Puigdemont recusa ir ao Senado e mantém jogo de póquer até ao fim

Até amanhã de manhã, altura em que o Senado decide pela destituição do governo regional liderado por Puigdemont, este tanto poderá anunciar a secessão como convocar eleições. E evitar a suspensão do autogoverno

"Não perder tempo com aqueles que decidiram arrasar o autogoverno da Catalunha. Em frente! #CatalanRepublic." Foi através do Instagram que Carles Puigdemont respondeu ao convite para se deslocar ao Senado e aí debater o processo independentista e a aplicação do artigo 155.º da Constituição espanhola. Amanhã, com a aprovação dos senadores da proposta do governo de Mariano Rajoy, o govern dePuigdemont é demitido e serão convocadas eleições autonómicas. Entretanto, o executivo catalão poderá convocar eleições ou declarar unilateralmente a independência.

"A mim não me surpreende que não venha [ao Senado], é evidente que não quer dialogar", reagiu o porta-voz do governo espanhol, Méndez de Vigo. "Há muito tempo que fala de diálogo e tinha esta oportunidade", disse por seu turno a porta-voz dos socialistas no parlamento catalão, Eva Granados. Ao não comparecer em Madrid, Puigdemont "fecha a última porta ao diálogo", considera. Do outro lado da barricada há quem arrisque o próximo passo do presidente da Generalitat: "Se proclamarmos a República não é possível aplicar o 155.º porque já não formamos parte de Espanha", comenta a ex-presidente do Parlament, Nuria de Gispert (democrata-cristã) no Twitter.

O que vai acontecer nas próximas horas? Puigdemont mantém a cara de póquer até ao limite. Ontem, após ter reunido com várias personalidades catalãs, entre as quais o antigo president socialista José Montilla, realizou uma reunião informal com os membros do govern, o anterior president Artur Mas e outros dirigentes independentistas. Horas antes, os deputados dos Junts pel Sí, a coligação que une esquerda e direita independentistas desse grupo parlamentar reuniram-se para votar qual o caminho a seguir, proclamar a independência ou convocar eleições. Deliberaram pela primeira opção e Lluís Corominas, o presidente do grupo parlamentar, foi anunciar o resultado à reunião convocada por Puigdemont.

Se o presidente da Generalitat continuou sem falar, o vice Oriol Junqueras não resistiu a falar à Associated Press. O governo de Rajoy "não deu outra opção" que a proclamação da república, afirmou, e o seu partido, Esquerra Republicana, "vai trabalhar para construir essa república porque existe um mandato democrático".

PSOE e Podemos em convulsão

Os socialistas continuam a desentender-se no que respeita ao tema Catalunha. Miquel Iceta, líder dos socialistas catalães, concedeu liberdade de voto ao único senador do PSC, José Montilla, quando este for confrontado, no Senado, perante o artigo 155.º. Uma decisão que está longe de ser unânime. O porta-voz parlamentar do PSOE na Andaluzia, Mario Jiménez, defendeu a "necessidade de responder de forma unida na defesa da Constituição".

Dos partidos de expressão nacional, não é só o Partido Socialista que sofre com a estratégia adotada e vê militantes em choque de ideias. O líder do Unidos Podemos, Pablo Iglesias, escreveu uma carta "às inscritas e aos inscritos" no movimento partidário para explicar em que águas navegam perante a crise catalã. Iglesias apela ao "espírito constituinte do 15M" (o movimento de indignados iniciado em 15 de março de 2011 que desembocou no Podemos) para resistir quer à aplicação do artigo 155.º da Constituição por parte do governo, quer à declaração unilateral de independência (DUI) por parte do governo catalão.

"A suspensão do autogoverno da Catalunha não só atira pelos ares um dos pactos cruciais da transição (...), mas também é um ataque aos próprios fundamentos da democracia espanhola." Quanto à oposição à DUI, sustenta que esta carece de "legitimidade", uma vez que "os resultados das eleições de setembro de 2015 dão todo o direito a governar, mas não a proclamar a independência". A solução, para Iglesias, é chegar a um acordo para a realização de um referendo em que os eleitores recusem ou reconheçam a Catalunha como uma nação integrada em Espanha e, como tal, que possa aprofundar o modelo de autogoverno. Uma das fundadoras do Podemos, Carolina Bescansa, não gostou da forma como o assunto foi tratado. "Preferia um Podemos que falasse mais a Espanha e aos espanhóis e não somente aos independentistas. Acho que há muitas pessoas no Podemos que sentem o mesmo, porque este é um partido de natureza estatal", disse a deputada no Congresso.

"Estas coisas devem falar-se numa reunião", censurou de pronto a porta-voz do partido, Irene Montero, que entretanto substituiu Bescansa na Comissão Constitucional. Fora do partido, a vice-primeira-ministra atacou o Podemos: "Aspiram a substituir a Constituição pela epístola de dom Pablo aos seus camaradas, na qual agride todas as instituições do Estado. Não escapa nenhuma, excepto o presidente da Generalitat", disse Soraya Sáenz de Santamaría.

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