Quando o submarino U-96 afundou o bacalhoeiro Delães

O título original do artigo publicado no DN de 22/09/1942 era, com vários tipos de letra e em várias linhas, LUGRE BACALHOEIRO "DELÃES" Foi afundado por um submarino quando regressava da Terra Nova'. E o o subtítulo esclarecia que A tripulação, sã e salva, chegou ontem ao Tejo a bordo do lugre "Labrador". Pode ler aqui o texto original, do tempo da Segunda Guerra Mundial, um tesouro do arquivo do DN.

Mais um navio português foi alvo de ataques de submarinos de nacionalidade desconhecida [hoje é sabido que foi um submarino alemão]. A crueldade da guerra não poupa, sequer, os neutros. Mas é tão injustificada a acção que atinge a nossa pequena frota, precisamente no momento em que ela se torna mais necessária à economia nacional e quando não há possibilidade de refazer as perdas, que não se pode ficar indiferente ao recente atentado sem formular um veemente protesto contra a violência escusada que acaba de ferir-nos.

É longa já a nossa lista de sacrifícios no mar desde que esta guerra começou. Vimos afundarem-se , sucessivamente o "Alpha" em 1940; o "Exportador I", o "Ganda", O "Côrte Real" e o "Cassequel", em 1941; e o "Cabo de S. Vicente" e o "Maria da Glória" em 1942. Cada um se perdeu sem que se vislumbrasse sombra de proveito para qualquer dos beligerantes. Além dessas unidades desapareceram algumas vidas preciosas que se haviam confiado ao respeito dos beligerantes pela honrada neutralidade de Portugal.

E, como se já não fosse bastante o tributo injusto pago ao belicismo alheio, de novo submarinos desconhecidos acabam de afundar um bacalhoeiro português. Não há razões que justifiquem a cegueira com que se faz assim a guerra. Interpretando o sentir da consciência nacional, formulamos novamente um vivo protesto contra a violência que nos atinge e que a ninguém serve.

Ontem, ao fim da tarde, fundeou a meio do Tejo, em frente da Rocha do Conde de Óbidos, o lugre bacalhoeiro "Labrador", de regresso da campanha de alguns meses nos bancos da "Terra Nova e da Groenlandia".

Trazia a bordo 54 náufragos, vítimas dum atentado injustificado a um navio da nossa frota bacalhoeira.

Há cerca de quinze dias, depois de quatro meses na safra do bacalhau, regressava ao Porto, onde devia largar um completo carregamento de pescado, o lugre-motor "Delães", propriedade da Sociedade Nacional de Armadores de Aveiro.

Mas iniciara a viagem de regresso, o bacalhoeiro, numa bela manhã de sol e de mar chão, foi subitamente atingido com um tiro de canhão disparado por um submarino de grande tonelagem, pintado de negro que emergira das profundidades do oceano, a mais duma milha de distância do lugre.

Logo que primeira e a segunda granadas cortaram os dois mastros do navio a tripulação saltou, sem perda de tempo para os "dórios" que largaram para o mar antes que fossem estilhaçados pelo fogo do vaso de guerra. Em alguns daqueles barquitos recolheram-se dez homens quando, devido à sua fragilidade, não podiam suportar mais do que metade. Antes que o redemoinho causado pelo afundamento do lugre os submergisse também os pobres náufragos esforçaram-se por sair da perigosa zona.

Vogando ao sabor do mar, os náufragos passaram um dia e uma noite sem terem alimento ou uma pinga de água com que se des-sedentassem. No perigo iminente de morrerem sob a metralha que, a pouco e pouco, ía desfazendo o "Delães", a equipagem não tivera tempo de se abastecer com o que lhe era necessário para suportar com mais ânimo a sua grande tormenta. Felizmente a Providência veio em seu auxílio, enviando-lhes ao caminho o "Labrador", que os recolheu e cuja tripulação os tratou com requintes de generosidade e de camaradagem.

