"Salvador dos judeus", os Golã e a embaixada: 'bromance' entre Trump e Netanyahu tem novo capítulo

Primeiro-ministro israelita chega esta segunda-feira a Washington para novo encontro com o presidente americano, com eleições legislativas previstas em Israel para 9 de abril.

"Em Israel não temos um amigo melhor do que a América", afirmava Benjamin Netanyahu há pouco mais de um ano, por ocasião dos 70 anos do Estado de Israel. Depois da relação algo tensa com Barack Obama, o primeiro-ministro israelita não esconde a química com o presidente Donald Trump. Tanta que já levou os media a falar num "bromance" entre os dois líderes - um amor entre irmãos que esta segunda-feira tem uma nova etapa. Com as legislativas israelitas de 9 de abril à porta, o chefe do Governo de Israel volta a Washington, onde tem encontro marcado com Trump. O sexto entre os dois homens desde que Trump chegou ao poder em janeiro de 2017.

Acompanhado pela mulher, Sara, e pelo filho, Yair, Netanyahu vai ficar hospedado em Blair House, bem perto da Casa Branca, onde na terça-feira vai participar num jantar. Da agenda do primeiro-ministro consta ainda um discurso na Comissão Americana de Assuntos Públicos de Israel, bem como reuniões com com congressistas e senadores tanto democratas como republicanos.

Netanyahu deverá aproveitar novo encontro com Trump para agradecer as suas declarações no Twitter, esta semana, de que "está na hora" de os EUA reconhecerem os Montes Golá como território israelita. O presidente americano, que já em 2018 tomara a atitude simbólica de mudar a embaixada dos Estados Unidos de Telavive para Jerusalém foi apontado pelo seu secretário de Estado como um "salvador dos judeus".

Numa entrevista à rádio Christian Broadcastinh Netywork, realizada durante uma visita a Israel, Mike Pompeo, questionado sobre a semelhança entre Trump e a Rainha Ester, que salvou os judeus dos persas, e cujo feito se celebra no feriado do Purim, respondeu ser "possível" que Deus tenha enviado Trump para salvar o povo judaico da ameaça iraniana.

Soberania de Israel sobre os Montes Golã

No encontro desta segunda-feira com Netanyahu, Trump vai reconhecer a soberania de Israel sobre os Montes Golã. O anúncio foi feito ontem no Twitter pelo ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Israel Katz.

O presidente americano usara a mesma rede para, na quinta-feira, afirmar que: "Após 52 anos chegou a hora de os Estados Unidos reconhecerem totalmente a soberania de Israel sobre os Montes Golã, que são de importância crítica para a estratégia e segurança do Estado de Israel e a estabilidade regional."

Os Montes Golã foram capturados à Síria por Israel na guerra dos Seis Dias em 1967 e em 1981 o Estado hebraico estendeu a sua legislação e administração a todo aquele território. Uma situação que não foi reconhecida pela comunidade internacional.

O reconhecimento americano, cuja soberania a Síria continua a disputar, significa uma viragem na política de Washington em plena campanha eleitoral em Israel. Netanyahu, cuja reeleição a 9 de abril é tudo menos certa, tem pressionado os EUA a reconhecerem a soberania de Israel sobre os Montes Golã. A possibilidade foi mencionada pelo próprio em fevereiro de 2017, no seu primeiro encontro com Trump na Casa Branca.

O primeiro-ministro israelita apressou-se a agradecer a posição de Trump. Netanyahu, que tem alertado para o facto de o Irão, arqui-inimigo de Israel, estar a instalar profundamente no território sírio aproveitando a instabilidade que oito anos de guerra causaram naquele país, usou o Twitter para escrever: "Numa altura em que o Irão procura usar a Síria como plataforma para destruir Israel, o presidente Trump corajosamente reconhece a soberania de Israel sobre os Montes Golã".

Em meados de novembro, os EUA votaram pela primeira vez contra uma resolução da ONU que considerava a anexação dos Montes Golã "nula e sem efeito". Foi o único país a votar contra, ao lado de Israel.

Enviado por Deus para salvar os judeus

Um dia depois de Trump ter anunciado que os EUA iam reconhecer a soberania israelita sobre os Montes Golã, Mike Pompeo, de visita a Israel não hesitou em admitir que o presidente americano pode ter sido "enviado por Deus para salvar os judeus". Porquê? Questionado durante uma entrevista para a rádio Christian Broadcasting Network se Trump "surge hoje um pouco como a Rainha Ester, para salvar o povo judaico da ameaça iraniana", o secretário de Estado americano respondeu que "enquanto cristão, acredito certamente que é possível".

