Republicanos enfiam o boné e unem-se no apoio a Trump

Congressistas saíram da reunião do partido a prometer "tornar os republicanos grandes outra vez". Até os mais críticos durante a campanha recusam atacar escolhas do presidente eleito.

Há uns meses, Pete King garantia ao New York Daily News que se Donald Trump fosse eleito presidente, ia tornar-se jornalista. E até acrescentou: "Oiça, isso não vai acontecer." Mas aconteceu. E as certezas de King parecem ter desaparecido. Ontem, o congressista de Nova Iorque foi um dos que saiu de uma reunião da conferência do partido, em Washington, com um boné vermelho da campanha do presidente eleito. Debaixo do braço levava mais dois. Para os netos. E aos jornalistas que o esperavam à saída explicou: "Estamos a tornar os republicanos grandes outra vez", um derivado do slogan que ajudou Trump a chegar à Casa Branca: "Fazer a América grande outra vez."

Longe das notícias sobre uma espécie de guerra civil dentro da equipa de transição do presidente eleito, no Capitólio ontem respirava-se uma aparente harmonia. Vindos de Nova Iorque e colocados nas cadeiras de todos os participantes na reunião dos republicanos, os bonés vermelhos ajudaram ao ambiente festivo. "Bem-vindos ao amanhecer de um novo governo unificado", garantiu Paul Ryan em conferência de imprensa. O congressista do Wisconsin acabara de ser confirmado como recandidato a presidente da Câmara dos Representantes. Terceira figura do Estado americano - depois do presidente e do vice-presidente -, o speaker (cuja reeleição em janeiro está garantida uma vez que os republicanos têm maioria na Câmara) foi um dos líderes republicanos mais reticente em apoiar Trump durante a campanha.

Convencidos de que Trump tinha poucas ou nenhumas hipóteses de derrotar a democrata Hillary Clinton, muitos membros do aparelho republicano optaram por se demarcar de um candidato que não hesitava em criticar o sistema que eles representam. Os que também iam a votos no dia 8 - todos os congressistas e um terço dos senadores - receavam ser prejudicados por Trump. Mas foi o contrário que aconteceu. E não só os republicanos mantiveram a maioria na Câmara dos Representantes (o que era previsível) como não perderam o Senado (o que chegaram a recear).

Uma realidade que talvez explique a reviravolta de Ryan. O homem que na campanha criticou Trump por propor banir os muçulmanos dos EUA, por não ter rejeitado o apoio do Ku Klux Klan ou por se ter vangloriado de "agarrar" mulheres casadas, ontem garantiu que "este vai ser um governo focado em tornar a vitória do presidente eleito Trump em verdadeiro progresso para o povo americano".

Prova da nova união republicana é a recusa dos principais líderes do partido em criticar Steve Bannon. O fundador do site Breitbart News, de 62 anos, transita da equipa de campanha do republicano para o cargo de principal conselheiro presidencial. Acusado de ser antissemita e próximo dos meios supremacistas brancos, Bannon é no mínimo polémico. Ao contrário do único outro nome até agora conhecido da nova administração: Reince Priebus, o até agora presidente do Partido Republicano e próximo de Paul Ryan.

Apesar de tudo, tanto o senador da Carolina do Sul Lindsey Graham como o homólogo da Florida Marco Rubio (ex-adversário de Trump na corrida à nomeação republicana) pediram aos americanos para "lhe darem uma oportunidade" antes de julgarem Bannon. "Não quero acusar um homem de ser antissemita ou racista sem o conhecer", referiu Graham. Já Rubio sublinhou que o presidente eleito "tem o direito de escolher a sua equipa".

Tanta união transforma numa miragem a teoria de Allan Lichtman. O professor de História na Universidade de Washington D.C. ganhou fama mundial por ter previsto a vitória de Trump nas presidenciais. Mesmo quando todas as sondagens davam uma vantagem confortável a Hillary Clinton. Convencido de que o resultado das eleições é "em primeiro lugar o reflexo da atuação do partido no poder", Lichtman explicou que o segundo mandato de Obama deixava os democratas numa posição difícil nas presidenciais e por isso apostava na vitória de Trump.

Em setembro, numa segunda conversa com o Washington Post, o académico fazia outra previsão: que depois de eleito, Trump seria destituído pelo Congresso, uma vez que a maioria republicana em ambas as câmaras preferiria ver o vice-presidente Mike Pence assumir o poder. A ideia de um impeachment de Trump foi ontem apoiada por David Brooks do New York Times, segundo o qual esse cenário "é uma carta" a ter em conta no próximo ano.

Mas isso só poderá vir a acontecer se o atual clima de lua-de-mel entre o presidente eleito e o seu partido não durar. E isso depende muito das decisões que Trump tomar quando chegar à Casa Branca.

Transição "tão suave"

Na Trump Tower, a torre nova-iorquina onde o presidente eleito vive, na penthouse do 58.º andar, 32 andares acima daquele onde fica o seu escritório, os últimos dias têm sido de entra-e-sai. Depois do afastamento de dois membros da equipa de transição e com os lugares na nova Administração por atribuir, Donald Trump tem recebido os seus mais próximos colaboradores, como o ex-mayor de Nova Iorque, Rudy Giuliani, ou o senador Jeff Sessions, ambos apontados como membros da futura equipa de governo.

No Twitter, Trump veio negar que a transição de poder entre Obama e ele esteja a ser caótica, como a descrevia o New York Times na terça-feira. "A história do @nytimes está totalmente errada quanto à transição. Está a ser suave. E também falei com muitos líderes mundiais", escreveu o presidente eleito.

Depois de Mike Pence ter assumido a liderança da equipa de transição na sexta-feira, na sequência do afastamento do governador de Nova Jérsia, Chris Christie, na terça foi a vez de Mike Rodgers, o ex-congressista do Michigan encarregado dos assuntos de segurança nacional, ser dispensado. Tantas mudanças estarão, segundo os media, a atrasar a passagem de pasta.

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