Os náufragos desembarcam hoje

Lamentando a perda do lugre, o instrumento do seu honesto e laborioso trabalho nas lides da pesca, os náufragos sentem-se felizes por terem escapado sãos e salvos e haverem podido regressar à Pátria.

A notícia do afundamento do "Delães" correu célebre os meios piscatórios do País, causando natural alvoroço nas famílias dos náufragos.

A bordo do lugre "S. Deniz", que anteontem entrou em Leixões, de regresso da Terra Nova, foi interceptado durante a viagem a notícia de ter sido salva a tripulação no "Delães".

Os náufragos desembarcaram hoje de manhã de bordo do "Labrador" e seguiram para as suas terras.

A tripulação do barco afundado era constituída por 54 homens sob o comando do capitão sr. João Nunes de Oliveira, de 40 anos, natural de Ílhavo.

A tripulação do "Delães"

A tripulação do lugre "Delães" matriculado na praça de Lisboa, era constituída da seguinte forma: Capitão, José Nunes de Oliveira de Sousa, de Ílhavo; oficial-piloto José Fernandes Pereira, de Ílhavo; Fernando da Rocha Carrancho, de Ílhavo; Aurélio Brandão dos Santos, ajudante de motorista, do Porto; Manuel Sacramento Marmota, de Ílhavo; José Lúcio Ramos, ajudante de cozinheiro, de Ílhavo; João Celestino Chuvas Bingre, José Barreira de Patrocínio e Manuel Marcela Ferreira, moços de bordo, os três de Ílhavo.

Pescadores - António dos Aflitos Cavaleiro, da Nazaré; António Augusto Guerra, de Buarcos; António Fernandes Matias, de Cova; António Maria de Matos, da Afurada; António de Oliveira, da Fuzeta; António de Sousa, de Póvoa de Varzim; Armindo Lopes Acabou, de Afurada; Bernardino da Costa de Castro Duque, de Vila do Conde; Domingos Moreira da Cruz, de Afurada; Domingos Rodrigues Mateus, de Leça; Eduardo Simões de Oliveira, contra-mestre do lugre, de Ílhavo; Florindo de Oliveira Pinto, de Vila Nova de Gaia; Francisco Baptista Matias, da Fuzeta; Francisco Pai João Galego, da Nazaré; Hilário da costa de Caeiro Duque, de Vila do Conde; Jaime Maria de Matos, de Afurada; João Baptista Matias, da Fuzeta; João de Jesus Grilo, de Ílhavo; João Ferreira Praia, de Ílhavo; João da Silva Gomes, de Aveiro; João da Silva Ribeiro, de Buarcos; Joaquim Baptista de Oliveira, da Fuzeta; Joaquim Gomes Arteiro, de Leça; José Lucas, da Fuzeta; José Ribeiro Pontes, de Vila do Conde; Júlio Rodrigues Carreira, de Afurada; Manuel Baptista da Silva, de Leça; Manuel da Costa de Castro Duque, de Vila do Conde; Manuel Faria Braga, de Vila do Conde; Manuel Maria da Silva, de Afurada; Manuel de Oliveira Lopes, de Afurada; Manuel Pereira Esteves, de Ílhavo; Manuel Rodrigues da Hora, da Fuzeta; Olindo Ferreira Neto, de Afurada; Zacarias da Silva Pereira, de Vila do Conde; António Vasques, de Setúbal; João Marques Espada, da Nazaré; Joaquim de Jesus Dias, da Fuzeta; José Veríssimo Gandalo, da Nazaré; Luís Ribeiro Manata, de Buarcos; António José, de Olhão; José Domingos Magano, de Ílhavo; José Pedro de Jesus Dias, da Fuzeta e Ricardo Nunes da Conceição, de Ílhavo.

Total 54 homens a bordo: capitão, piloto, motorista, ajudante de motorista, cozinheiro, ajudante de cozinheiro, 3 moços, 28 pescadores especiais, 8 pescadores primeiras linhas, 1 pescador maduro e 4 pescadores verdes.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG