"Sauditas querem aprender a sua história com portugueses"

Fahad Abdullah Alsammari é secretário-geral da Fundação Rei Abdulaziz, que trouxe a Lisboa uma exposição sobre manuscritos sauditas. Em entrevista ao DN, falou das mudanças no reino e também da vontade do seu povo em aprender história através de testemunhos portugueses de há 500 anos.

Até ao fim de agosto, os portugueses podem conhecer na Torre do Tombo manuscritos antigo sauditas. O que é que a Arábia Saudita tem mais para mostrar ao mundo em termos de produção cultural?

A Arábia Saudita, em termos de cultura, tem uma civilização muito antiga que vem da pré-história até hoje. A Península Arábica, que é maioritariamente a Arábia Saudita, tem uma cultura muito rica desde as antigas civilizações até à atualidade. É uma cultura viva, significativa, e gostaríamos de a mostrar ao mundo para que este compreendesse a Arábia Saudita de um ponto de vista diferente.

Está a falar em termos de arte, música...

Estou a falar de arqueologia, história, folclore. Estou a falar de arte, especialmente pintura, das nossas tradições, danças populares - temos dezenas de formas de danças folclóricas -, que devem ser divulgadas e as pessoas podem ver e desfrutar.

A Arábia Saudita é muitas vezes vista como o país das cidades santas muçulmanas de Meca e Medina; na história da Arábia Saudita sobressai também a presença de sociedades pré- islâmicas?

Sim. A Península Arábica é um ponto de origem de migrações árabes para todo o mundo, África e Ásia principalmente. Temos as construções dos Nabateus e outras anteriores aos Nabateus no norte da Arábia; essas pessoas estiveram em contacto com os impérios romanos e cristãos, o que é importante para nós pois temos também artefactos romanos que vêm desse contacto. No passado esse contacto era muito apreciado, como deve ser hoje também, por isso usamos o passado para desenvolver o nosso futuro.

No que respeita à arquitetura das vossas cidades - estive em Riade que é uma cidade verdadeiramente moderna -, mas Meca e Medina, interditas a não muçulmanos, representam talvez o melhor da Arábia Saudita.

Naturalmente, se falarmos de arquitetura em termos de sítios antigos onde as construções estão preservadas, sim, essas cidades têm edifícios muito bonitos que mantêm as velhas tradições. Em termos de cidade como um todo temos uma arquitetura moderna, mas estão a usar novamente o que é antigo, se foi a Riade viu que há atualmente uma tendência para a utilização da arquitetura da Arábia Central nas casas e nos edifícios modernos. Quem for a Meca verá também a mesma tradição arquitetónica do uso das varandas em madeira decoradas com muita arte. Portanto, mesmo nos tempos modernos, as pessoas estão a usar réplicas das coisas antigas. A influência da arquitetura tradicional vê-se em toda a Arábia Saudita, seja em Meca, Medina, Riade ou Jidá.

A Arábia Saudita tem sido vista tradicionalmente como um país muçulmano muito conservador; há agora uma mudança na imagem do país, iniciada depois do rei Salman e do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman estarem à frente do país. Esta é verdadeiramente uma mudança na forma da atuação da Arábia Saudita? Quão profunda é a mudança?

O que vê não é uma mudança na essência, nos princípios - a Arábia Saudita continua agarrada aos mesmos princípios. O que vê é uma abertura ao verdadeiro Islão, porque este tem sido distorcido no passado e fora da Arábia Saudita, por um lado e, por outro, a abertura do país para as pessoas o compreenderem. A sociedade tem sido conservadora, mas ao longo do tempo, essencialmente desde o início do século XX, tem vindo a mudar gradualmente, não se pode forçar uma mudança. Atualmente, o governo pode completar a mudança da sociedade, as pessoas começaram a acostumar-se a ela. Porque é que elas são conservadoras? São conservadoras devido à natureza da alma saudita e dos seus princípios. Têm receio de se abrir a outras culturas que a possam afetar, mas esta é uma perceção errada. O rei Salman e o príncipe Mohamed estão a conseguir conciliar aquilo que as pessoas pensam e o que nós vemos como islâmico. Estão a ir às origens do Islão, o Islão não é objeto de abertura devido à modernização, a abertura está naquilo que as pessoas percecionam. Como a perceção das pessoas é importante, tem de ser gradual. Temos avançado muito gradualmente desde a década de 1930. Nos anos vinte do século passado havia uma rejeição de certas partes da sociedade em relação ao uso das novas tecnologias, como o telégrafo e o telefone, devido ao que aconteceu no Iraque. O rei da altura, o Rei Abdulaziz, foi capaz de as convencer da importância dessas tecnologias para as pessoas. O sistema educativo foi introduzido e os reis seguintes foram alargando essa abertura. Assim, não é uma coisa nova, a mudança vem do passado, é a continuação de uma mudança que acompanha os princípios e não o que as pessoas pensam.

