Regresso triunfal de "o crocodilo" mas futuro do Zimbabué é incerto

Vice-presidente afastado no início do mês promete "uma nova democracia" e apela à "união". Analistas recordam longa ligação a Mugabe e o papel na repressão da oposição.

"Quero felicitar o povo do Zimbabué por este momento histórico. Juntos, vamos fazer uma transição pacífica para a consolidação da nossa democracia, e permitir um novo início para todos em paz e unidade", dizia ontem Emmerson Mnangagwa, antes de aterrar em Harare, em declarações ao diário Newsday.

A chegada à capital foi apoteótica, com milhares e milhares de pessoas nas ruas, exibindo peluches com a forma de crocodilos, do nome da facção "Equipa Lacoste" que integra no partido no poder, a ZANU-PF, e alcunha pela qual é conhecido devido ao modo implacável de atuar. Na ocasião, Mnangagwa, de 75 anos, assegurou estar a "assistir-se ao início de uma nova democracia". Para o vice-presidente afastado a 6 de novembro, "o povo falou. E a voz do povo é a voz de Deus", apelando depois à união "de todos os patriotas" para "trabalharem em conjunto" pelas mudanças necessárias. Certamente não por acaso, Mnangagwa falou na sede do partido a que pertence.

Na véspera, o presidente Robert Mugabe, de 93 anos, aceitara o inevitável e enviara uma carta ao presidente do Parlamento a anunciar a sua demissão. A tomada de posse de Mnangagwa realiza-se hoje.

Ao sair clandestinamente para a África do Sul, após o afastamento, Mnangagwa apelara à população para não desistir da luta contra Mugabe e garantira que "dentro de semanas" estaria de voltar "para dirigir" o país.

Bastaram duas semanas para aquele que sempre um dos mais próximos colaboradores de Mugabe transformar em realidade aquela promessa.

Por outro lado, eram ontem muitas as dúvidas e reticências sobre a concretização da "nova democracia" referida por Mnangagwa. Era recordado que o novo presidente, enquanto chefe dos serviços secretos foi responsável pela perseguição, prisão e tortura de numerosos elementos da oposição e que, até ao afastamento no início deste mês, era, talvez mais do que qualquer outro, o "homem de confiança" de Mugabe, desde os tempos da luta armada contra o regime da então Rodésia.

Em 1975, já está ao lado de Mugabe quando este se encontra em Moçambique. Antes, entre 1965 e 1975, estivera preso numa prisão da então Rodésia, condenado por atos de sabotagem da sua coluna, significativamente conhecida pelo nome de "grupo crocodilo".

Cargos de governo

Após a independência em 1980, é nomeado ministro da Segurança Nacional, sendo o responsável direto pela repressão contra o grupo da luta armada, a ZAPU de Joshua Nkomo, rival da ZANU, naquele que foi também um conflito étnico entre os xonas, maioritários na segunda organização, e os ndebeles, maioritários na segunda e de maior implantação nas regiões da Matabeland e das Midlands. Durante o conflito, entre 1983 e 1987, mais de 20 mil nbedeles perderam a vida. Nkomo aceitará a fusão dos dois movimentos e sai do país.

"O crocodilo" ("garwe" em língua xona), também conhecido por "shumba", isto é leão, da representação totémica do seu clã, esteve sempre no governo, à exceção de um interregno entre 2000 e 2005, quando foi presidente do Parlamento. Assim, foi responsável de pelouros tão diferentes como Justiça, Finanças, Equipamento e Desenvolvimento, Defesa. Desde 2014 era, simultaneamente, vice-presidente e ministro da Justiça, pela segunda vez.

Analistas no Zimbabué notam que Mnangagwa cultivou sempre amizade e cumplicidade com as chefias militares e dos serviços secretos. Bastante úteis como se viu pela movimentação militar que o trouxe de volta ao poder. O responsável das forças armadas, general Constantino Chiwenga, é considerado um aliado de longa de "o crocodilo". Os dois históricos da ZANU-PF são alvos de sanções tanto da União Europeia como dos Estados Unidos.

Sinal da evidente proximidade com Mugabe é dado pela presença de "o leão" como diretor de campanha daquele na segunda volta das presidenciais de 2008,em que Mugabe foi derrotado na primeira volta pelo líder da oposição, Morgan Tsvangirai, e o partido deste, o Movimento para a Mudança Democrática (MDC, sigla em inglês) ganhou as legislativas. Segue-se um governo de coligação MDC/ZANU-PF, que durou até 2013.

A segunda volta das presidenciais de 2008 foi ganha por Mugabe devido a uma campanha sistemática de violência e intimidação, que levou Tsvangirai a desistir de se apresentar a votos.

Nascido em setembro de 1942, é considerado um dos homens mais ricos de um Zimbabué onde mais de 70% da população vive abaixo do limiar da pobreza. Mnangawa é casado e tem dois filhos. É jurista de formação.

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