Ramaphosa tem pela frente desafio económico e combate à corrupção

Novo presidente prometeu trabalhar "arduamente" para não desiludir os seus compatriotas. O país está no nível de "lixo", segundo as agências de notação, vive-se uma recessão e o desemprego quase chega aos 30%.

Foi eleito sem oposição num voto no Parlamento sul-africano, mas a facilidade aparente de uma vitória previsível não esconde as dificuldades reais com que Cyril Ramaphosa terá de enfrentar e resolver enquanto novo presidente daquela que é a economia mais desenvolvida de África.

Desafios que são principalmente económicos. O desemprego está nos 28%, vive-se em recessão, a notação das agências coloca a África do Sul no nível "lixo" e há a perceção que as empresas públicas não estão a cumprir o seu papel e que se vive numa atmosfera generalizada de corrupção. Este último aspeto deve-se, pelo menos em parte, ao presidente cessante, Jacob Zuma, que viu o nome associado a uma série de escândalos. Um desses casos conheceu ontem um desenvolvimento, com um dos três irmãos Gupta, Ajay, suspeitos de ligações ao ex-presidente, a iludir a captura pela polícia, tendo sido declarado "fugitivo à justiça" pelo procurador-geral da África do Sul. Um dos filhos de Zuma, assim como a sua filha, trabalharam nas empresas dos Gupta e os irmãos teriam usado a ligação à família do presidente para obterem vantagens para as suas empresas. Segundo dados da investigação, os Gupta chegaram a intervir na designação de ministros e terão tentado obter passaportes diplomáticos.

Zuma, que cumpria um segundo e último mandato, tentou resistir até ao fim à indicação da direção do ANC para abandonar o cargo. O mandato só deveria terminar no próximo ano. Este será agora completado por Ramaphosa, que era vice-presidente e assumiu a liderança do ANC em congresso realizado em dezembro e em que Zuma viu o seu candidato, sua ex-mulher Nkosazana Dlamini-Zuma, ser derrotado. As próximas eleições deverão realizar-se em maio de 2019.

No plano político, o ANC, que governa o país desde o fim do apartheid em 1991, tem visto cair o nível de apoio, tendo sofrido vários revezes eleitorais. No entanto, segundo recentes sondagens a sua hegemonia na África do Sul não está em causa, recolhendo sempre mais de 40% das intenções de voto enquanto a principal força da oposição, a Aliança Democrática, nunca sobe mais do que 20 a 22%.

Na intervenção após a eleição, Ramaphosa, de 65 anos, disse claramente que "as questões da corrupção, do reforço da eficácia do setor público e como devemos lidar com a captura do Estado por interesses particulares estão no centro da nossa atenção". Sinal de que a saída de Zuma e posse de Ramaphosa foram vistas de forma positiva pelos mercados viu-se na bolsa sul-africana, cujo índice subiu ontem mais de 4% - a maior subida em dois anos.

Quase 30 anos após o fim do regime da minoria branca, a África do Sul permanece um país com profundas desigualdades sociais e ainda polarizado nas questões raciais, com os sucessivos governos do ANC a ficarem aquém das expectativas da população negra. Um facto reconhecido por Ramaphosa, que disse estar "pronto a trabalhar arduamente para não desiludir os sul-africanos". O seu primeiro discurso oficial como presidente irá suceder hoje na Cidade do Cabo e nele, como referiu ontem Ramaphosa, começarão a ser anunciadas "medidas para combater os problemas que conhecemos".

A eleição de Ramaphosa foi boicotada pelo segundo partido da oposição, Combatentes pela Liberdade Económica de Julius Malema, que nasceu de uma cisão no ANC.

Ramaphosa, o principal representante do ANC nas negociações que puseram fim ao apartheid, foi também um dos protagonistas da elaboração da Constituição sul-africana pós-1991. A Reuters recordava ontem que a importância de Ramaphosa naquelas negociações foi tal que, ao referir-se este processo, é geralmente acompanhado da expressão "antes de Ramaphosa" e "depois de Ramaphosa".

Membro de uma minoria étnica na África do Sul, os vendas, e líder sindical sob o apartheid, virou-se para os negócios quando foi preterido por Thabo Mbeki para o cargo de vice-presidente de Nelson Mandela. Enquanto acionista da Lonmin, empresa proprietária da mina de Marikana, viu o nome associado ao massacre de 12 de agosto de 2012, em 34 mineiros foram mortos pela polícia. Uma investigação posterior absolveu-o de qualquer responsabilidade nos acontecimentos.

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