"Sou 100% portuguesa o que é uma homenagem aos meus avós e pais"

A longa história da família de Ângela Costa Simões, na América desde 1910, ou como uma jovem abraçou as raízes e trabalhou para a comunidade sem falar uma palavra de português. Neste verão o DN republica algumas das reportagens integradas na rubrica sobre portugueses e luso-americanos de sucesso Pela América do Tio Silva. Este artigo foi publicado originalmente a 16 de fevereiro de 2018.

"Tens de falar com a Ângela, a Ângela Costa Simões." Ouvi este conselho não sei ao certo quantas vezes enquanto fui preparando a viagem à Califórnia. Diziam-me que era a pessoa certa para falar sobre a comunidade portuguesa no Norte da Califórnia, que estava envolvida em inúmeras instituições portuguesas, que conhecia toda a gente, que seria a chave para um bom trabalho. Era a pessoa com quem falar.

Apelidos portugueses, nome próprio não americanizado. Confesso que estava à espera de alguém na casa dos 70 ou 80 anos. A surpresa aconteceu ainda durante uma troca de e-mails para marcar um encontro. Ângela respondia em inglês e contou, numa das mensagens, que era emigrante de terceira geração. Tinha acabado de marcar uma entrevista com alguém que é uma improbabilidade estatística.

Ângela tem 41 anos, a família está nos Estados Unidos desde a primeira década do século passado e visitou Portugal pela primeira vez aos 22 anos, em 1998, para visitar a Expo. Os bisavôs chegaram à Califórnia por volta de 1910. A família do lado do pai vinda dos Açores, da Terceira, e a família da mãe deixando para trás uma aldeia na zona da Guarda.

A conversa em casa de Ângela decorreu sempre em inglês. Avisou de início que não se sente à vontade a falar português em ambiente de entrevista. Apesar da forte ligação à comunidade, às tradições e raízes da família, só começou a aprender a língua já adulta. "Enquanto crescia nunca aprendi. Quase não falávamos português entre as crianças. Sou a mais nova de cinco irmãos e, infelizmente, sou a única que tem alguma ligação à comunidade. Só comecei realmente a aprender português em 1998, quando fui a Portugal, sozinha, para ver a Expo"98. Levei um pequeno guia e fui aprendendo algumas coisas durante a viagem. Depois tive aulas em São José, mas o essencial tenho aprendido nas minhas viagens a Portugal."

Uma improbabilidade. Ângela é a única dos cinco irmãos que mantém interesse e contacto com Portugal. Os avós e os pais já nasceram nos Estados Unidos e não era nada óbvio esse interesse. "É uma longa história, mas eu ainda sou 100% portuguesa, o que é um testemunho e uma homenagem aos meus avós e aos meus pais." Pergunto quando sentiu pela primeira vez essa identidade diferente das outras crianças da escola. "Desde muito cedo, desde o início", responde Ângela. "Cresci a marchar nas paradas e nas festas do Espírito Santo. Aos fins de semana, enquanto as minhas amigas brincavam com bonecas, nós estávamos nas paradas a comer sopas e filhoses. Fazia sempre qualquer coisa de diferente do resto das minhas amigas. E depois, quando és uma menina e és uma rainha da festa, com direito a usar uma coroa e um manto... [risos] É o sonho de qualquer rapariga. Andava sempre a mostrar os vestidos e a coroa às minhas amigas americanas".

Ângela não sabe como explicar a sua diferença em relação aos irmãos. Foi algo de natural, diz. "Para mim, sempre foi algo de inato. Ou tens essa ligação ou não tens. Eles também participavam nas festas como eu, também comiam o que eu comia, foram criados da mesma maneira. Às vezes as pessoas têm mais interesse noutras coisas, como o desporto. Não sei explicar..."

Falamos sentados à mesa, na cozinha, com a parede ao nosso lado decorada com cartões com ilustrações e palavras em português, que vão servindo para ensinar a filha de 4 anos a aprender a língua. Ângela sabe que está a entrar numa batalha difícil. "Há imensos miúdos cujos pais estão muito envolvidos na comunidade, nas atividades, e que não têm qualquer interesse. Nas atividades e na língua, apesar do esforço dos pais. Eles tentam ensinar-lhes o português, levam os miúdos às festas, mas eles não querem saber, não se interessam." E não seria boa ideia modernizar um pouco os eventos da comunidade? "É um dos temas que temos debatido. Temos tentado encontrar uma forma de envolver esses miúdos nas nossas atividades. Mas como é que os chamamos? Como é que fazemos com que se interessem? Como é que conseguimos levá-los até ao ponto em que passam a ter vontade de participar, de se voluntariar. É tudo na base do voluntariado..." É uma questão que não é exclusiva desta comunidade portuguesa - o envelhecimento e a perda dos laços nas gerações mais novas. "Temos um grupo de folclore e estamos atualmente em pausa porque não temos pessoas suficientes", conta Ângela com um encolher de ombros.

Sempre com um brilho nos olhos e as mãos a voar à sua frente, marcando o ritmo da conversa, das memórias e das emoções, Ângela tenta explicar o que vai correndo menos bem entre a comunidade portuguesa naquele pedaço da Califórnia. "Os tempos mudaram. Hoje, as famílias mais jovens estão ocupadas com as suas carreiras, não têm tempo. Os pais têm ambos de trabalhar, enquanto há uns anos as mulheres talvez tivessem mais tempo livre para se dedicar à comunidade. Agora, os miúdos também têm horários mais carregados, com mais desporto e atividades fora da escola. Tudo isso custa dinheiro e tempo." No fundo, não conta nada de estranho para qualquer pai ou mãe em Portugal. "Os pais têm de levar as crianças aos jogos às sete ou oito da manhã, aos sábados e domingos." O problema surge quando é preciso contribuir para manter as tradições. "Depois aparecemos nós a dizer: "Agora tens de aparecer ali no hall da comunidade portuguesa para ajudar num almoço ou num jantar, e vais ter de servir às mesas." Acho que as pessoas andam cansadas e têm de fazer escolhas: "Hoje não vais ao jogo porque temos de participar na festa." E talvez isso devesse ser uma opção, de facto, e as famílias talvez devessem poder dizer: "Este ano vamos fazer as coisas portuguesas em vez do desporto." Não sei..."

Ao fim de um bom pedaço de conversa, Ângela avança com uma explicação que resolve boa parte da equação. Como é que ela, que não falava uma palavra de português, lusodescendente de terceira geração, se apegou tanto às atividades da comunidade. Afinal, não foram apenas os vestidos de princesa. "Nunca fui uma geek na escola, mas também não estava no grupo dos populares. Nunca gostei muito da escola do ponto de vista do social. Talvez fosse por isso que me sentia em casa nas atividades da comunidade, no portuguese hall. Tinha lá os meus primos, conhecia toda a gente e tinha bons amigos. E nos bailes os rapazes dançavam com as raparigas. Não era como na escola, onde as meninas dançavam sozinhas num grupo e os rapazes ficavam encostados à parede a um canto. Sempre me senti mais confiante e mais aceite no hall, talvez por isso tenha ficado e criado laços." Foi uma questão de confiança no momento decisivo da adolescência. "Ajudou-me a criar uma identidade. Na escola éramos todos parecidos uns com os outros. Afinal, aos fins de semana, era a rainha da festa." A marca ficou. "Não conheço muitas pessoas de terceira geração que tenham esta ligação à comunidade. Mas é assim. Eu adoro a música, adoro a comida... gosto de tudo. É onde me sinto mais em casa."

A avó, que estava a tomar conta da filha naquele final de tarde, passa pelo espaço que liga a sala à cozinha e trocam umas palavras. Em inglês. Pergunto se essa identidade diferente que sentiu desde os primeiros anos de escola nunca lhe causou problemas. Ângela responde que não, mas diz ter consciência de que vive na Califórnia, na zona da baía de São Francisco. Uma bolha de tolerância. "Aqui na Califórnia a diversidade cultural é algo que é realmente acarinhado. A minha filha tem 3 anos, está no pré-escolar e a turma é composta maioritariamente por filhos de indianos e de casais asiáticos. Mas isso é aqui. Sobretudo aqui na zona da baía de São Francisco. Acho que vivemos numa bolha. Se formos para o midwest ou mesmo noutras comunidades portuguesas... Mas não sinto que a língua seja uma barreira como era noutros tempos. As pessoas continuam a tentar com muito afinco ensinar o português aos filhos. Tenho muitos amigos que estão sempre a queixar-se: "Nós só falamos em português com eles, mas respondem sempre em inglês. Talvez seja por só falarem inglês na escola..."

Ângela Costa Simões deixou há pouco mais de um ano uma carreira longa na área das relações públicas em empresas de tecnologia no vale, em Silicon Valley. Tem agora uma série de projetos próprios em mãos - uma aplicação para telemóveis, um site com venda online de produtos com alguma ligação a Portugal, como pequenas peças de joalheiro ou uma almofada para eventos desportivos produzida em Braga e uma coleção de livros infantis bilingues. "É o meu primeiro livro. Para crianças, bilingue, em português e inglês. Chama-se Pretty Girl, Linda Menina. A razão que me levou a escrevê-lo é simples. Nós temos imensos livros em português para a Aurélia, mas eu não sei o que eles dizem porque não falo português fluentemente. Por isso pensei: "Se os escrever nas duas línguas, aprendemos as duas." É o primeiro de uma série, já tenho mais dois escritos à espera das ilustrações."

Nos planos já tem prevista uma ligação ainda maior a Portugal, quem sabe passando pela educação da filha. "O meu marido é de primeira geração e tem boa parte da família em Portugal, em Lisboa. Tem primos em Nova Jérsia e uma sobrinha aqui, mas... tentamos ir lá o mais que podemos. O ideal será passarmos todos os verões em Portugal. Queremos que a nossa filha tenha contacto com crianças portuguesas e temos o sonho de a pôr a estudar numa universidade em Portugal. Não sei se ela vai achar piada e concordar [risos], mas é o nosso plano." Uma opção que justifica sobretudo com o custo do ensino, muito mais barato em Portugal.

A conversa escorrega de novo para as questões da comunidade e os eventos um pouco datados, que não convencem as gerações mais novas. Ângela vê uma mudança lenta a acontecer e algumas barreiras. "Já há alguns sítios que começam a organizar outro tipo de eventos, como provas de vinhos e assim. Acho que o passo essencial e o mais difícil será conseguir trazer outros espetáculos, bandas com música mais moderna. Eu adoro o pimba, atenção, mas devíamos estar a mostrar à comunidade que há mais música para lá do pimba. Há os Xutos & Pontapés, os GNR, etc."

Talvez fosse um caminho para conseguir uma ligação entre dois mundos distantes na região da baía de São Francisco - a comunidade portuguesa mais tradicional e os novos emigrantes que trabalham ou têm negócio nas tecnológicas. Ângela conta que "são pontes difíceis de construir. Os interesses são muito diferentes. Não é fácil. Um desses jovens empresários soube de um sítio onde podia comer uma bifana em São José, veio de São Francisco e começou a falar com alguns portugueses e lusodescendentes lá nesse restaurante. Perguntaram-lhe: "Porque é que vocês não aparecem aqui para as festas, para o Espírito Santo?" E ele respondeu que não estava muito interessado. "Regresso a Portugal todos os anos, sou português, mas não estou interessado nas festas do Espírito Santo." E o pessoal daqui disse logo: "Ah, se não gostas das festas, não és verdadeiramente português!" Às vezes vêm aqui alguns desses emigrantes mais novos e ficam espantados. "O que é isto?! Mas nós já não fazemos nada disto em Portugal!""Já em fim de conversa e sem ter arriscado uma palavra sequer em português, Ângela diz que, quando toca a trabalho na comunidade, "cai sempre tudo em cima de cinco ou seis pessoas". Dá o exemplo do Festival do Dia de Portugal em São José, um festival "ótimo" e que tem estado entregue a "meia dúzia de pessoas com oitenta e tal anos" que fazem todos os preparativos na véspera. "Qualquer dia não vão lá estar, não vai durar..."

Esta é apenas uma das faces visíveis de uma comunidade em processo de envelhecimento acelerado. Little Portugal, em São José, é um bairro já com poucas marcas que justifiquem o nome e, passeando pela rua, ouve-se mais espanhol do que português. Há a igreja das cinco chagas, um ou outro restaurante, as casas do Benfica e do Sporting, uma estação de rádio e pouco mais. Ângela assume que boa parte da culpa é da própria comunidade. "Se vão começar a queixar-se de que não têm um restaurante português onde jantar, que não há uma loja onde comprar produtos portugueses, quando existir uma loja dessas têm de lá ir fazer compras, têm de ir ao restaurante. A alternativa é ver esses espaços a fechar. A verdade é que há quem viva bem dizendo que tem sangue português, que vai a Portugal sempre que quer e que não quer ter nada que ver com a comunidade, com as festas, com as lojas ou com os restaurantes. É triste, mas se é como se sentem, tudo bem. É preciso vontade, pessoas, trabalho, dedicação e um pouco de sacrifício para manter isto a funcionar."

