"Queridos amigos" Trump e Erdogan querem um novo capítulo entre EUA e Turquia

Presidente norte-americano quer um acordo comercial de cem mil milhões de dólares com a Turquia, mas há obstáculos pelo caminho, como a compra do sistema antimíssil russo S-400 por Ancara.

A relação de Recep Tayyip Erdogan com Donald Trump é um caso único. O homem que recebeu uma carta do presidente norte-americano e enviou-a para o lixo, o homem que o convenceu a retirar as tropas da Síria durante uma chamada telefónica foi recebido de braços abertos na Casa Branca. No entanto, o encontro não trouxe qualquer novidade nas relações tensas entre os dois países.

No final de uma "reunião maravilhosa e produtiva", numa conferência de imprensa em que só tiveram direito a perguntas o canal de TV de extrema-direita One America News, a Fox, uma "jornalista turca amiga" e um curdo, Donald Trump voltou a demonstrar a sua admiração pelo homólogo turco: "Sou um grande fã do presidente."

Desde que se tornou presidente, Trump tem elogiado Erdogan e o seu estilo cada vez mais autoritário, chamando-o de "amigo" e um "líder do diabo". A relação já vem do momento em que o homem de negócios estava longe de concorrer à Casa Branca e Erdogan era primeiro-ministro. Em 2012, na inauguração das Torres Trump em Istambul, o norte-americano disse na cerimónia que Erdogan é "um bom homem", "altamente respeitado".

Em maio de 2017, no dia em que Recep Erdogan foi recebido por Donald Trump pela primeira vez, o corpo de guarda-costas do presidente turco atacou um grupo de manifestantes curdos à porta da residência do embaixador turco. Sob o olhar de Erdogan, os seguranças romperam a barreira policial e fizeram nove feridos, dois deles com gravidade. Um ano depois, dos 15 agentes que foram indiciados só quatro continuam a ser investigados, sem qualquer explicação das autoridades.

Os temas mais sensíveis -- a Síria, a compra do sistema antimíssil russo e o cancelamento da participação turca no programa dos caças F-35 -- não conheceram novidades.

"A aquisição pela Turquia de equipamento militar russo sofisticado, como o S-400, cria alguns desafios muito sérios para nós e estamos constantemente a falar sobre isso", disse Trump. "Falámos sobre isso hoje, vamos falar no futuro, espero que sejamos capazes de resolver essa situação".

Já Erdogan disse que os dois países só poderiam superar sua disputa sobre os S-400 e F-35 através do diálogo. "Queremos aprofundar as relações, abrir um novo capítulo na nossa relação", disse o líder islamista conservador. Este aproveitou o palco para afirmar que após a morte do líder do Estado Islâmico, al-Baghdadi, as forças turcas "prenderam mais de 200 operacionais que se escaparam das prisões" e queixou-se das milícias curdas, que "continuam a provocar e a atacar os nossos soldados". "O nosso país é um alvo", disse.

Erdogan aproveitou a oportunidade para dizer que entregou a Trump um dossiê sobre o movimento liderado por Fethullah Gülen, que acusa de terrorista. Gülen está radicado nos EUA e Erdogan há muito deseja a extradição do homem que culpa pelo golpe falhado de 2016.

Erdogan ouviu Trump dizer que os europeus "deviam pagar mais" pelos custos relacionados com os refugiados sírios na Turquia. "Penso que, francamente, a Europa deveria estar a pagar por isso de forma muito significativa. A Turquia tem vindo a pagar a maior parte."

Profundas divergências

Se a relação entre ambos parece firme -- Erdogan chamou Trump de "querido amigo" -- as relações entre os dois países têm sido marcadas por divergências cada vez mais profundas.

A Síria levou a que Washington e Ancara atingissem um novo mínimo, depois de Trump ter pedido a Erdogan para não iniciar uma incursão militar contra os aliados curdos dos EUA. O turco ignorou as pressões norte-americanas e instalou-se numa faixa do território sírio.

Antes, a Turquia avançou com a compra do sistema russo de defesa antimíssil S-400, apesar das ameaças de sanções do Pentágono àquele aliado da NATO. Ancara começou a receber suas primeiras entregas dos S-400 em julho, pelo que Washington excluiu os turcos do programa de aviões de caça F-35, no qual Ancara era não só comprador mas também fabricante.

O Congresso dos EUA, de maioria democrata, fez eco da revolta da ofensiva contra as milícias curdas, grandes aliados de Washington na luta contra o Estado Islâmico. A Câmara dos Representantes aprovou no mês passado um pacote de sanções, enquanto senadores como o republicano Lindsey Graham -- que se encontrou nesta quarta-feira com Erdogan na Casa Branca -- não calou a sua indignação.

A Câmara também votou a favor de uma resolução que reconheceu o genocídio dos turcos sobre os arménios entre 1915 e 1923. Numa carta, 17 congressistas de ambos os partidos pediram a Trump para cancelar o encontro com Erdogan.

"Primeiro Trump deu luz verde a Erdogan para fazer a limpeza étnica dos curdos que nos ajudaram a derrotar o EI. Agora dá as boas-vindas a Erdogan de braços abertos e acordos amigáveis. É difícil evitar a conclusão de que, mais uma vez, os interesses pessoais de Trump, e não os interesses dos EUA, estão a nortear a sua política", comentou o candidato às primárias democratas Joe Biden.

O senador Chuck Schumer também lamentou a reunião. "O facto de o presidente Trump ter recompensado Erdogan com uma reunião da Sala Oval é espantoso. A reunião é um exemplo público de como o presidente Trump tem gerido mal a situação na Síria e complicado o esforço para garantir a derrota duradoura do Estado Islâmico", disse o democrata de Nova Iorque.

Erdogan conseguiu evitar sanções até agora, mas no domingo o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca Robert O'Brien disse que a ameaça era real. "Se a Turquia não se livrar do S-400 provavelmente haverá sanções. A Turquia sentirá o impacto dessas sanções", disse à CBS.

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