O ex-diretor da CIA disse-se ainda "confiante que o Senhor está a trabalhar nesse sentido".

Figura bíblica, a figura da Rainha Ester é celebrada pelos judeus no Purim. Mulher do rei persa Xerxes, Ester intervém quando um dos ministros decide exterminar todos os judeus do Reino, convencendo o marido a conceder direitos o direito a defender-se quando forem atacados.

Mudança da embaixada

Velhos aliados - Israel foi nas sete décadas desde a sua criação o maior recipiente de ajuda dos EUA - os dois países viveram nos anos de Administração Obama uma época de rara frieza. Muito provocada pela falta de química entre o presidente americano e Netanyahu, com a assinatura do acordo entre os EUA, os restantes membros do Conselho de Segurança e a Alemanha e o Irão sobre o programa nuclear daquele país, em 2015, a marcar o ponto momento mais agudo dessa "crise". Uma frieza que, apesar de tudo, nunca pôs em causa umas relações fortes, reforçadas pela grande e poderosa comunidade judaica nos EUA - mais de cinco milhões de pessoas mas com um lóbi que lhe dá um peso bem maior do que a percentagem de população que representam (menos de 2% dos 330 milhões de americanos).

Com a chegada de Trump à Casa Branca começou o tal bromance com Netanyahu. Depois de uma curta paragem na Arábia Saudita, Israel foi o destino da primeira visita do presidente republicano ao estrangeiro - logo em maio de 2017, quatro meses após ter tomado posse.

No poder desde 2009 (depois de uma primeira passagem pela chefia do governo israelita entre 1996 e 1999), Netanyahu faz agora a sua sexta visita aos EUA.

Mas cedo viu Trump fazer o primeiro gesto simbólico em relação a Israel. A 6 de dezembro de 2017, o presidente americano anunciava a intenção de mudar a embaixada americana de Telavive para Jerusalém. A transferência aconteceu a 14 de maio de 2018, naquele que Trump garantiu ser "um grande dia" para Israel, que nesse dia celebrava o 70.º aniversário.

Trump não esteve presente pessoalmente, mas enviou a filha Ivanka e o genro Jared Kushner - ambos seus conselheiros - para o representar.

A cerimónia decorreu no até então consulado dos EUA em Jerusalém, localizado desde 2010 no bairro de Arnona. Este está parcialmente construído na "terra de ninguém", que era a fronteira entre Israel e a Cisjordânia, sob administração da Jordânia até 1967.

O dia ficou marcado por protestos em Jerusalém. Nas seis semanas que antecederam a cerimónia houve confrontos na fronteira da Faixa de Gaza com as forças de segurança israelitas, tendo havido mais de 50 mortos e mais de mil feridos entre os palestinianos.

Ao mudar a embaixada para Jerusalém, Trump está implicitamente a reconhecer a cidade como capital do Estado hebraico. Quando em 1948 foi declarada a independência de Israel e, depois disso houve a guerra israelo-árabe, Jerusalém foi dividida, com a parte Ocidental a ficar para Israel e a Oriental controlada pela Jordânia. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel ocupou a parte Oriental , tendo vindo desde então a construir nessa zona colonatos judaicos. Estes são considerados ilegais pela comunidade internacional, algo que o governo israelita contesta. Os palestinianos, por seu lado, reivindicam Jerusalém Oriental como a capital do futuro Estado da Palestina. Isso mesmo têm reafirmado nas negociações para se chegar a uma solução de dois Estados independentes, vivendo lado a lado, em paz. As negociações têm estado, porém, numa espécie de ponto morto, sem conhecer grandes avanços.

A acrescentar a isto estão os diferentes significados que Jerusalém tem para as várias religiões. Para os cristãos foi o local da paixão, zona onde Jesus Cristo foi crucificado. Para os muçulmanos, é o lugar onde o profeta Maomé ascendeu aos céus e, para os judeus, foi a cidade declarada como capital dos judeus pelo rei David. Por isso, Jerusalém atrai peregrinos de diferentes religiões em busca de lugares sagrados, como Monte Calvário, mesquita de Al-Aqsa ou Muro das Lamentações.

Um peso histórico e religioso que torna Jerusalém num verdadeiro barril de pólvora, o que não impediu a decisão de Trump. Que já foi entretanto seguida por vários países. A Roménia foi o último a anunciar que vai mudar a embaixada de Telavive para Jerusalém. Se o fizer junta-se a EUA e Guatemala, mas vários outros manifestaram a intenção de o fazer, como é o caso por exemplo do Brasil.

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