Puigdemont sob pressão de partidários e adversários da independência

Presidente da Generalitat poderá declarar hoje unilateralmente a independência num discurso no Parlamento catalão

O presidente da Generalitat, Carles Puigdemont, discursa hoje às 18.00 (17.00 em Lisboa) no Parlamento da Catalunha pressionado em todas as frentes. De um lado, as ruas e os independentistas radicais da Candidatura de Unidade Popular, que apoiam o governo, a quererem declaração unilateral de independência após o referendo de 1 de outubro. Do outro, o governo espanhol, os líderes europeus, a presidente da câmara de Barcelona e as empresas a pedir que não vá por aí.

"A situação está muito delicada, muito aberta até ao ponto em que é muito difícil fazer prognósticos", disse ao DN o jornalista da RTVE, Lluís Falgàs, que apresenta Aquí Parlem que põe representantes partidários a discutir os temas mais importantes debatidos no Parlamento da Catalunha. "Puigdemont tem toda a intenção de declarar a independência", explicou contudo Falgàs, falando de uma possível "tática parlamentar" que passaria por não haver qualquer votação por parte dos deputados. "Sem votação, isto não teria qualquer validade jurídica", referiu, lembrando que, do ponto de vista parlamentar, a presença de Puigdemont é "uma comparecência" do presidente da Generalitat que "não inclui votação".

Mas, acrescentou Falgàs, os independentistas ainda podem forçar um voto. "Às 10.00 [09.00 em Lisboa] há uma conferência de líderes e aí podiam pedir uma alteração da ordem do dia. Com esta alteração podia votar-se, mas isto é muito improvável", explicou o jornalista, lembrando que o Constitucional, ao suspender o plenário que tinha sido convocado para ontem, praticamente impediu que se discutisse o referendo. "Se amanhã isto acontecesse na conferência, a oposição estaria contra e não se apresentaria no plenário." Mesmo se for só Puigdemont a discursar, Falgàs não afasta a hipótese de a oposição sair em peso do Parlamento se houver uma declaração de independência.

Para pressionar nesse sentido, as organizações da sociedade civil independentistas Assembleia Nacional da Catalunha (ANC) e a Òmnium Cultural convocaram uma manifestação para a mesma hora do discurso, à qual se juntarão também os estudantes universitários. "O povo falou e disse Sim à independência", lembrou a ANC na convocatória, com o seu presidente, Jordi Sánchez, a dizer que a declaração "é a única saída". O Parque da Cidadela, dentro do qual está o Parlamento, estará fechado pelos Mossos d"Esquadra.

Depois de uma eventual declaração de independência, é também difícil prever a resposta do governo espanhol, com o jornalista da RTVE a acreditar que é preciso a situação tornar-se ainda mais tensa para que Espanha aceite a proposta de mediação da Catalunha. Ainda assim, Falgàs referiu alguns "pequenos gestos" que podem ser de abertura ao diálogo. "Na sexta-feira, a Audiência Nacional não prendeu o líder dos Mossos d"Esquadra [Josep Lluís Trapero]. Foi um gesto. O outro gesto foi que Puigdemont desistiu de fazer um ato de desobediência e ir ao parlamento declarar esta segunda-feira a independência", como estava previsto. O Tribunal Constitucional suspendeu essa ida de Puigdemont do Parlamento.

Ontem, o vice-secretário de Comunicações do PP, Pablo Casado, reiterou que "não há nada que ceder nem que mediar nem negociar com golpistas". E aconselhou Puigdemont a falar com o advogado, lembrando que o Código Penal estabelece penas de "15 anos de prisão por sedição e de 25 anos por rebelião". Casado avisou ainda que o presidente da Generalitat pode acabar como Lluís Companys, que, a 6 de outubro de 1934, proclamou a república catalã e foi preso. O responsável do PP teve contudo que aclarar que quando ameaçava Puigdemont com o mesmo destino de um seu antecessor não se referia ao facto de Companys, em outubro de 1940, ter sido fuzilado por Franco.

A presidente da câmara de Barcelona, Ada Colau, apelou ontem tanto a Puigdemont como ao primeiro-ministro Mariano Rajoy para "não dinamitarem" os possíveis "espaços de diálogo" que ainda possam existir. O primeiro declarando a independência, o segundo aplicando o artigo 155.º da Constituição. Esse seria o gesto mais radical, implicando na prática a suspensão da autonomia.

Depois disso, o governo poderia convocar novas eleições autonómicas, mas Falgàs explicou que os partidos independentistas boicotariam essas eleições. "Agora, é o independentismo que tem o poder de convocar eleições mas eles dizem que autonómicas não as vão convocar nunca. Teria de ser o próprio governo, usando o artigo 155. Mas estas seriam eleições onde os partidos independentistas não se apresentariam. Se fossem autonómicas convocadas pelo governo espanhol eles não iriam", disse. O resultado: haveria um Parlamento que os independentistas não reconheceriam, e um governo independentista não reconhecido por um novo Parlamento.

A chanceler alemã Angela Merkel reiterou ontem o apoio à unidade de Espanha, apelando ao diálogo, enquanto o governo francês lembrou que Paris não reconheceria a declaração unilateral de independência e que a Catalunha teria que sair da União Europeia. Ao mesmo tempo continua a sangria de empresas catalãs que estão a mudar a sua sede social para fora da Catalunha: já são mais de 20 as que já o fizeram.

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