De qualquer maneira, tem havido tantas notícias sobre a Arábia Saudita durante o último ano - são os cinemas que reabrem, é o primeiro concerto de Jazz, depois as mulheres terem finalmente licença para conduzir -, que a perceção é de que esta mudança está a avançar muito rapidamente.

Parece rápida vista do exterior, mas internamente não é assim tão rápida pois a maioria das leis foram preparadas, porque têm de existir leis. Por exemplo, qualquer ação contra as mulheres tem de estar na lei, ao conduzirem carros tem de haver legislação que proteja as pessoas; para os cinemas também tem de haver regulamentos. Desde que as leis sejam aplicadas pode haver abertura. Pode-se perguntar: porque não mais cedo? Porque não tivemos cinema mais cedo? Tal como disse é difícil forçar a perceção das pessoas, mas primeiro era preciso estabelecer a regulamentação e depois dizer às pessoas que estávamos prontos, que não era preciso esperar mais.

Mas é o rei que sugere às pessoas novas direções ou é a pressão vinda dos jovens que sugere ao rei que é necessário mudar um pouco a sociedade?

Não, não foi a pressão. Foi o governo que entrou num processo de novas ideias de governação, o mundo está diferente, mais de 60% da população da Arábia Saudita é jovem, a economia não pode depender do petróleo e a sociedade abriu-se, toda a gente tem as suas tecnologias próprias, já nada é como era há 20 anos. Todas estas coisas acostumam o país a novos desenvolvimentos, mantendo os princípios com regulamentos. Quando há 20 anos algumas mulheres pediam para conduzir carros, as autoridades religiosas disseram que não havia nada no Islão que o impedisse, não havia nenhuma regra contra isso, mas a nível social não estávamos prontos. Desde então, o reino tem avançado ao longo das últimas duas décadas, de forma a ficar pronto, assim, desta vez, o rei tomou a decisão pois estávamos prontos. O departamento automóvel tinha as leis estabelecidas, a proteção das mulheres também estava aprovada pelo governo. As mulheres podem ser assediadas em qualquer lugar, não é só na Arábia Saudita, mas é preciso haver leis e regulamentos. As pessoas, às vezes, têm medo das coisas novas. Algumas famílias pensam que o cinema é mau, mas agora os jovens têm o cinema nas suas mãos, por isso, a perceção das pessoas começou a mudar, começaram a aceitar, e isso é o essencial. Se os sauditas saírem para o estrangeiro veem cinema, porque não verem-no dentro do seu país?

Há um grande número de jovens sauditas a estudar no estrangeiro e a terem contacto continuado com o mundo exterior?

Temos mais de 200 mil estudantes em licenciaturas, mestrados e doutoramentos, a maioria nos Estados Unidos, e também na Europa, na Austrália, na Índia, na Coreia.

Neste momento são 200 mil?

Neste momento temos mais de 200 mil estudantes a estudar no estrangeiro. Porquê? Porque o anterior rei Abdullah estabeleceu este programa, pois as universidades dentro do reino da Arábia Saudita não chegavam para todos os estudantes e ele preparou o programa para eles saírem. Os primeiros, aproximadamente 20 mil, foram para cerca de 60 países para estudar. O melhor disto é que os sauditas regressam não só com o conhecimento adquiridos nos EUA, no Reino Unido ou na Alemanha, mas também na Coreia, na Austrália e, assim, temos uma mistura de conhecimentos a regressar, e também de mulheres e de homens. Este ano foram estabelecidos novos regulamentos para os sauditas saírem e também para os graus ou níveis especiais que devem frequentar para que sejam cada vez melhores.

É possível dizer que há neste momento a viver no reino, provavelmente um milhão de sauditas com experiência de viver no estrangeiro?

Exatamente.

Isso também afeta a evolução da sociedade?

Claro que sim. E no verão eles também saem, vão para a Europa, Estados Unidos, países árabes, mesmo em Portugal começamos agora a ver muitas pessoas a virem. Portanto, eles não estão confinados. Quando falamos com estas pessoas que saem sobre mudar o seu país, elas ficam muito defensivas, não dizem: "Isto está errado". Vão para o estrangeiro e fazem-no, mas talvez tenham medo. Por isso, o governo criou o ambiente que torna aceitável a mudança.

Até que ponto é importante preparar o futuro para depois do petróleo? É possível imaginar uma Arábia Saudita não dependente do petróleo?

Sim, com o plano de reformas Visão 2030 que está atualmente em vigor. A atual visão não está concentrada apenas na economia, está concentrada no bem-estar das pessoas, na estrutura governamental, na educação e, também, no enriquecimento da personalidade saudita. Cada programa do governo tem as suas próprias iniciativas e cada programa tem os seus gabinetes de ministros e ministros-adjuntos, assim toda a gente está a trabalhar em cada círculo, e isso significa que quando chegarmos a 2030, a Arábia Saudita estará preparada para o futuro com petróleo e sem petróleo. Este ano foi instituído o IVA, foram também instituídas novas comissões, como a comissão especial para a cultura, a comissão para as pequenas empresas, para o investimento e desenvolvimento. Até 2019, 2020 vai haver muitos novos programas disponíveis e durante a próxima década, até 2030, vamos ver todos esses programas a serem desenvolvidos.

Será possível, no futuro, ver a Arábia Saudita como um destino turístico, não um turismo religioso, mas um turismo normal?

Claro que sim. O príncipe Mohammed anunciou dois grandes projetos, um é nas ilhas do Mar Vermelho, porque são ilhas lindíssimas e preservadas, e o príncipe Mohammed com a sua visão de que estes lugares são importantes, e o clima no Mar Vermelho é perfeito, estabeleceu uma empresa governamental para as preparar para o turismo. O outro projeto chama-se NEOM e fará a ligação com a Jordânia e o Egipto; uma megacidade que será o centro da economia e do turismo. Estes dois projetos vão ser imensos e muito bonitos. Temos também o anúncio do maior parque de diversões do país, que vai ser um parque diferente, com vista para as montanhas, vales e deserto, e cujos alicerces foram lançados há poucas semanas. Se for para as cidades antigas, como Jidá, vê-se como estão focadas no desenvolvimento, se for para este, temos um grande projeto no Golfo. Todas estas coisas farão com que sejamos um destino para os não muçulmanos virem, e para os muçulmanos que vêm a Meca e Medina e que podem ir a estas coisas também, estabelecendo uma ligação com a sua história islâmica. Temos como alvo tanto os não muçulmanos como os muçulmanos.

Este processo de mudança na Arábia Saudita foi inspirado por outros países na região ou é completamente diferente?

É um processo que tem origem exclusivamente no pensamento do rei Salman e do príncipe Mohamed. O Rei Salman é um campeão de longa distância do desenvolvimento; ele esteve no governo de Riade durante 50 anos, onde estava encarregado de desenvolver a cidade, e Riade, por causa dos seus palácios e da sua dedicação e esforços, tornou-se uma das melhores cidades do mundo em termos de desenvolvimento. Quando se tornou rei já tinha este interesse, e o príncipe Mohamed, jovem e com boa cabeça, assume a responsabilidade de desenvolver o país até ao mais alto nível que conseguir. Assim, temos a experiência e a juventude, a alma e o espírito, todos juntos. É preciso ver o plano Visão 2030 a fundo, para lá dos títulos, e ver que cada programa corresponde a qualquer coisa local, não estamos a explorar ideias estrangeiras, este plano está focado em grandes princípios. Um deles é a localização do Reino da Arábia Saudita, entre os três continentes; o segundo é a sua longa, longa história; o terceiro tem a ver também com Meca e Medina, que vão ser diferentes daquilo que eram no passado, porque vão estar abertas durante todo o ano para todos os muçulmanos que conseguir acomodar. No passado havia uma quota para peregrinos de cada país. Portanto, tudo isto tem origem no pensamento do rei Salman e do príncipe Mohamed e na vontade do país de mudar e acomodar-se ao novo futuro.

Relativamente à condição feminina, também é importante ter mais mulheres no mercado de trabalho?

Todas as agências governamentais têm mulheres a trabalhar. Há uma comissão especial para desenvolver as capacidades e as competências das mulheres; claro que é preciso ter boas capacidades para trabalhar aí, não é por se ser mulher que se tem logo trabalho. Todas as mulheres que tiverem capacidade e boas competências têm trabalho. O príncipe Mohamed falou nisso, as mulheres são exatamente como os homens, também alguns destes têm boas competências e outros não. Assim, o trabalho está aberto aos melhores, sejam homens ou mulheres, é esta a atual política do reino. Se for aos departamentos governamentais que estão a trabalhar com a Visão 2030 encontra mulheres que estão muito contentes, muito entusiasmadas por fazerem parte disto. Mesmo as secções de homens estão a aceitar isto e a avançar.

Em termos da imagem do seu país no mundo - imagino que viaje muito -, vê mudanças e mais simpatia para com a Arábia Saudita nos últimos tempos?

Primeiro temos de compreender que há alguns países que não gostam da Arábia Saudita. No passado, no século XVIII, o Estado Saudita, em 1744, estabeleceu-se muito sólido na Península Arábica e o que havia à nossa volta, como o Império Otomano, os britânicos, os franceses, por causa da colonização, não gostaram disso. Assim, começaram a distorcer a imagem do Estado Saudita relativamente ao wahabismo e começaram a espalhar a imagem do wahabismo como uma coisa negativa.

Isso há três séculos, aquando do chamado Primeiro Estado Saudita?

Sim, vem dessa altura. É a mesma coisa que se lhe falarem de portugueses e disser: "Sim, sou português, o que há de errado com os portugueses?" Eles começaram a distorcer a imagem do wahabismo e isso é errado. Hoje em dia, a Arábia Saudita está a avançar para um novo desenvolvimento, um novo futuro e nem todos os países estão felizes com isso. Felizmente são poucos, não são muitos, mas isso também distorce a imagem da Arábia Saudita. Ao seguir os meios de comunicação atuais, fico feliz por ver que muitos países começaram a aceitar a ideia de aprender a conhecer a Arábia Saudita, não quero que eles acreditem na minha palavra e digam: "OK, vocês são bons", não, quero que eles aprendam sobre nós e depois emitam o seu julgamento, que não façam o julgamento através de diferentes meios de comunicação, que venham e conheçam o país. Não quero que as pessoas mudem a imagem que têm porque nós queremos que elas mudem.

De qualquer forma, há uma mudança positiva na imagem do reino?

Há, há uma mudança positiva, porque a maioria dos países não têm uma agenda, não têm razões para nos odiar, e estão a mudar a forma como olham para as coisas e isso é melhor.

Relativamente às relações com Portugal, esta exposição de manuscritos no nosso Arquivo Nacional, em Lisboa, é importante, embora já tenha havido outras. Na Arábia Saudita as pessoas têm alguma ideia sobre Portugal, sobre a nossa presença na região alguns séculos atrás?

É por isso que estamos aqui, queremos mostrar aos portugueses o que somos, o que é a nossa cultura. Os portugueses também precisam de lá ir, de levar o seu conhecimento sobre a nossa região de há muito tempo, porque nós vemos fontes britânicas, fontes francesas, mas não estamos a ver fontes portuguesas e as fontes portugueses ajudar-nos-iam em muitas coisas. Primeiro, levar-nos-iam algo que nós não conhecemos sobre as nossas origens de há muito tempo, do século XVI, antes dos britânicos e dos franceses.

Estão interessados em saber o que foi escrito sobre a Arábia Saudita há cinco séculos pelos portugueses?

Exatamente. Se trouxerem material de Portugal, exposições, para a Arábia Saudita, as pessoas apreciarão os esforços portugueses para nos dizerem como era a nossa região há muito tempo, coisas que nós não sabemos. Isso faz falta e é por isso que viemos a Portugal, para dizer que gostaríamos de conjugar esforços para obter material para mostrar lá. A visão portuguesa da história saudita é importante porque estiveram lá há muito tempo, escreveram coisas, desenharam mapas da região. Estamos agora a traduzir alguns livros de português para árabe, de momento são dois, um deles é sobre o Mar Vermelho e o outro são documentos sobre a nossa região, estamos a pô-los em árabe para que os investigadores árabes tenham novas fontes. Isto é importante para nós e agradecemos aos portugueses e gostaríamos de os apresentar.

Há algumas fortalezas portuguesas em Omã, no Bahrein e mesmo nos Emirados. Na Arábia Saudita também há alguma coisa do género?

Não, penso que foram destruídas, mas não estamos a falar do confronto, isso é passado. Estamos a falar do que os portugueses escreveram sobre o que viram quando lá chegaram. Procuramos informação a partir dessas fontes portuguesas para compreender o nosso país. Queremos aprender a nossa história com os portugueses. Se conseguirmos isso teremos uma boa cooperação, se dissermos: "Os portugueses foram invasores" então não haverá ligação.

É a história, afinal nós também fomos invadidos pelos árabes...

E os franceses e os alemães, quantas guerras lutaram, e agora são inimigos? Não. É importante usar o passado para compreender o meu país. Ler, ver, essa é a contribuição dos portugueses que eu gostaria de ter.

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