Puigdemont traído pelas suas próprias palavras

Ex-presidente da Generalitat admite que há momentos em que também duvida, mas rejeita abandonar o processo independentista, após ter escrito que se sentia "sacrificado"

Enquanto publicamente defendia a união entre os independentistas catalães, depois de ter sido adiada a sessão de investidura no Parlamento catalão, Carlos Puigdemont admitia em privado que estava a ser sacrificado e que o governo espanhol está a ganhar. As mensagens enviadas pelo ex-presidente da Generalitat através da aplicação Signal a um dos seus ex-consellers, Toní Comín, da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), foram filmadas no ecrã do telemóvel deste último e divulgadas pela Telecinco. Adversários falam em traição entre os independentistas, havendo quem sugira que a revelação das mensagens foi propositada.

"Sou humano e há momentos em que eu também duvido", escreveu Puigdemont no Twitter, admitindo que as mensagens eram suas, mas reiterando que não vai desistir. Na mesma rede social Comín disse que "se o bloco do 155 [artigo da Constituição espanhola que suspendeu a autonomia da Catalunha] tem ilusões sobre a divisão do independentismo terá um enorme desgosto. A partir da sua pluralidade ideológica, a unidade do independentismo está absolutamente garantida" porque "todos jurámos fazer valer os resultados" eleitorais.

Segundo o relato do jornalista da estação de televisão que estava no evento, Comín sabia que estava rodeado de jornalistas e mesmo assim foi lendo as mensagens que ia recebendo de Puigdemont - sem responder. Quando foi avisado pelo segurança, através de outra mensagem de telemóvel, que estaria a ser filmado, procurou disfarçar, vendo outras redes sociais.

O relato do El Mundo é diferente, sugerindo que Comín podia ter feito de propósito, numa tentativa de fragilizar Puigdemont. O Junts per Catalunya (JxC) e a ERC concordam que Puigdemont é o presidente legítimo da Generalitat, mas há divisões sobre o caminho a seguir. Estas ficaram patentes na decisão do presidente do Parlamento, Roger Torrent, da ERC, de adiar a sessão de investidura, com o JxC a dizer que nem sequer foi informado.

As mensagens

No ecrã de telemóvel de Comín, filmado pela Telecinco num evento público em Lovaina (Bélgica), eram visíveis quatro mensagens diferentes. A aplicação usada é a Signal, considerada por muitos como uma das apps de mensagens instantâneas mais seguras. As mensagens são cifradas, numa tecnologia que o WhatsApp adotou depois, mas ao contrário desta aplicação não ficam armazenadas nos seus servidores.

"Vivemos novamente os últimos dias da Catalunha Republicana", dizia a primeira mensagem, enviada 50 minutos antes da filmagem. Dez minutos depois, desenvolvia a ideia: "O plano Moncloa triunfa. Só espero que seja verdade e que graças a isso possam sair todos da prisão. Porque se não, o ridículo é histórico." O ministro do Interior, Juan Ignacio Zoido, congratulou-se com o facto de Puigdemont admitir o "fracasso", mas negou haver qualquer negociação para libertar os independentistas que estão detidos.

"Suponho que é claro que acho que acabou. Os nossos sacrificaram-nos, pelo menos a mim. Vocês serão consellers (espero e desejo), mas eu já estou sacrificado tal como sugeria Tardà", escreveu Puigdemont na terceira mensagem, enviada 11 minutos depois, referindo-se à entrevista ao La Vanguardia em que o deputado da ERC, Joan Tardà, dizia que se fosse necessário era preciso sacrificar o ex-presidente, já que "imprescindível é ter governo".

Finalmente, na última mensagem, cuja hora não é visível, Puigdemont diz que não sabe o que lhe resta da vida, acrescentando "espero que muita" em parêntesis. "Mas vou dedicá-la a pôr em ordem estes dois anos e a proteger a minha reputação. Eles causaram-me muito dano, com calúnias, rumores, mentiras, que aguentei por um objetivo em comum. Isso agora acabou e vou dedicar a minha vida em defesa própria", concluiu. Ontem, os jornais espanhóis indicavam que o juiz Pablo Llarena pode terminar a instrução até abril e, caso se confirme a acusação de rebelião, suspendendo então Puigdemont como deputado (e impossibilitando a sua eleição como presidente da Generalitat).

Justiça e ética jornalística

Tanto o ex-presidente da Generalitat como o destinatário das mensagens admitem recorrer à justiça. A belga por as mensagens terem sido gravadas sem autorização (crime de devassa da vida privada no código penal português), apesar de muitos juristas espanhóis considerarem que tal não se aplica por Comín estar num evento público e por estar em causa o direito à informação. A espanhola poderá ser chamada a pronunciar-se sobre a sua divulgação das mensagens, no programa de Ana Rosa, na Telecinco.

"Sou jornalista e sempre entendi que existem limites, como a privacidade, que nunca devem ser violados", tinha escrito Puigdemont no Twitter. A questão de se é ético ou não a divulgação das mensagens privadas por parte do jornalista também foi levantada pelo advogado do ex-presidente. Para Jaume-Alonso Cuevillas é "inadmissível do ponto de vista ético" que um meio de comunicação publique as mensagens, além de uma violação "ao direito de intimidade e o direito ao segredo de comunicações".

Mas a Plataforma em Defensa da Liberdade de Informação avisou que qualquer iniciativa legal contra a divulgação das mensagens "violaria a liberdade de informação". Num comunicado, citado pela EFE, a plataforma alerta que "seria contrário à jurisprudência espanhola e europeia nesta matéria" qualquer ação legal contra a Telecinco. Esta não é a primeira conversa privada entre políticos espanhóis que acaba nos jornais. Em 2013, o El Mundo divulgou as mensagens de telemóvel do primeiro-ministro Mariano Rajoy para Luis Barcenas, o ex-tesoureiro do PP acusado de manter uma contabilidade paralela no partido. "Luis, força", dizia um dos SMS. "

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