"Somos uma comunidade muito silenciosa"

A relação de Ângela Costa Simões com a política é sinal dos tempos e é quase padrão em vastas faixas de potenciais eleitores norte-americanos. "Não confio em nenhum político e já não sei o que é verdade e o que é mentira, em que é que devo acreditar. A mesma história é apresentada de duas formas completamente diferentes, os dois lados acusam-se de mentir e ambos andam a pegar em conjuntos de factos e a torturá-los à sua maneira para contar uma história. Este é um tempo muito confuso e assustador para se viver."

Ângela diz-se conservadora, mas não consegue identificar-se com o atual partido Republicano e com as táticas de Donald Trump. "As pessoas estão muito intolerantes, mais do que nunca. Infelizmente, quando as pessoas têm medo, agem e reagem de forma radical. Trump aproveitou-se disso. Sou conservadora, mas há muitas coisas na extrema-direita com que não concordo. Votar Republicano nestas condições é muito estranho." Depois há falta de escolhas no sistema bipolar norte-americano. "As pessoas estão fartas de Washington porque sentem que não têm uma verdadeira escolha. Só temos dois partidos - Democrata e Republicano. Gostava de ter outras opções".

E o tema da imigração, como é visto pelos portugueses e pelos lusodescendentes? "O que encontramos aqui não é uma rejeição dos imigrantes, mas antes qualquer coisa do género: "Os meus pais vieram para cá de forma legal. Preencheram os papéis todos, pode ter demorado muitos anos, mas entraram no país legalmente. É o que todos devem fazer." Isso é comum ouvir quando se fala de imigração ilegal, mas não há um ódio a quem está a chegar ao país".

Ângela nota ainda, na comunidade portuguesa, traços antigos que dificultam uma maior participação. "Somos uma comunidade muito silenciosa, muito calma. Não há muitos portugueses a protestar e a reivindicar coisas para si e para a sua comunidade. Não sei se é um traço genético, mas a regra é: "Trabalha, trabalha muito, paga os teus impostos e não faças ondas, não arranjes problemas." Em casa, sim. Fazemos a nossa comida, falamos português, vamos às nossas festas aos fins de semana, mas quando chega à presença na sociedade... "não faças muito barulho". Não sei se é por medo, mas é uma característica muito nossa." Já há bons exemplos, como a luta pelos programas de língua portuguesa na Universidade da Califórnia. "Há uns anos estava previsto um corte no financiamento e nós conseguimos arregimentar pessoas para fazer telefonemas e escrever cartas e e-mails aos legisladores. Dissemos: "Não! Se vão construir um museu arménio também devem gastar dinheiro nos programas de português." E a lei foi mudada. O financiamento voltou."

Portugal como destino de negócio

Ângela tem diversos projetos pessoais e empresariais em andamento, uns ligados à tecnologia, outros nem tanto, mas quase todos com um pé em Portugal e outro na Califórnia. "Gostava que mais pessoas aqui olhassem para Portugal como um país onde se pode fazer negócio, um país capaz de produzir coisas, de produzir bem, com qualidade." Pega numa das almofadas para usar em bancadas de estádios ou piqueniques que criou e vende online, para dar o exemplo. "Isto é feito em Braga. Consultei empresas na China, mas escolhi produzir em Portugal. É apenas um dólar mais caro, mas compensa. A qualidade é melhor, consegui visitar a fábrica e falar com as pessoas. Faz toda a diferença."

À distância de um oceano e um continente, para oeste, Ângela vê oportunidades a passar ao lado de portugueses daqui e de lá. "Gostamos muito de ler artigos sobre a moda portuguesa, sobre joalharia ou sobre o sucesso de uma ou outra tecnológica. O mais provável é que tenha sido um estrangeiro a reparar nisso e a dizer: "Olha, está aqui uma bela oportunidade!" Temos de começar a olhar mais para o que sabemos fazer bem e a vender no estrangeiro." Até porque o custo e a qualidade compensam. "Os custos do trabalho são baixos em Portugal, sobretudo quando falamos de talento na área das tecnológicas. Estou a trabalhar numa aplicação para telemóveis e recebi uma cotação de uma empresa indiana - cem mil dólares - e recebi uma cotação de uma empresa portuguesa para o mesmo trabalho, por 20 mil dólares. Estou a trabalhar com os portugueses. Já passámos dos 20 mil dólares, porque eles inicialmente não perceberam bem o que eu queria, mas estão a fazer um trabalho fantástico. Não nos promovemos, não vendemos os nossos sucessos enquanto país e enquanto empresários portugueses. Isso tem de mudar."

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