Puigdemont quer Rajoy julgado nos "tribunais internacionais"

Líder catalão denunciou uma situação "indigna" de "maus-tratos" aos membros do governo deposto que foram presos

A falar em Bruxelas, perante uma plateia de 200 autarcas catalães, o antigo presidente da Generalitat defendeu que o governo de Espanha responda por esses "abusos" perante a justiça internacional. "Os nossos colegas, que estão na prisão, foram mal tratados pelas autoridades espanholas. E a Espanha deverá responder perante a justiça internacional por esses abusos", defendeu o antigo governante regional, advertindo para uma situação de "violação dos direitos do homem".

No discurso perante os autarcas que se deslocaram à capital belga, Puigdemont exigiu "à Europa, à Espanha e a todos os atores políticos que vão participar nestas eleições" que seja "respeitado o resultado" de 21 de dezembro, bem como a "normalidade democrática". "Sem prisioneiros políticos, sem polícias a ameaçar a diversidade de opiniões nas nossas ruas, sem repressão, sem limitações aos ideais dos outros", afirmou, frisando que não se tratava de "um apelo, mas de uma exigência", que se estendeu também às mais altas figuras institucionais na Europa. "É preciso saber, senhor Juncker e senhor Tajani, vocês aceitarão ou não o resultado dos catalães? Se o resultado for os catalães continuarem a apoiar o governo, o Parlamento e a escolha democrática para que se tornem um estado independente, vocês vão impedir isso?", questionou. Puigdemont lançou ainda uma provocação a Juncker e a Tajani: "Vão continuar a ajudar o senhor Rajoy neste golpe de estado, através da restrição das liberdades - é essa a Europa que vocês propõem aos cidadãos?"

O eurodeputado do grupo Verdes, dirigente da Esquerda Republicana, na Catalunha, Josep-Maria Terricabras manifestou, ontem ao DN, a preocupação com "uma Europa que está mais ocupada com os bancos e com os negócios e pouco interessada nos cidadãos", considerando que se trata de "algo terrível que, em parte, provocou o brexit" e provoca agora "algum desinteresse [pela Europa] na Catalunha".

"Nós, que somos europeístas, encontramo-nos com uma Europa que nos ignora. Colocam um governo na prisão e ninguém diz nada, e isso é surpreendente", lamentou o eurodeputado, entrevistado na Praça Schuman - emblema da União Europeia -, para onde se deslocaram os 200 autarcas.

O bairro europeu quase fazia lembrar os protestos nas ruas de Barcelona, com bandeiras da independência erguidas, a desfilarem entre a Comissão e o Conselho, duas das instituições para as quais se dirigem os apelos.

"O meu nome é Xavier Lluch, sou o alcaide de Font-Rubí, que é uma aldeia perto de Barcelona. Estamos contra o governo de Espanha porque há um governo, eleito democraticamente, detido na prisão", disse um dos autarcas ao DN, que frisa que o protesto em Bruxelas "não é contra as instituições europeias, mas para lhes fazer chegar este apelo, para que tomem conta da gravidade do problema que há atualmente na Catalunha".

O alcaide de Dosrius, Marc Bosch, acrescentou que a razão da concentração na capital belga era "não só apoiar os membros do nosso governo que estão encarcerados por motivações políticas, mas também para dar apoio à parte que está exilada em Bruxelas".

"Liberdade para todos os presos políticos", gritava um homem, a poucas dezenas de metros da ação dos alcaides, onde um grupo de meia centena, maioritariamente "espanhóis funcionários da Comissão Europeia", defendia a integridade do território. "Eles não são presos políticos. São políticos presos, que é diferente", gritou uma mulher. Na Rue de La Loi ouviu-se também El Segadors (os ceifeiros), a música é de Francesc Alió, composta em 1892, adotada como hino da independência da Catalunha.

Um eurodeputado da Esquerda Republicana da Catalunha, que também integra o grupo dos Verdes, no Parlamento Europeu, Jordi Solé, indicou ainda que dos "948 municípios na Catalunha, mais de 80% mostraram-se a favor do direito democrático de decidir. E, por esta razão, mais de 700 alcaides podem ver-se perseguidos pela justiça espanhola". "Podemos ver-nos num julgamento, a explicar porque não impedimos as pessoas de votar, o que é uma coisa que é surreal em democracia", lamentou, acrescentando que "é também por isso que eles vêm aqui" e para "manifestar uma atitude crítica perante a reação da União Europeia e das instituições europeias, porque nos sentimos muito abandonados".

Em Bruxelas

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