Separatistas iemenitas tomam palácio presidencial em Aden

Os combates em Aden fizeram pelo menos 18 mortos, entre combatentes e civis, de acordo com fontes médicas e de segurança.

Combatentes separatistas tomaram este sábado o palácio presidencial em Aden, capital do Iémen, após vários dias de combates, uma vitória que assume um caráter essencialmente simbólico, uma vez que o presidente Abd Rabbo Mansour se encontra na Arábia Saudita.

"Tomámos o palácio às forças da Guarda Presidencial sem um combate", disse à agência francesa AFP um porta-voz de uma força militar separatista denominada "Cordão de Segurança".

De acordo com várias fontes militares, os combatentes separatistas tomaram ao longo do dia o controlo de três casernas das forças governamentais em Aden, onde o poder lealista se estabeleceu depois da queda da capital histórica do país, Sana, no norte, às mãos dos rebeldes Houthis.

Os combates em Aden prolongam-se desde a passada quarta-feira entre combatentes separatistas e soldados do Governo, constituído por uma coligação apoiada pela Arábia Saudita e pelo emirado do Abu Dhabi. Esta coligação arábo-sunita combate no norte do país os rebeldes xiitas Houthis, apoiados pelo Irão.

Os combates em Aden fizeram pelo menos 18 mortos, entre combatentes e civis, de acordo com fontes médicas e de segurança. Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras, mais de 75 feridos foram tratados num hospital dirigido pela ONG.

O governo iemenita tinha apelado na passada quinta-feira à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos para "fazerem pressão urgente" sobre os apoiantes de um Iémen do Sul independente, por forma a "impedir" uma escalada militar.

O Iémen do Sul foi um estado independente até 1990. No sul, é ainda muito forte o ressentimento contra os iemenitas do norte, acusados de terem imposto pela força a unificação do país.

A guerra civil no Iémen fez já cerca de 3,3 milhões de deslocados e 24,1 milhões de pessoas, ou seja, mais de dois terços da população, têm necessidade de assistência, de acordo com as Nações Unidas.

Os combates em Aden tornam ainda mais confusa a situação no país, que se vê confrontado com o risco de "uma guerra civil dentro de uma guerra civil", de acordo com um relatório do instituto de análise de conflitos International Crisis Group (ICG).

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.