Sondagem dá nova maioria ao independentismo catalão

Há pressões para Puigdemont antecipar eleições autonómicas. Mas pesquisa de opinião mostra que os independentistas voltariam a ter mais deputados no Parlamento catalão

O objetivo do primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, com o acionar do artigo 155.º da Constituição é demitir o governo e forçar eleições no prazo máximo de seis meses para permitir o regresso à legalidade. Mas, segundo uma sondagem para o El Periódico, se as eleições fossem hoje, o independentismo voltaria a conquistar a maioria de deputados no Parlamento catalão (mais uma vez sem ter a maioria de votos). Apesar de o presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, estar a ser pressionado para antecipar as autonómicas, o conselheiro do Interior e porta-voz do governo, Jordi Turull, diz que esse cenário não está sobre a mesa.

A sondagem do Gabinete de Estudos Sociais e Opinião Pública, feita antes de Rajoy anunciar os planos para o artigo 155.º, revela que se as eleições fossem agora a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), do atual vice-presidente Oriol Junqueras, teria 43 ou 44 deputados. A estes seria preciso juntar os 18 ou 19 do Partido Democrata Europeu Catalão (de Puigdemont e do ex-presidente Artur Mas). Nas eleições de 2015, ambos concorreram na aliança Junts pel Sí, que conquistou 62 deputados. A maioria ficaria completa com os nove ou dez eleitos pela Candidatura de Unidade Popular (CUP), que atualmente tem dez representantes. Com uma nova vitória, os independentistas poderão sentir-se legitimados para manter o desafio ao governo central e não solucionar o problema.

Na sondagem, só os socialistas ganhariam deputados em relação às autonómicas de 2015. Contudo, em relação à sondagem anterior, em dezembro de 2016, toda a oposição, à exceção da coligação que inclui o Podemos, sobe. Ainda assim não consegue derrotar o independentismo. Este volta contudo a não conseguir ser maioria de votos, ficando-se pelos 47,9% (apenas mais uma décima do alcançado em 2015). Em relação à sondagem anterior, a ERC perderia deputados (tinha então entre 48 e 50), com o PDeCAT a ganhar (de 15 a 17 para 18 ou 19), assim como a CUP (no final do ano passado só elegeria seis).

A sondagem é conhecida no início de uma semana decisiva na Catalunha, que culminará na sexta-feira quando o Senado espanhol aprovar a aplicação do artigo 155.º. O Partido Popular tem maioria, mas conta com o apoio do PSOE e do Ciudadanos. No mesmo dia, segundo disseram fontes do governo catalão aos jornais locais, deve decorrer o plenário no Parlamento da região para discutir a tentativa de Rajoy de "liquidar o autogoverno", como apelidou Puigdemont.

O formato desse debate será discutido na conferência de líderes de hoje. A maioria independentista (Junts pel Sí e CUP) estuda recorrer a um Debate de Política Geral ou a um em que esteja só um tema em cima da mesa, sendo que ambos culminam com a votação de resoluções propostas no momento. Num plenário normal, seria necessário indicar antes o que se votaria e o Tribunal Constitucional poderia atuar.

O primeiro-ministro espanhol pediu no ao Senado o poder para demitir todo o governo catalão e convocar eleições no prazo máximo de seis meses. Durante esse prazo, a Generalitat será governada a partir de Madrid, com o Parlamento catalão a ficar também praticamente destituído de poder. O artigo 155.º permitirá ainda atuar junto das forças de segurança, com o eventual afastamento do major dos Mossos d"Esquadra, Josep Lluís Trapero. Mas também a intervenção na televisão e rádio públicas da Catalunha de forma a garantir uma informação "verdadeira, objetiva e equilibrada". Os trabalhadores da TV3 já denunciaram um "ataque direto, indigno e impúdico à liberdade de expressão e de informação".

A presidente da câmara de Barcelona, Ada Colau, defende que todos os atores trabalhem ao longo desta semana para evitar o artigo 155.º. "Temos que trabalhar ativamente para que não se chegue a aprovar, porque complicaria a situação", disse, criticando tanto o governo espanhol como uma eventual declaração unilateral de independência. Colau lembra que "mais cedo ou mais tarde" terá que haver eleições porque estamos diante do "esgotamento" do processo, mas defendeu que estas ocorram sem ser "numa situação de anomalia, com muita tensão e mais polarização".

Semana decisiva
Hoje › A conferência de líderes do Parlamento catalão é às 10.30 (09.30 em Lisboa). Será marcado o plenário pedido por Puigdemont para discutir a aplicação do artigo 155.º.

Terça-feira › Às 11.00 (10.00 em Lisboa) há conferência de líderes do Senado espanhol e uma hora depois reunião da Mesa. Será criada uma comissão, com 27 senadores, para analisar a proposta de Rajoy.

Quarta e quinta › O estudo da proposta deve durar dois dias, tempo durante o qual Puigdemont pode defender o seu caso. Relatório final é conhecido na quinta-feira.

Sexta-feira › Num plenário extraordinário, discute-se o relatório final, com a presença de Rajoy e vota-se a aplicação do artigo 155.º. Plenário no Parlamento catalão poderá ser neste mesmo dia, com eventual voto e declaração de independência.

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