Roger Waters no Rio de Janeiro: censura, insultos e música

Vídeo censurado, mensagens políticas proibidas, a viúva de uma ativista no palco e uma música que mostrou o Brasil dividido entre Haddad e Bolsonaro. Reportagem no concerto de Roger Waters, onde os apoiantes de Bolsonaro saíram mais cedo

O Rio de Janeiro tem amanhecido em tons de cinzento por estes dias. As enormes nuvens forram o céu de manhã à noite e a chuva incessante completa este cenário de uma cidade que nunca aprenderá a viver sem sol. Mais do que a descrição de um possível boletim meteorológico este é o estado de alma do Rio de Janeiro que parece ter perdido o seu encanto e está mergulhado numa crise económica e social sem precedentes. Não se pode dissociar ainda o clima político que divide as ruas e do qual emana a intolerância nas conversas que povoam uma cidade que se diz maravilhosa.

Era este o cenário que esperava Roger Waters, antigo baixista e vocalista dos Pink Floyd, numa quarta-feira à noite, para mais um espetáculo da sua "tour" brasileira. Até aqui chegar, o cantor britânico já tinha feito ouvir a sua voz em São Paulo, Brasília, Salvador e Belo Horizonte, somando sucessos e polémicas. Para o cantor, a música é a forma mais poderosa que encontrou de intervenção e defesa das suas causas e isso tem sido visível ao longo dos anos. A verdade é que Roger Waters aterrou num país dividido por uma eleição presidencial de extremos composta pelos candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

A pouco mais de meia hora do início do espetáculo, milhares de pessoas em torno do Estádio Maracanã procuravam fugir por entre os pingos da chuva e encontrar a tão desejada porta de acesso. No meio destes carreiros de formigas em forma de pessoas, para além dos "camelôs", habituais vendedores de rua que não perdem uma oportunidade de negócio, saltavam à vista bandeiras amarelas e verdes, um samba de campanha eleitoral e inúmeros gritos por Haddad13. Este não era apenas um concerto, mas sim mais uma oportunidade para os militantes do PT fazerem campanha a poucos dias das eleições. Distribuíam-se os habituais autocolantes, flyers, e o volume da música subia. Não a de Roger Waters, essa só seria ouvida lá dentro, mas o samba "Haddad Aê/Todos pelo Brasil".

Sem surpresa, e nem mesmo com um olhar mais atento, se podiam vislumbrar na entrada principal do Estádio, membros da campanha de Jair Bolsonaro, líder das intenções de voto nesta segunda volta. Não que por ali não estivessem apoiantes do antigo militar por entre os fãs de Roger Waters, mas porque a antipatia manifestada pelo cantor pelo fenómeno bolsonarista em espetáculos anteriores os tinha afastado do local.

A tensão que se vive é notória e qualquer manifestação política acaba em azedas trocas de palavras. Um pequeno incidente nos torniquetes de entrada do recinto fez a segurança mudar de estratégia. Eram audíveis as palavras proferidas pelos membros da segurança à entrada: "Não podem entrar autocolantes com mensagens políticas." Em tom mais de surdina, uma das pessoas procurava explicar: "Já deu confusão há pouco aqui na entrada e não estamos autorizando mais."

Tudo isto acabava por ser contornado pelo jeito brasileiro, os autocolantes eram escondidos em mochilas, bolsos sem fundo e, uns minutos depois, voltavam a ganhar lugar de destaque. Enquanto os primeiros acordes não soavam das emblemáticas guitarras que acompanham o inglês, ensaiavam-se por todo o estádio os gritos conhecidos desta campanha: "Ele não!" A resposta surgia de pronto por parte dos apoiantes de Bolsonaro em vaias que ganhavam forma e corpo. Porque o Brasil de hoje é isto, um país dividido e essa divisão cabe em qualquer lugar: famílias, grupos de amigos, casas, cafés e estádios. Nem o céu que desabava em forma de chuva conseguia baixar a temperatura desta militância que ganhou proporções de ódio.

Talvez obra do acaso ou a ironia do próprio destino, Roger Waters pôs fim a este Fla-Flu político com os primeiros acordes da música "Speak to me", pertencente ao álbum "The Dark Side of the Moon" dos Pink Floyd.

O cantor depressa agarrou o público e lembrou-os do que os unia naquela noite no Maracanã: a sua música. De sucesso em sucesso, Roger Waters levou o público pela mão até a um coro em uníssono na canção "Wish you Were Here". Mas as uniões e as unanimidade são efémeras e frágeis, como a história nos tem ensinado. O "Another Brick in the Wall" separou definitivamente as águas deste espetáculo e foi o suficiente para que a conversa subisse de tom. As crianças cariocas que subiram ao palco envergavam t-shirts onde se podia ler: "Resist". Cada um interpretou a mensagem à sua maneira, e num ápice voltaram as vaias e os gritos anti-bolsonaro.

Depois de pegar fogo à plateia, Roger Waters deixou o palco por 20 minutos no habitual intervalo que marca os seus espetáculos, tempo durante o qual no ecrã que complementava o espetáculo passou um vídeo com várias causas defendidas pelo cantor, inclusive contra a ascensão do neo-fascismo. Numa lista interminável de países e líderes políticos liam-se nomes como o de Donald Trump, Marine Le Pen ou Vladmir Putin. E foi precisamente neste rol que surgiu o nome do Brasil com algo tão simbólico quanto transparente: "Este ponto de vista político foi censurado." Ficou claro para todos os presentes que o nome por debaixo da mensagem era o de Jair Bolsonaro. As reações não se fizeram esperar e em muitos pontos do estádio as conversas subiram de tom. Os rostos irados ganharam tons de vermelho e as palavras mais ofensivas possíveis eram proferidas sem vírgulas nem pontos finais. E quando começaram a faltar as palavras, valeram os mais sensatos e os seguranças para pôr um travão a esta escalada de violência. A melhor solução encontrada foi criar bancadas de visitantes e visitados como se um jogo de futebol se tratasse. Petistas para um lado, bolsonaristas para o outro, num reflexo daquilo que é o Brasil dos dias de hoje.

Quando perto do final do espetáculo, Roger Waters lembrou a memória de Marielle Franco, deputada do Rio de Janeiro assassinada a tiro em março de 2018, e chamou a viúva, a filha e a irmã desta ao palco, já uma parte do público tinha deixado o estádio em discordância com o rumo do espetáculo. O britânico vestiu uma t-shirt com a mensagem "Lute como Marielle Franco", enquanto a viúva Mónica Benício gritava ao microfone "Ele Não!" e clamava por justiça. As vaias tinham perdido e força, e os gritos anti-bolsonaro ecoavam por todo o Maracanã.

Mais duas músicas, um espetáculo de pirotecnia, e Roger Waters abandonou o palco. Terminou o concerto, silenciaram-se os gritos, cessaram as discussões, só não desapareceu os tons de cinzento e a chuva que continuam a pairar sob o Rio de Janeiro.

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