Quando a luta política põe o amor em espera e separa famílias

Lilian Tintori viu o marido, Leopoldo López, líder da oposição na Venezuela, preso numa cadeia militar durante os últimos três anos e cinco meses. Foi posto agora em domiciliária. Durante esse tempo ela sempre lutou. Não é caso único, neste e no século passado, em vários países e contextos, há outras histórias semelhantes para contar.

Lilian Tintori
Levou luta contra líder venezuelano pelo mundo fora

Não passou um só dia em que o marido estivesse na cadeia que ela não fizesse alguma coisa pela sua libertação. Um post numa rede social, a participação numa manifestação, um encontro com um líder internacional... Lilian Tintori, de 39 anos, nunca assimilou a ideia de que tinha de ficar quase 14 anos sem o marido, o líder da oposição venezuelana Leopoldo López. Foi esta a pena a que foi condenado, acusado de ter incitado aos protestos que em 2014 resultaram em 43 mortos. Lutadora, apaixonada, persistente, destemida, Lilian, ex-campeã de kitesurf e participante de um reality show de sobrevivência, encontrou-se com vários dirigentes mundiais, do Papa Francisco a Donald Trump, denunciando o regime de Nicolás Maduro. Ela e Leopoldo têm dois filhos: Manuela e Leopoldo. Este último deu os primeiros passos na cadeia de Ramo Verde, onde o pai esteve três anos e cinco meses. Foi transferido para prisão domiciliária em Caracas no dia 8. Apesar disso, Lilian e Leopoldo não aliviam a pressão: querem liberdade total para todos os presos políticos e eleições livres na Venezuela.

Liu Xia
Viúva e em prisão domiciliária na capital chinesa


Mantida em prisão domiciliária desde que o marido foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz, em 2010, Liu Xia sofre "de stress, ansiedade e depressão", segundo a Amnistia Internacional, que lançou uma petição em defesa da libertação da poetisa, artista e ativista dos direitos humanos chinesa de 56 anos. Liu ficou viúva há uma semana, quando o marido, o ativista Liu Xiaobo, morreu no hospital vítima de cancro. Tinha sido libertado há 17 dias da cadeia onde, desde 2009, cumpria a pena de prisão de 11 anos a que fora condenado "por incitamento à subversão contra o Estado". Durante estes anos ela só podia visitá-lo uma vez por mês. Quando Liu Xiaobo, de 61 anos, morreu ela e alguns amigos puderam estar no hospital. Segundo o médico Ten Yue, citado pela BBC, as suas últimas palavras para a mulher foram "continua a tua vida bem". No sábado, Liu Xia pôde participar no funeral privado do marido, em Shenyang, tendo depois lançado as suas cinzas ao mar. Liu Xiaobo foi um dos intelectuais na origem da Carta 08, manifesto que pedia uma democracia multipartidária na China.

Winnie Mandela
Ameaçada pelo apartheid e com duas filhas às costas

Foi numa paragem de autocarro do Soweto que Winnie conheceu Nelson Mandela. O ano era o de 1957. Tinha 22 anos (hoje tem 80). Casaram-se no ano seguinte e tiveram duas filhas, Zenani e Zindzi. Em 1963, o líder da luta contra o regime racista branco do apartheid na África do Sul foi preso, sendo libertado apenas 27 anos depois. Durante todo esse tempo, Winnie prosseguiu a luta política, sofrendo perseguições e humilhações terríveis, sendo obrigada a criar praticamente sozinha as duas filhas. Enquanto, da prisão, Mandela trabalhava a via da negociação e da convivência pacífica entre negros e brancos, cá fora Winnie e outros membros do ANC andavam mais ansiosos e até sedentos de vingança. O Mandela United Football Club, que ela criou, foi acusado de pelo menos 18 assassínios. Isso e os rumores de que Winnie seria amante de um advogado mais novo, Dali Mpofu, levou ao divórcio de Mandela em 1992. O primeiro presidente negro da África do Sul casou-se depois, em 1998, com Graça Machel. Mandela morreu a 5 de dezembro de 2013. Tinha 95 anos.

Kirsty Sword Gusmão
Uma paixão que nasceu numa cadeia indonésia

Natural de Melbourne, na Austrália, Kirsty Sword, hoje com 51 anos, chegou a Timor-Leste em 1991 como investigadora e intérprete da Yorkshire Television de Inglaterra para o documentário In Cold Blood: The Massacre of East Timor, pois tinha estudado bahasa (língua indonésia) e ouvido falar dos anseios independentistas dos timorenses. Entre 1992 e 1996 viveu em Jacarta, na Indonésia, onde trabalhava como professora de inglês e ativista dos direitos humanos. Começou então a ensinar inglês por correspondência a Xanana Gusmão, líder da resistência timorense a cumprir 20 anos de prisão na cadeia indonésia de Cipinang, tendo conseguido visitá-lo em 1994. Xanana saiu da cadeia em 1999 e casaram-se no ano seguinte. Tiveram três filhos: Alexandre, Kayolok e Daniel. O casal divorciou-se 15 anos depois, em março de 2015. Apesar disso, Kirsty Sword Gusmão fez de Timor-Leste a sua casa. Em 2001, quando o marido era o presidente do país, fundou a Alola Foundation com o objetivo de melhorar a vida das mulheres e das crianças timorenses.

Juan Carlos Lecompte
Tudo mudou após resgate das mãos das FARC

Sobre Juan Carlos Lecompte e a sua ex-mulher, Ingrid Betancourt, poderia dizer-se que o sentimento mais próximo do amor é, efetivamente, o ódio. Ingrid, franco-colombiana hoje com 55 anos, foi sequestrada pelos rebeldes das FARC em fevereiro de 2002 quando era candidata à presidência da Colômbia. Seis anos depois foi libertada no âmbito da Operação Jaque, em que os militares do exército colombiano fingiram ser membros da Cruz Vermelha. Casara-se com Juan Carlos Lecompte, um publicitário colombiano, em 1997. Foi o seu segundo casamento. Ela já tinha dois filhos de uma união anterior. Durante o tempo do sequestro ele foi incansável na luta pela sua libertação. Quando ela foi finalmente resgatada e os dois voltaram a encontrar-se a reação foi de frieza. Mais tarde, ele acusou-a de humilhação e de traição. E ela, em resposta, acusou-o de abandono durante o cativeiro, de traição e consumo de drogas. Ainda andaram em disputas por questões de dinheiro. O divórcio só viria a sair em 2011, depois de lutas nos tribunais. Ingrid Betancourt vive agora em Paris.

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