Eleições no Brasil: Romário faz do Rio a sua grande área

Ex-craque lidera corrida a governador do estado onde nasceu, nove anos depois de trocar o futebol pela política - e colecionar sucessos e controvérsias.

Romário de Souza Faria, do Podemos, lidera a corrida ao governo do estado do Rio de Janeiro, de acordo com a sondagem do instituto Ibope, da TV Globo e do jornal O Estado de S. Paulo divulgada nas últimas horas. Um resultado que só surpreende quem não acompanhou os nove anos da bem-sucedida, consistente mas controversa carreira política do Rei da Grande Área.

A vantagem é curta: Romário soma 14% dos votos, apenas mais dois pontos do que Eduardo Paes, do DEM, e Anthony Garotinho, do PRP, ou seja, dentro da margem de erro. Mas o destaque está noutros números: ao contrário de Paes, que foi, na qualidade de prefeito carioca, o principal aliado político anos a fio de Sérgio Cabral, antigo governador cujas condenações na Lava-Jato superavam os cem anos de cadeia no início da operação, e de Garotinho, que teve passagem controversa pelo cargo ao qual se volta a candidatar, o ex-futebolista tem baixa rejeição. A rejeição de Paes - isto é, o percentual de eleitores que não votam nele de forma alguma - é de 38%. A de Garotinho de 55%. E a de Romário de 23%.

Acresce que no primeiro, e até agora único, debate entre candidatos ao governo do Rio, promovido pela TV Bandeirantes, a maioria dos observadores achou que o "baixinho", apesar de menos experiente do que a maioria dos concorrentes, não saiu derrotado. Beneficiou, aliás, de uma violenta troca de farpas entre Paes e Garotinho, foi sincero ao afirmar que, por não dominar temas económicos, deixaria o comando da área ao seu secretário do setor, e ainda protagonizou o momento mais mediático da noite. Depois de Márcia Tiburi, a filósofa que concorre pelo PT, ter lamentado não haver negros candidatos a governador, Romário disse: "Eu sou o negro do debate."

A corrida pelo governo do Rio surge como um passo natural na carreira política do melhor jogador do mundo de 1994, chamado um dia de melhor da história dentro da grande área, por Eurico Miranda, presidente do seu clube de formação, o Vasco da Gama.

Em 2009, concorreu a deputado federal pelo PSB, sendo o sexto mais votado de todo o estado nas eleições de 2010. Em 2014, candidatou-se à câmara alta do Congresso, o Senado. Venceu graças à visibilidade do seu nome mas também por causa da intensa produção parlamentar enquanto deputado: foi um dos 20 parlamentares mais atuantes, de acordo com um ranking da revista Veja; liderou projetos de lei para melhorar a vida das crianças que, como uma das suas filhas, são afetadas com o síndrome de Down, o seu maior combate; envolveu-se na defesa dos autistas; lutou pelos funcionários públicos reformados por invalidez; e foi uma das raras vozes críticas ao andamento das obras para o Mundial de 2014 resumida numa frase profética: "Essa gente vai roubar, e muito!"

Em 2016, votou pelo impeachment de Dilma Rousseff, ao que tudo indica, em troca da indicação de uma aliada para o cargo de secretária nacional da Pessoa com Deficiência num eventual governo de Michel Temer. E, ainda nesse ano, apoiou a candidatura vencedora do bispo da IURD Marcelo Crivella (PRB) à prefeitura do Rio de Janeiro.

Já em 2017, passou do PSB para o Podemos, votou pela perda de mandato do colega senador envolvido em caso de corrupção Aécio Neves (PSDB) e anunciou a intenção de concorrer ao cargo de governador.

Pelo meio, disse em entrevista à revista de futebol Placar que, antes de entrar no Congresso, "achava que a política era lugar de ladrões e sacanas". Para concluir: "Acertei!" Mais tarde pediu desculpa pela generalização.

Nos últimos dias foi notícia por ter sido obrigado a vender dois apartamentos e ainda penhorado um outro imóvel para fazer face a dívidas de 20 milhões de reais [quase cinco milhões de euros] de credores devido ao fecho do Café do Gol, espaço noturno carioca de que era sócio. No âmbito do processo, a justiça apreendeu mesmo o seu Porsche Macan no último sábado, horas depois do debate na Band.

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