80 anos depois da Noite dos Cristais em Berlim uma sinagoga ficou para contar a história

Passados 80 anos da Noite dos Cristais, que iniciou a perseguição nazi aos judeus, ainda há uma sinagoga que ficou para contar a história, porque muitas outras, juntamente com lojas, foram queimadas ou destruídas a 09 de novembro de 1938.

Há fotografias a preto e branco um pouco por toda a estação de comboios de Oranienburger Strasse, em Berlim, que mostram uma cidade que já não existe, edifícios e monumentos destruídos pela Segunda Guerra Mundial.

A Nova Sinagoga não é exceção, as cicatrizes estão bem presentes na fachada, única parte que se manteve praticamente intacta depois desse período da história.

Mas antes das bombas, e de ser ocupada pelas Schutzstaffel, (SS), organização paramilitar ligada ao partido nazi, este espaço, que hoje funciona praticamente como museu, sobreviveu a uma das noites mais negras da Alemanha.

A história contada pela Nova Sinagoga é recordada à Lusa por Pacelli Luckwu, guia turístico.

Há dois agentes da polícia que vão contornando as entradas que dão para a Oranienburger Strasse, mas na noite de 9 de novembro de 1939, o papel dos agentes não foi o de proteger, mas sim o de deixar arder mais de mil sinagogas.

A Nova Sinagoga, construída em 1866, local em que onde Albert Einstein chegou a dar um concerto de violino, foi uma exceção.

"Houve um alemão que conseguiu salvar a sinagoga de um incêndio e é visto como um herói. Chamava-se Wilhelm Krützfeld. O que geralmente mencionámos nos nossos passeios aqui pelo bairro judeu é que não havia unanimidade no que toca à perseguição, ou seja, nem todos os alemães eram nazis, nem todos odiavam e perseguiam os judeus. Gostamos de partilhar histórias de resistência, de alemães que arriscaram a própria vida", conta Pacelli Luckwu.

O guia turístico e blogger acrescenta que Krützfeld era "uma espécie de chefe da polícia de Berlim. Quando viu que as tropas das SA (Sturmabteilung) queriam incendiar a sinagoga, conseguiu expulsá-los. Depois obrigou os bombeiros a apagar o fogo".

Pacelli Luckwu e Nicole Plauto são autores do blogue "Agenda Berlim" e organizam vários passeios pela cidade onde a Nova Sinagoga e a Noite dos Cristais são temas muito abordados.

"Neste caso, os bombeiros foram obrigados a apagar o fogo porque, nessa noite, eles estavam apenas a assegurar-se que os incêndios não se espalhavam pelos edifícios vizinhos. Mas todos os prédios pertencentes à comunidade judaica, deixavam arder até que se desmoronassem. E esse foi o caso de milhares de edifícios ligados à comunidade judaica ou que pertencessem a algum judeu", realça o guia turístico.

A Noite dos Cristais, em alemão "Kristallnacht" foi, de acordo com Pacelli Luckwu, "consequência de várias outras coisas".

"Dois dias antes, a 7 de novembro, um judeu de origem polaca, chamado Herschel Grynszpan, decidiu vingar-se. A irmã e os pais faziam parte dos 12 mil judeus alemães de origem polaca levados até à fronteira com a Polónia, para serem expulsos do país. A Polónia também não os aceitou e acabaram por ser muito mal tratados. Em Paris, Grynszpan decidiu comprar uma arma no mercado negro, foi até à embaixada da Alemanha, e matou o diplomata alemão Ernst vom Rath. Foi baleado cinco vezes e acabou por morrer no dia 9", explica o guia turístico e blogger.

"Precisamente nesse dia, o partido nazi estava a comemorar uma tentativa de golpe falhado que tinha acontecido anos antes, em 1923, na cidade de Munique. Quando souberam da notícia, acabaram por instrumentalizar essa morte contra os judeus, incitando o ódio e a violência. Foi o ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, que acabou por se aproveitar disso, tentando cair nas boas graças de Hitler", descreve Pacelli Luckwu.

Calcula-se que mais de 7 mil comércios pertencentes a judeus, na Alemanha e na Áustria, tenham sido vandalizados e destruídos. Os vidros no chão, iluminados pela luz da lua, deram origem ao nome Noite dos Cristais.

"Cerca de cem judeus foram mortos, espancados brutalmente nas ruas. É importante relembrar que antes de Hitler chegar ao poder, os judeus na Alemanha eram mais de 500 mil. Até 1938, mais de metade desses judeus já tinham ido embora da Alemanha. Portanto, existiam cerca de 250 mil judeus naquela altura e, numa única noite, 30 mil foram presos. Desses, 6 mil foram enviados para o campo de concentração de Sachsenhausen, que fica aqui perto de Berlim", lembra.

O dia 9 de novembro de 1938 marcou um "ponto de viragem".

"A partir desse momento ficou claro que o aparato burocrático da Alemanha estava completamente dominado pelo partido. Até essa noite, se um judeu fosse vítima de violência ou se a sua loja fosse assaltada e ele recorresse à polícia, eles ajudavam. Depois passou a acontecer quase o contrário", recorda Pacelli Luckwu.

Apesar de no dia 9 de novembro se assinalarem outros marcos históricos importantes para a Alemanha, como a queda do Muro de Berlim (em 1989), ou a instauração da República (em 1918), não é feriado no país.

Ninguém esquece a Noite dos Cristais, sublinha Pacelli Luckwu, "não há comemorações oficiais porque é um dia muito respeitado pelos alemães".

*Lusa

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