Quem é o sanfoneiro de Bolsonaro?

Gilson Machado Neto, que ganhou fama internacional na última semana, é, além de solista na banda de forró Brucelose, presidente do instituto de turismo brasileiro, veterinário, produtor rural, íntimo do presidente e dono de uma pousada acusada de não cumprir regras de turismo sustentável.

Nem só o vídeo em que toca a Avé Maria de Gounod em homenagem às vítimas de covid-19 durante a live semanal de Jair Bolsonaro, perante o ar constrangido de Paulo Guedes, ministro da Economia, e de Elizângela Castelo Branco, intérprete de linguagem gestual, tornou o sanfoneiro (ou acordeonista, em Portugal) Gilson Machado Neto famoso. Um outro, em que ele, na qualidade de presidente do instituto brasileiro de turismo (Embratur), tenta convencer turistas australianos a visitar o Brasil também invadiu nos últimos dias as redes sociais pela qualidade (ou falta dela) do seu inglês.

"Melhor tocar sanfona mesmo", comentou um dos milhares de utilizadores do Twitter que partilhou o vídeo em que Machado Neto discorre sobre as maravilhas naturais do Brasil na língua de Shakespeare mas com sotaque de Pernambuco, o seu estado natal.

O cargo de presidente do Embratur é considerado estratégico por Bolsonaro, que não se cansa de sublinhar o potencial turístico do país. Ao escolher Machado Neto, seu amigo íntimo desde que em 2003 travaram amizade num aeroporto, para ocupá-lo demonstra a confiança que nele deposita.

"De lá para cá fizemos uma amizade forte. Poucos falam a verdade para Bolsonaro, apesar de ter muita gente no seu entorno. Às vezes ele fica chateado, mas por ter um bom senso forte, reconhece o que falamos e agradece", revelou Machado Neto ao programa Frente a Frente com Magno Martins, da Rádio Nordeste.

O fundador, líder e solista da banda de forró Brucelose (o nome deve-se à tese de mestrado de Machado Neto em medicina veterinária) é mesmo equacionado para uma candidatura nas próximas eleições municipais à prefeitura do Recife, capital pernambucana e uma das mais importantes cidades brasileiras. "Se Bolsonaro me determinar isso daí, eu vou", disse na mesma entrevista. "Pernambuco é um estado ideologicamente contaminado", prosseguiu a determinada altura, referindo-se à opção tradicional da região pelo voto à esquerda - Lula da Silva, por exemplo, também é pernambucano.

"Eu não falto com disposição, sou um cara desassombrado. Viro o dia tocando gado, cuido de coqueiro, hotel e, agora, de uma das agências de turismo mais importantes do mundo. Estou focado na evolução do turismo e na divulgação lá fora, que é briga de cachorro grande. O turismo é uma injeção na veia económica, um motor de recuperação rápida", acrescentou.

"Eu não falto com disposição, sou um cara desassombrado. Viro o dia tocando gado, cuido de coqueiro, hotel e, agora, de uma das agências de turismo mais importantes do mundo"

Por essa disposição, Gilson Machado Neto foi ainda cogitado nos bastidores para outro cargo relevante: o de ministro do Turismo. O atual titular, Marcelo Álvaro Antônio, por ser suspeito de ter liderado uma organização criminosa em torno de candidaturas femininas fantasma às eleições de 2018 pelo PSL, o então partido de Bolsonaro, não está completamente seguro no posto.

Além da Embratur, da banda de forró e da medicina veterinária, Machado Neto ainda é produtor rural e empresário na área do turismo. Nessa qualidade foi multado em 2016 por não cumprir as regras de turismo sustentável numa pousada de que é proprietário em São Miguel dos Milagres, no estado do Alagoas. Machado Neto não retirou as tendas e os bungalows durante a noite, conforme determinado pelas autoridades ambientais locais para proteção da fauna local - aves e tartarugas.

O analista ambiental que o multou, Iran Normande, foi aliás exonerado apenas 18 dias após a posse de Bolsonaro como presidente da República.

"Tem que ter licença para pescar camarão, licença para pescar lagosta, é perseguição de órgãos federais", queixou-se o sanfoneiro em vídeo disponível no Youtube ao lado de Bolsonaro.

Nas redes sociais, tem também fotos ao lado do senador Flávio Bolsonaro, o primogénito do presidente acusado de corrupção por desviar dinheiro público dos assessores, a quem chama de "meu irmão". Ambos apreciam a pesca.

Usa as redes também para defender Bolsonaro das acusações de autoritarismo. "O presidente que quer ser um ditador não vai nunca querer armar o cidadão. Ele [Bolsonaro] quer que o cidadão tenha acesso a arma, tenha acesso a defender sua família e seu património. Não tenho a menor dúvida que nós estamos diante de um presidente maior libertário que já aconteceu até hoje..."

Gilson Machado Neto queixou-se ainda do cancelamento das festas juninas - mais ou menos equivalentes aos santos populares - por causa da pandemia. Autor de sucessos como "Doce Pecado", "Sede De Te Amar", a banda Brucelose há mais de 20 anos que não falhava um São João, lamentou-se. Mesmo assim, na live com o presidente teve alcance nacional e até internacional.

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