Rainha de Gelo chega ao poder 26 anos após saída da Dama de Ferro

Uma é filha de um vigário anglicano, outra de um merceeiro e pastor evangélico, ambas estudaram em Oxford e ambas chegaram a primeiras-ministras. O que une e separa Theresa May e Margaret Thatcher

Há duas semanas, quando Theresa May era apenas candidata à liderança dos tories e não primeira-ministra britânica, dois ex-ministros conservadores foram apanhados a falar sobre ela, quando pensavam que o microfone da Sky News estava desligado. "A Theresa é uma mulher difícil, mas tu e eu trabalhámos para a Margaret Thatcher", disse Ken Clarke a Malcolm Rifkind, antes de os dois começarem a rir. Agora que uma segunda mulher, que já foi apelidada de Rainha de Gelo, está no número 10 de Downing Street, seria impensável não fazer comparações com aquela que foi a primeira: a Dama de Ferro (1979-1990).

Margaret Thatcher deveu a sua alcunha a um artigo publicado num jornal soviético em 1976, que foi notícia na agência Reuters e se espalhou pela imprensa britânica. Nessa altura, a então líder da oposição ainda estava a formar a sua imagem de dureza, acabando por abraçar o epíteto uma semana depois: "Sim, sou uma dama de ferro." Já Theresa May foi apelidada de Rainha de Gelo de Westminster pelo antigo vice-primeiro-ministro Nick Clegg .

Enquanto Thatcher, que morreu em 2013, se rodeou de apoiantes e deu origem a um novo movimento político, o thatcherismo, May nunca teve muito carisma e sempre procurou afastar-se das redes de influência ou dos clubes de Westminster. "Nunca me comparei à Margaret Thatcher. Acho que só pode haver uma Thatcher. Não sou alguém que procura modelos. Sempre, em qualquer função que estou a desempenhar, procurei dar o meu melhor. Dedico-me inteiramente a isso e tento fazer o melhor trabalho que posso", disse May ao The Telegraph.

Em 2002, a agora primeira-ministra pronunciou um discurso que se tornaria célebre, pedindo ao partido que na altura passava por momentos difíceis depois de perder as eleições de 2001, que renovasse o seu humanismo. "Há muitas coisas que precisamos de fazer neste nosso partido. Vocês sabem como algumas pessoas nos chamam - Nasty Party [partido desagradável, feio]", disse May, falando de um epíteto que existia desde os anos da Dama de Ferro.

Se Thatcher ficou na história como uma conservadora com mão de ferro, May surge como uma figura mais pragmática de centro, apoiando-se num programa social e prometendo "um país para todos" e "não apenas para uns quantos privilegiados". Liberais na economia, as duas mulheres são comparadas também por causa da sua determinação. Thatcher combateu de frente os poderosos sindicatos no final dos anos 1970. May também não fugiu das lutas com os representantes dos polícias durante os anos no Ministério do Interior, cortando no orçamento sem inverter o declínio da criminalidade. E também conseguiu o que os antecessores não conseguiram - extraditar o clérigo radical Abu Qatada.

May, ao contrário de Thatcher, que sempre recusou esse epíteto, é uma feminista, tendo fundado há 11 anos um movimento dentro do Partido Conservador para levar mais mulheres para o Parlamento. Em 2005, quando fundou o Women2Win, havia 17 deputadas e hoje são 68 (num total de 330 eleitos). Contudo, quando se pensava que pudesse nomear mais mulheres para o governo, a verdade é que em 23 ministros só sete são do sexo feminino - mesmo assim, representam metade dos chamados "grandes gabinetes de Estado" e nunca uma mulher tinha tido a pasta da Justiça. Um cenário muito diferente do de Thatcher, que só teve uma ministra: a baronesa Janet Young, líder da Câmara dos Lordes.

A verdade é que há semelhanças entre o percurso de ambas. May e, no passado, Thatcher não esqueceram as suas origens relativamente modestas e "próximas do povo": a primeira como filha de um vigário anglicano e a segunda de um merceeiro e pastor metodista. As duas estudaram em Oxford, a primeira Geografia e a segunda Química. Na política, foram deputadas durante 20 anos antes de chegar ao poder, tendo primeiro estado no governo: May foi nos últimos seis anos ministra do Interior, Thatcher destacou-se na pasta da Educação.

Na vida familiar, Thatcher não tinha problemas em abrir as portas da vida privada, enquanto May é mais discreta. A Dama de Ferro casou com Denis, que trabalhou no setor bancário, tinha fama de ser um pouco boémio e amante de golfe, e teve dois filhos. Já May casou com Philip, que trabalha para um fundo de investimento, e que conheceu na universidade por intermédio daquela que viria a ser a primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto (assassinada em 2007). O casal não pode ter filhos e foi um comentário sobre o facto de, por ser mãe, estar mais bem preparada para assumir a chefia do governo que afastou da corrida a sua adversária à liderança dos tories, Andrea Leadsom.

Em relação ao estilo, Thatcher era conhecida por usar sempre pérolas a adornar os seus conservadores fatos de saia e casaco, mas a sua peça característica eram as malas de couro preto. May não hesita em usar decotes, mas a sua imagem de marca são os sapatos. A sua vasta coleção inclui vários com estampa de leopardo, incluindo os que usou para entrar pela primeira vez como chefe de governo no número 10 de Downing Street.

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