Senado autoriza bebés mas nada de mudar fraldas ou amamentar

Dez dias depois de Tammy Duckworth se ter tornado na primeira senadora a ser mãe no cargo, câmara aprova por unanimidade mudança das regras, num exemplo de apoio à família.

Desde 1977, quando autorizou a entrada de cães-guia, que o Senado dos EUA não mudava as regras. Até ontem - dez dias depois de Tammy Duckworth se ter tornado na primeira senadora a ser mãe no cargo - quando aprovou, por unanimidade, uma proposta que permite a presença de crianças até um ano na câmara alta do Congresso americano. Gostaria de agradecer aos meus colegas, de ambos os partidos, [...] por ajudarem a trazem o Senado para o século XXI ao reconhecer que por vezes os pais recentes também têm responsabilidades no trabalho", escreveu no Twitter.

Os senadores americanos têm de votar as leis presencialmente, podendo as sessões prolongar-se por várias horas e, muitas vezes, noite dentro. Por isso, Duckworth, antiga congressista eleita em 2016 para o Senado, não tenciona gozar a licença de maternidade - 12 semanas não remuneradas, segundo a lei federal. Com esta mudança nas regras, os senadores pretendem facilitar a vida a Duckworth, de 50 anos, e aos outros colegas que precisem de levar os filhos para a câmara, mostrando que podem liderar pelo exemplo no que se refere às políticas de apoio à família. O republicano Roy Blunt, presidente da Comissão das Regras do Senado explicou à BBC já ser difícil ser pai e que as normas da câmara não o devem tornar ainda mais complicado.

Muitas questões

Mas numa câmara em que dos cem senadores só 22 são mulheres e em que a média de idade é de 62 anos, esta alteração das regras não aconteceu sem que fossem colocadas primeiro algumas questões. Ouvida pelo site de notícias Quartz, a senadora democrata Amy Klobuchar, também membro da Comissão das Regras, falou sobre algumas das perguntas que se levantaram. A começar por saber se Duckworth tenciona amamentar a filha na câmara, o que, garante Klobuchar, esta "não tenciona fazer". A questão da amamentação nunca foi, contudo, colocada diretamente pelos senadores, sendo antes apresentada pelos assistentes ou outros emissários. E, quando confrontados diretamente, todos lhe disseram não ter feito a pergunta.

Outra dúvida prendia-se com a mudança de fraldas. Duckworth esclareceu que não pretende trocar a filha na câmara. Quanto à hipótese de a senadora do Ilinóis poder votar a partir da sala onde os assistentes mantêm os eleitos informados do decorrer da votação, Klobuchar explicou que esta é de difícil acesso para Duckworth, que em 2004 perdeu ambas as pernas na queda do helicóptero que pilotava em Bagdad, tendo de se deslocar com ajuda de canadianas quando usa as próteses ou de recorrer à cadeira de rodas. Além disso, para chegar à sala em questão, a senadora teria sempre de atravessar a câmara.

Recordando que "o Senado não gosta de mudanças", Klobuchar garante ainda ter sido questionada sobre um eventual dress code para o bebé - uma questão que pode parecer anedótica caso as senadoras não tivessem sido autorizadas a usar calças apenas nos anos 90 - e sobre o choro da criança. Neste último caso, a senadora explicou que Duckworth "levará a bebé para outro local caso ela comece a chorar".

Se agora se tornou na primeira senadora a ser mãe no cargo, Tammy Duckworth já entrara para a história uma vez que é uma das dez eleitas, em 242 anos de história desde a independência dos EUA, a darem à luz enquanto cumpriam o mandato na Câmara dos Representantes. Casada desde 1993 com Bryan Bowlsbey, hoje major da Guarda Nacional, ser mãe foi um sonho difícil de concretizar. A primeira filha, Abigail, nasceu em 2014 depois de longos tratamentos de fertilidade. Mas o casal não queria uma filha única. Numa entrevista ao Chicago Sun Times, Duckworth explicou agora: "Fiz vários ciclos de tratamentos e tive um aborto espontâneo a tentar engravidar de novo, por isso estamos muito gratos". No passado dia 9 nascia Maile Pearl.

Se nos EUA Maile vai ser a primeira bebé a entrar no Senado, noutros países ver crianças no Parlamento já se tornou comum. Vittoria, a filha da eurodeputada italiana Licia Ronzulli, acompanha a mãe nas votações no Parlamento Europeu desde as sete semanas. Na Nova Zelândia, cuja primeira-ministra Jacinda Ardern está ela própria grávida, o presidente do Parlamento, Trevor Mallard, já prometeu tornar a câmara mais "amiga da família". E até segurou a bebé de uma deputada enquanto esta discursava.

Algumas críticas

Mas nem todas as deputadas que levaram os filhos para o trabalho foram elogiadas. Da espanhola Carolina Bescansa, a co-fundadora do Podemos, acusada de estar a dar espetáculo ao levar o filho Diego para o Parlamento, enquanto a japonesa Yuka Ogata teve de deixar a Assembleia municipal de Kumamoto por pressão dos colegas masculinos no dia em que levou o bebé.

Em Portugal, o Parlamento não tem nenhuma regra que proíba a presença de bebés, mas não se conhecem casos de deputadas que tenham levado os filhos para o hemiciclo. A Assembleia da República tem uma creche à disposição dos funcionários.

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