Rivera: "A mim importa-me mais Espanha do que saber quem é o primeiro-ministro"

Líder do Ciudadanos esquece os ataques, que marcaram os discursos de Rajoy e Iglesias, e defende a recuperação da classe média

Albert Rivera estreia-se na tribuna do Congresso de Deputados, tal como Pablo Iglesias que discursou antes dele. "É uma honra estar aqui onde estiveram homens de estado que puseram em cima da mesa tudo o que os une", afirma o líder do Ciudadanos, dizendo que os espanhóis pedem aos deputados que façam como eles e estejam "à altura das circunstâncias".

"Não viemos aqui para que tudo fique igual", diz Rivera, pedindo "mudanças". O líder do Podemos, que ao contrário dos outros intervenientes não está a ler um discurso, diz que os eleitores espanhóis não se enganaram no momento de voto. "Enganaram-se os que não souberam ler os resultados eleitorais", afirma, olhando para a bancada do PP.

"A mim importa-me mais Espanha do que quem é o primeiro-ministro", lança Rivera, que defende no discurso o pacto que o Ciudadanos assinou com o PSOE para a investidura de Sánchez. A soma dos 40 deputados do Ciudadanos com os 90 do PSOE é contudo insuficiente para garantir a eleição, face ao voto negativo de PP (123 deputados) e Podemos (69).

Rivera fala na necessidade de recuperar a classe média espanhola - "Há milhões de espanhóis que trabalham e são pobre" - e defende outro "milagre espanhol" que permita "distribuir a riqueza que temos". Em relação à reforma fiscal, lança: "Não vamos esmagar os espanhóis com mais impostos. Basta."

Apesar do tom menos bélico, Rivera não deixa de enviar um recado ao Podemos: "Chamem-me clássico, mas prefiro um economista da London School of Economics que [Juan Carlos] Monedero à frente da economia em Espanha". E pergunta se Iglesias vai depois querer pôr Arnaldo Otegi, ex-porta-voz da Batasuna (braço político da ETA) libertado ontem, no Ministério do Interior.

Em relação a Iglesias diz que ele tem direito a estar indignado, mas que outros têm direito a estar esperançosos.

Rivera não esquece a Catalunha, onde nasceu, falando em catalão. "Diálogo sim, chantagem não", refere depois em castelhano, dizendo "nunca" a um referendo sobre a independência.

O líder do Ciudadanos brinca depois com a referência à laranja mecânica, feita por Iglesias no seu discurso.

E dirigindo-se diretamente ao primeiro-ministro. "Senhor Rajoy, fez coisas bem durante o seu governo, reconheço-o. Mas há coisas que fez mal e foi abandonado por quatro milhões de eleitores. Pode dar-me pelo menos uma razão para que deva ser o senhor a liderar este novo tempo político se não quer fazer novas reformas?"

E lança um apelo ao PP para que se abstenha na votação e permita a eleição de Sánchez, lembrando que vai votar como o Podemos e os independentistas catalães. "Reflita", diz-lhe.

"Prefiro ser útil aos espanhóis e pôr em marcha as reformas a ser alguém importante", explica.

Resposta de Sánchez

Depois de Rajoy ter pedido para falar, para pedir que o Ciudadanos respeite a sua decisão de não vota a favor de Sánchez e ter sido contestado porque a sua intervenção não cumpria os requisitos do direito de resposta, o líder socialista diz que ele poderia estar a falar desde a tribuna se tivesse aceite o convite do rei.

Sánchez repete os elogios que já proferira na véspera a Rivera, agradecendo a sua "valentia e coragem" por ter aceitado pactuar com o PSOE. O líder socialista utiliza o tempo para voltar a falar do pacto entre os dois partidos, falando da reforma educativa e da reforma fiscal.

E volta a atacar Rajoy, que já prometeu travar muitas reformas no Senado, onde o PP tem a maioria absoluta. Sánchez diz que não se admira que Rajoy use os órgãos públicos para benefícios partidários e não para beneficiar os espanhóis.

Réplica para Rivera

O líder do Ciudadanos nota que Rajoy não está no hemiciclo - "Rajoy não está, mas de certeza que me escuta de algum lugar do mundo" -, mas lembra que foi ele que não quis aceitar o convite do rei. E diz que quem teve preguiça em negociar não pode liderar a reforma que o país pede.

"Se a atitude que teve Rajoy tivesse sido a de Suárez não estaríamos onde estamos hoje", lembrou Rivera, referindo-se a Adolfo Suárez, o primeiro chefe de governo em Espanha depois da ditadura de Franco.

Rajoy regressa ao hemiciclo quando Rivera falava de corrupção e pedia à bancada do PP que lhe desse um recado: que quem não soube limpar a casa não pode liderar a mudança em Espanha, numa referência aos escândalos que afetam o partido de Rajoy.

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