashar al-Assad.

Esta investida do governo sírio à zona de Aleppo, bem como os avanços no sul e noroeste, foram um dos motivos que levaram ao fracasso das negociações de paz marcadas para esta semana - o apoio da Rússia está a dar um novo impulso a Assad, que está a conseguir reverter as conquistas feitas pelos rebeldes no ano passado. O primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, afirmou ontem que 15 mil pessoas, fugindo aos ataques em Aleppo, já chegaram à fronteira da Turquia.

Convite pelo telefone

Diplomata de carreira e auto -definindo-se como um "otimista crónico", Staffan de Mistura foi anunciado como enviado especial das Nações Unidas para a Síria a 10 de julho de 2014, sucedendo no cargo do argelino Lakhdar Brahimi, que havia renunciado em maio, após dois anos de esforços falhados. Antes dele, Kofi Annan, antigo secretário-geral da ONU, também se havia demitido desta missão em agosto de 2012, depois de falhar a obtenção de um cessar-fogo.

Mistura levava uma vida tranquila na ilha de Capri quando, em julho de 2014, recebeu um telefonema do seu antigo patrão Ban Ki-moon, que lhe queria oferecer aquele que é talvez o emprego com a maior probabilidade taxa de insucesso: o de enviado especial da ONU para a Síria.

A decisão de aceitar não foi fácil. Depois de quatro décadas ao serviço das Nações Unidas, quase sempre em missões de risco no estrangeiro, estava finalmente a viver dias de paz, até porque tinha prometido à noiva e às duas filhas, de um casamento anterior, "uma vida mais normal", contou ao The Guardian. O insucesso dos seus antecessores também ajudava a esta hesitação.

Mas as palavras de Ban Ki-moon pesavam na sua consciência. "Senti-me culpado", referiu ao mesmo jornal britânico em julho do ano passado. "Ele partilhou comigo, muito sabiamente, a situação atual na Síria. Quantos mortos, quantos refugiados, o nível do horror", lembrou ainda. Eram três da manhã quando ligou ao secretário-geral das Nações Unidas a aceitar o cargo. Depois contou à noiva, que não ficou surpreendida.

Fluente em sete línguas

Nascido em Estocolmo, a 25 de janeiro de 1947, filho de pai italiano e mãe sueca, Mistura adotou como suas as nacionalidades dos seus progenitores. O pai pertencia a uma família nobre de Šibenik, na Croácia, que fugiu após a Segunda Guerra Mundial, como a maioria dos italianos da Dalmácia.

É licenciado em Ciências Políticas pela Universidade de Roma. Tem a reputação de ser um diplomata inovador e criativo, com uma simpatia pelas causas dos refugiados. Afinal, o pai foi um refugiado.

Com uma carreira de quase quatro décadas nas Nações Unidas, Staffan de Mistura fez um interregno entre 2011 e 2013 para servir o governo italiano, primeiro como subsecretário dos Negócios Estrangeiros e depois como ministro adjunto da mesma pasta. Em maio de 2014 foi nomeado presidente do conselho de governadores do Instituto Europeu para a Paz, uma organização não-governamental apoiada pela UE. Cargo acumulou com a liderança da Fundação Villa San Michelle, uma associação cultural sueca em Capri, e o posto de cônsul honorário do país nórdico nesta ilha italiana. Vida tranquila que abandonou para regressar às Nações Unidas, aceitando a nomeação de enviado especial para a Síria.

A sua carreira na ONU foi feita quase sempre em locais de alto risco. O início deu-se em 1971 no Programa Alimentar Mundial no Sudão e depois no Chade, onde liderou a primeira operação de lançamento aéreo de bens essenciais alguma vez feita pela ONU. No final dos anos 80, tornou-se coordenador do programa no Afeganistão, país ao qual havia de regressar entre 2010 e 2011 como enviado especial.

O Iraque é outro local que conhece bem. Esteve lá nos anos 90 como coordenador humanitário e voltou mais uma vez como enviado especial entre 2007 e 2009. Passou também por zonas como o sul do Líbano, Kosovo, Sarajevo, Etiópia, Vietname e Laos. Experiências que beneficiaram do facto de falar sete línguas: sueco, italiano, inglês, francês, alemão, espanhol e árabe, este de forma coloquial.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG