"Quanto mais se possuir armas nucleares, mais vulnerável se fica"

Membro do júri do Prémio Nazarbaiev para um mundo livre de armas nucleares, Franco Frattini conversou com o DN em Nur Sultan. Antigo ministro italiano dos Negócios Estrangeiros e ex-vice-presidente da Comissão Europeia quer mais diálogo entre Ocidente e Rússia.

Tem afirmado com insistência que cada vez mais ser uma potência nuclear é um perigo para as próprias potências nucleares. O que é que as fragiliza hoje mais do que no passado, quando o nuclear parecia a arma que garantia a supremacia geopolítica?

É perigoso porque pode ser facilmente revertido em novas vulnerabilidades, dada a corrente situação em termos de novas tecnologias, cibertaques potencIais. Nenhum sistema de mísseis, nenhum sistema de mísseis nucleares, é imune a infiltrações e corre o risco de ficar fora de controlo. E assim quanto mais se possuir armas nucleares, mais vulnerável se fica, mais exposto se fica. Por isso afirmo que aumentar a proliferação é aumentar a insegurança.

Tendo em conta o recente rasgar de tratados do tempo da Guerra Fria pelos Estados Unidos e pela Rússia, parece que os líderes das grandes potências não estão conscientes desses novos riscos?

Estão numa escalada de recusa de tratados e estão numa escalada de testes de mísseis em vez de trabalharem em conjunto. Eu sou favorável ao diálogo e cooperação entre o Ocidente e a Rússia em busca de novos compromissos. Ponham de lado a fricções e trabalhem juntos. Se Estados Unidos e Rússia cooperarem será muito melhor para a segurança de ambos os países e do mundo. Agora temos mísseis em território europeu, colocados pelos Estados Unidos, há mísseis em Kalininegrado, que é Europa, postos pela Rússia. Qual é a realidade hoje? Mais insegurança.

Foi vice-presidente da Comissão Europeia. Agora com o Brexit, a União Europeia passará a ter apenas uma potência nuclear, França, entre os seus membros. Acha possível que em matéria de desarmamento militar a União Europeia possa assumir o papel de liderança que exibe, por exemplo, na questão do combate às alterações climáticas?

A Europa pode e dever ter um papel. Infelizmente, e tendo sido, como disse, vice-presidente da Comissão, sei que a Europa não é tão forte como podia em termos de relações internacionais. Apesar de todos na Europa partilharem da importância da não proliferação nuclear, não estou assim tão certo que a Europa possa assumir a liderança do processo. Mas deveria ser. A Europa tem sido a campeã em termos de uso do soft power. Por que não usar esses instrumentos para promover a desnuclearização? É a minha esperança, mas não vejo hoje líderes europeus com força suficiente para liderarem esse processo.



Como vê a opção depois do fim da União Soviética de Nursultan Nazarbaiev de liderar um Cazaquistão independente sem armas nucleares entregando o arsenal no seu território à Rússia? Foi uma decisão pragmática ou foi mesmo uma escolha muito corajosa?

Eu diria que foi ambas as coisas: uma decisão pragmática e corajosa. Ele disse na altura que ou investia nas futuras gerações do seu país, estava a sair da União Soviética, ou gastava dinheiro para manter o arsenal. Seria gastar no nuclear muito dinheiro que podia ser dedicado a investir na prosperidade do Cazaquistão. Também disse que não queria ser um dos campeões do nuclear, a quarta maior potência nuclear do mundo dada a dimensão do arsenal. Nazarbaiev quis unilateralmente mostrar ao mundo que era possível abdicar da tentação da arma nuclear. Foi uma decisão sobretudo visionária. E é isso que é necessário hoje: decisões visionárias.

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