Quando Che Guevara passeou livremente na Madrid de Franco

Na década de 50 o isolamento da Espanha de Franco foi abalado pela presença de personalidades internacionais, conhecidas pela liberalidade dos seus costumes, como Ava Gardner, Orson Welles ou Ernst Hemingway. Mas se a eles juntarmos Che Guevara, a passear-se por Madrid em pleno ano da revolução cubana, o que dizer? Talvez que, em História, nem tudo é o que parece.

A movida madrilena é um fenómeno da década de 80 e da transição democrática mas, como vemos na série "Arde Madrid" transmitida aos domingos na RTP2, teve a sua antecâmara nos anos 50. Franco continuava a ser o todo-o-poderoso Caudillo de Espanha, mas o isolamento a que a Guerra Civil (1936-1939) votara o país, começava a ceder. Para escândalo dos mais conservadores, Ava Gardner e Orson Welles, entre outras celebridades internacionais, instalaram-se na cidade e mostraram às gentes outros hábitos, bem mais livres.

Consciente de que importava ir vendendo ao mundo, nomeadamente aos norte-americanos, uma imagem de Espanha mais aberta e moderna, o ditador foi ignorando as vozes escandalizadas de homens como o ex-presidente argentino, exilado em Espanha, Juan Domingo Péron, ou do abade do Vale dos Caídos. O que poucos esperariam, porém, é que essa tolerância se tivesse estendido, em 1959, a Che Guevara, que, ao longo desse ano I da revolução cubana passou várias vezes pela capital espanhola, nas duas primeiras com uma aparente liberdade de movimentos.

Fardado, com a boina que se tornaria parte da sua imagem de marca, o então diretor do Instituto da Reforma Agrária de Cuba passeou pelas ruas, deu autógrafos e tirou fotografias com populares sorridentes.

Che rumava ao Egito, onde devia reunir-se com o Presidente Nasser, mas passou por várias capitais europeias em busca de simpatias para o novo regime cubano. Apesar das diferenças ideológicas, os laços criados pela História e língua comum, mas também pelo comércio entre ambos os países, tornavam Madrid uma escala obrigatória.

Aos homens de Franco importava apenas que Che não tentasse contactar a oposição espanhola, nomeadamente o Partido Comunista. Vigiado embora pela polícia política, chegou a 13 de junho e deixou-se guiar pelo jornalista António Olano, entretanto contactado pela Embaixada de Cuba para o efeito, e foi fotografado pelo jovem repórter da Europa Press, César Lucas, nos vários locais que quis visitar: a Faculdade de Medicina da Universidade Complutense (área em que se licenciara, ainda em Buenos Aires), a praça de touros de Carabanchel e, naturalmente, a mais animada artéria de Madrid, a Gran Vía, onde vários populares o abordaram, ansiosos de tirar uma fotografia sorridente ao lado da celebridade. Foi ainda a um restaurante da Casa de Campo provar o tradicional polvo à galega.

Graças aos bons ofícios de Olano, Che teve mesmo um tratamento de exceção. Se a praça de touros de Carabanchel se abrira especialmente para o viajante em boa parte devido às simpatias pró-comunistas do proprietário do recinto, Domingo Dominguin (irmão do famoso toureiro Luis Miguel Dominguin), o mesmo aconteceria, mas por razões diversas, com as Galerias Preciados, encerradas nesse dia, que era um domingo. Sabendo que o dono do maior estabelecimento comercial de Madrid, José Pepín Fernández, tinha um amor particular por Cuba, onde fizera a sua fortuna, Olano fez um telefonema:

-Don Pepín, tenho que pedir-lhe um favor. Uma pessoa vinda de Havana necessita de fazer compras ao domingo porque deixa Madrid hoje mesmo. É Che Guevara.

A resposta não se fez esperar. À espera deles estariam dois empregados designados por Don Pepín. De acordo com o testemunho dos jornalistas, Che terá adquirido material de fotografia, uma máquina de escrever portátil, artigos de higiene pessoal e dois livros.

Devido a uma escala técnica do avião em que viajava, Che estaria de volta a Madrid, menos de três meses depois. Voltou a sentir-se à vontade para ir à tourada e para viajar até Toledo, onde, uma vez mais, acederia a deixar-se fotografar na companhia de outros visitantes da histórica cidade de Castela La Mancha, que, por sua vez, não se mostravam receosos
de serem vistos em tão revolucionária companhia.

A aparente tolerância de Franco para com estas nada clandestinas excursões de Che em território espanhol não é ocasional nem pode ser confundido com um gesto de boa vontade. Em 1959, as simpatias do regime cubano pelo comunismo eram conhecidas mas Fidel de Castro mostrava-se ainda relutante em cair nos "braços" da União Soviética (o que levava Che ao Cairo e ao encontro com Nasser, líder dos chamados países não alinhados com qualquer dos blocos dominantes, Estados Unidos ou URSS).

Ao contrário do que acontecera com Perón, Fulgêncio Batista, o ditador deposto pela revolução a 1 de janeiro de 1959, não receberá qualquer manifestação de apoio quer dos Estados Unidos, quer de Espanha, que lhe recusarão terminantemente os pedidos de asilo político que este faz para si e para a sua família. Receosos de prejudicar as excelentes relações comerciais com a ilha, americanos e espanhóis persuadirão o governo português a acolhê-los. A contragosto, Salazar acede, mas evitará qualquer familiaridade e procurará mantê-los tanto quanto possível, limitados ao Funchal. Toda esta situação se alterará em 1961, com a tentativa de invasão da baía dos porcos e a subsequente crise dos mísseis, em outubro do ano seguinte.

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