Sintonia entre Sánchez e Rivera esbarra na participação do PP no eventual acordo

Secretário-geral socialista recebeu ontem o líder do Ciudadanos, que insiste na necessidade de PSOE e PP abandonarem a "guerra fria" e dialogarem para se poder desbloquear o impasse político. Hoje é a vez do Podemos

Existe "vontade de diálogo e acordo" entre o PSOE e o Ciudadanos, mas o problema é que os dois partidos não conseguem sozinhos garantir um acordo de governo em Espanha. E por muita sintonia que possa existir entre Pedro Sánchez e Albert Rivera, esta esbarra nas visões distintas que têm sobre qual deverá ser o papel do Partido Popular (PP). O primeiro insiste que este "precisa passar à oposição, renovar-se e reciclar-se". O segundo que é preciso acabar com a "guerra fria" entre PSOE e PP, pois é impossível governar sem um acordo a três. "É aritmética pura."

Sánchez e Rivera estiveram reunidos durante uma hora e meia no Congresso espanhol, concordando começar já hoje as reuniões entre as equipas de negociadores para chegar a acordo de governo sobre cinco temas centrais: políticas sociais e luta contra o desemprego; regeneração democrática; reforma constitucional; economia e política fiscal; Europa e política exterior. "Penso que há espaços comuns nos quais Ciudadanos e PSOE se podem entender", disse o líder socialista em conferência de imprensa.

Mas nem tudo são rosas. Uma das dores de cabeça dos negociadores promete ser o contrato único (para acabar com os contratos a prazo), central nas políticas do Ciudadanos, mas criticada pelo PSOE na campanha. E mesmo se houver acordo, os 90 deputados socialistas e os 40 do Ciudadanos são insuficientes para vencer a votação de investidura de Sánchez, face a um voto negativo do PP (123 deputados) e do Podemos (69 deputados).

O partido de Mariano Rajoy, que sem apoios recusou ir ao debate de investidura, nega-se a apoiar um governo que não seja liderado pelo primeiro-ministro em exercício. Já a formação liderada por Pablo Iglesias diz ser incompatível qualquer acordo com o PSOE que envolva o Ciudadanos. E Rivera recusa apoiar Iglesias. "Não podemos estar num pacto de governo com o Podemos, mas nas políticas transversais de Estado, claro que estamos abertos a que outros partidos possam apoiar", indicou o líder do Ciudadanos.

"Penso que não se pode pôr veto a nenhum partido ou ideologia", disse Sánchez, lembrando que "dialogar não é chegar a acordo". Mas o próprio secretário-geral socialista já vetou os independentistas bascos do Bildu, que não quer receber nem mesmo para dizer "não", como fará com os independentistas catalães.

O El Mundo noticiou ontem a existência de contactos entre um dos principais assessores de Sánchez e o chefe de gabinete de Rajoy, sobre uma eventual abstenção do PP no debate de investidura. "Surpreendeu-me essa informação e sou o secretário-geral do PSOE", disse. O porta-voz dos socialistas no Congresso, Antonio Hernando, admitiu o encontro, assegurando contudo que não houve qualquer pedido para uma abstenção do PP.

Rivera não teve problemas em dizer que está a negociar com o PP, apresentando-se mais uma vez como eventual mediador entre os dois partidos mais votados a 20 de dezembro. "Se o PP e o PSOE não abandonam a guerra fria não haverá acordo", alertou Rivera. "Ninguém pode governar se não tem o acordo de três partidos. É aritmética pura", acrescentou, recordando que Sánchez não pode "virar costas" aos sete milhões de eleitores do PP.

Iglesias ultrapassa Sánchez

Rajoy repetiu ontem diante dos deputados do PP que votará contra um governo do PSOE, seja apoiado por Ciudadanos ou Podemos, falando dos riscos para a economia espanhola de um executivo de "radicais". A aposta do primeiro-ministro, que insiste em liderar o próximo governo com o apoio de Sánchez e Rivera, pode passar pela realização de novas eleições.

O barómetro do Centro de Investigações Sociológicas, ontem divulgado pelo El Mundo, coloca o PP na liderança, com 28,8% das intenções de voto (igual às eleições). Em segundo lugar surge o Podemos, com 21,9% (mais 1,2 pontos percentuais), ultrapassando o PSOE que cai de 22% para 20,5% das intenções de votos. O Ciudadanos também perde alguns votos, caindo de 13,9% para 13,3%.

O problema é que o barómetro foi feito entre 2 e 11 de janeiro, ainda antes da negativa de Rajoy ao rei e de ser conhecida a proposta do Podemos para apoiar o PSOE - que inclui o cargo de vice-primeiro-ministro para Iglesias. Hoje, Sánchez recebe o líder do Podemos.

Visita ao Reino Unido cancelada

O longo processo de negociações de governo em Espanha obrigou a adiar a visita de Estado de Felipe VI ao Reino Unido, que deveria ocorrer de 8 a 10 de março. Seria a primeira visita de alto nível do rei a Londres em 30 anos. Esta é a segunda viagem que os monarcas espanhóis têm de cancelar este ano, depois de terem suspendido a ida à Arábia Saudita por causa da execução de 47 pessoas no início do ano neste país. Felipe VI e Letizia têm prevista uma outra visita de Estado em abril ao Japão e Coreia do Sul.

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