Quatro incidentes lançam dúvidas sobre a capacidade naval dos EUA

Dez marinheiros estão desaparecidos após segunda colisão a envolver um destroyer em dois meses. Peritos questionam eventual excesso de trabalho e de operações na região

Dois meses depois de uma colisão "extremamente rara" entre o destroyer norte-americano USS Fitzgerald e um porta-contentores filipino no mar do Japão, que causou a morte a sete marinheiros, outro navio de guerra dos EUA esteve envolvido num novo acidente. Dez militares estão desaparecidos após o choque entre o USS John S. McCain e um petroleiro ao largo de Singapura, que lança dúvidas sobre a capacidade naval dos EUA no Pacífico e a eventual sobreexploração dos recursos face às crises no Mar do Sul da China e na Coreia do Norte.

A colisão com o petroleiro Alnic MC, com pavilhão da Libéria e 12 mil toneladas de petróleo a bordo, ocorreu às 05.24 (22.24 de domingo em Lisboa), quando ambos os navios iam para Singapura numa das zonas marítimas mais movimentadas do mundo (por onde passam 80 mil navios todos os anos). O USS John S. McCain, que ia para uma paragem de rotina, registou danos a bombordo, sendo visível um rombo com cerca de seis metros, que provocou inundações em camaratas, salas de máquinas e de comunicações. Apesar dos danos, o destroyer navegou sem auxílio até à base naval de Changi. Além dos dez desaparecidos, cinco marinheiros ficaram feridos, tendo quatro sido transferidos de helicóptero para terra. Já o petroleiro sofreu danos na proa, sete metros acima da linha de água, não havendo registo de fuga de petróleo ou feridos.

Este é o quarto incidente desde o início do ano. Em finais de janeiro, o cruzador USS Antietam encalhou quando tentava ancorar na Baía de Tóquio. A 9 de maio, um barco de pesca sul-coreano embateu contra outro cruzador, o USS Lake Champlain. O caso mais grave ocorreu a 17 de junho, quando o USS Fitzgerald colidiu com o porta-contentores filipino ACX Crystal, tendo sete marinheiros norte-americanos morrido afogados quando vários compartimentos inundaram.

Na sexta-feira, a Marinha dos EUA anunciou que o comandante Bryce Benson e mais dois oficiais deixariam de servir no USS Fitzgerald e outros 12 marinheiros serão castigados. A investigação ainda não acabou, mas ficou claro que erros da tripulação contribuíram para a tragédia - afinal como é que os responsáveis por monitorizar o radar não se aperceberam da aproximação do navio de 30 mil toneladas?

O USS John S. McCain , batizado em nome do avô e do pai (ambos almirantes) do senador John McCain, é um destroyer igual ao USS Fitzgerald e também pertence à Sétima Frota dos EUA. Segundo os peritos, o destroyer tem capacidade de manobra para se desviar a tempo, levantando questões sobre se haveria algum problema a bordo. Em maio, tinha passado uma inspeção.

"Colisões como esta são extremamente raras e duas num verão, ambas da Sétima Frota, é impressionante", disse um veterano da Marinha e jornalista de Defesa, David Larter, citado pelo The Guardian. Já Ridzwan Rahmat, perito da IHS Markit, indicou à AFP que o acidente levanta questões sobre a eventual sobreexploração dos recursos da Marinha dos EUA na região, e "um excesso de trabalho das tripulações, uma grande aceleração no número de operações na região". O secretário da Defesa, James Mattis, anunciou que haverá uma investigação alargada às operações navais para investigar todos os acidentes.

O USS John S. McCain voltava de uma "operação" de promoção da "liberdade de navegação" no Mar do Sul da China, cuja soberania é disputada. Num editorial do China Daily , Pequim questiona se a Marinha dos EUA não se está a tornar num "perigo" nas águas asiáticas. Além disso, tanto este destroyer como o USS Fitzgerald têm capacidade de defesa contra mísseis balísticos, sendo considerados vitais face às ameaças da Coreia do Norte.

O acidente chamou ainda a atenção para a disputa territorial na região, com Singapura e Malásia a alegar que ele ocorreu nas suas águas. O Tribunal Internacional de Justiça decidiu em 2008 que Pedra Branca, a zona em causa, pertencia a Singapura, mas a Malásia pediu recurso da decisão já este ano. Navios de ambos estão a ajudar às operações de resgate os dez desaparecidos.

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