Robôs assassinos: académicos pedem boicote a universidade

Boicote foi assinado por mais de 50 académicos e surgiu uma semana antes de uma reunião das Nações Unidas sobre armas autónomas

Investigadores especialistas em inteligência artificial de quase 30 países estão a planear um boicote a uma universidade na Coreia do Sul em reação a uma parceria de um laboratório da instituição com uma empresa ligada ao setor da defesa: há o medo de que o projeto possa criar "robôs assassinos", revela o Times Higher Education.

Este medo levou a que mais de 50 académicos assinassem uma carta a pedir um boicote ao Instituto Avançado de Ciências e Tecnologias da Coreia (KAIST), por causa da parceria com a Hanwha Systems. Entre eles há dois portugueses, José Alferes e Luís Moniz Pereira, ambos da Universidade Nova de Lisboa. Os especialistas avisam que não vão trabalhar com a universidade, nem acolher visitantes da KAIST.

"Se desenvolvidas, as armas autónomas serão a terceira revolução nas guerras. Vão permitir que as batalhas sejam travadas de forma mais rápida e em maior escala do que no passado. Têm o potencial para ser armas de terror. Déspotas e terroristas poderão usá-las contra populações inocentes, sem quaisquer restrições éticas. Depois de aberta, será difícil fechar esta caixa de Pandora", alertam os cientistas na carta aberta.

A Hanwha Systems é uma das maiores fabricantes de armas da Coreia do Sul, e produz bombas de fragmentação proibidas em 120 países, através de uma convenção internacional - de fora estão os Estados Unidos, a Rússia e a China.

"Existem muitas coisas que é possível fazer com a inteligência artificial (AI) para salvar vidas, incluindo em contexto militar, mas declarar abertamente que o objetivo é desenvolver armas e ter um parceiro como este gera preocupação. Esta é uma universidade muito respeitada, em parceria com um parceiro eticamente duvidoso, que continua a violar normas internacionais", explicou Toby Walsh, o organizador do boicote e professor na universidade de Nova Gales do Sul, ao The Guardian.

O boicote surge uma semana antes de uma reunião nas Nações Unidas sobre armas autónomas. A utilização de AI pelos militares tem levantado questões sobre a precisão destas armas e a sua capacidade em distinguir os civis, inimigos e aliados. No ano passado, líderes e nomes destacados na área da AI e robótica escreveram uma carta à ONU a alertar para os riscos de armas que matam sem controlo humano poderem destabilizar o mundo.

O Korea Times salienta esta participação da KAIST na "competição global para desenvolver armas autónomas" e publicou mesmo uma série de perguntas à universidade, que até ao momento não tiveram quaisquer respostas. Por outro lado, Sung-Chul Shin, o presidente da KAIST, salienta que "a instituição não tem nenhuma intenção em participar no desenvolvimento de sistemas de armas letais e robôs assassinos" e que "enquanto instituição académica" valoriza os direitos humanos e padrões éticos.

Entretanto, um comunicado no site da KAIST diz que o foco do centro passa por "sistemas de comandos e decisões baseadas na inteligência artificial, algoritmos de navegação compostos para veículos submarinos não tripulados em grande escala, sistemas de treino de aeronaves inteligentes baseados na inteligência artificial e rastreamento inteligente de objetos e tecnologia de reconhecimento".

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