Puigdemont: da Lua para a política, passando pelo jornalismo

Ex-autarca de Girona desbloqueou 'in extremis' o impasse político e, aos 53 anos, tornou-se o 130.º presidente da Generalitat

Carles Puigdemont tinha seis anos quando, a 20 de julho de 1969, o Homem pisou a Lua. A notícia teve nele um tal impacto, que todos os dias olhava para o céu para ver se passava alguma nave espacial. Sonhava então ser astronauta, como Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Curioso em relação ao futuro, quis a vida que fosse jornalista, atividade que ocupou muitos anos do seu percurso profissional, antes de se dedicar por inteiro à política. Primeiro na qualidade de presidente da Câmara de Girona, depois como presidente da Generalitat. Aos 53 anos, Puigdemont tornou-se há uma semana o 130.º presidente do governo autónomo catalão. A figura independentista que permitiu desbloquear in extremis o impasse político em que a Catalunha tinha mergulhado depois das eleições autonómicas antecipadas de 27 de setembro.

No escrutínio, a Junts pel Sí, lista única que inclui o partido Convergência Democrática da Catalunha, CDC, a que pertence Puigdemont e é liderado por Artur Mas, foi a mais votada. Porém, não conseguiu maioria absoluta, precisando do apoio dos dez deputados da Candidatura de Unidade Popular (conhecida pela sigla CUP). Mas este partido não queria que Artur Mas, presidente desde 2010, continuasse no cargo. E as duas formações, em vez de colaborarem, envolveram-se num autêntico braço-de-ferro até ao prazo-limite. À última hora, ou seja, no dia 10, Mas renunciou e viabilizou um acordo, tendo a CUP aceitado Puigdemont para presidente da Generalitat. Se não tivesse havido entendimento, seriam convocadas novas eleições. Uma vez mais antecipadas.

Depois de, em 2013, ter citado um jornalista fuzilado pelos franquistas para prometer expulsar "os invasores da Catalunha", Puigdemont tomou posse no dia 12 sem jurar fidelidade ao rei espanhol ou à Constituição de Espanha. Ao ser investido, dois dias antes, exclamou no Parlamento catalão: "Viva a Catalunha livre." Atento ao que se passa naquela autonomia, o primeiro-ministro espanhol em exercício, Mariano Rajoy, avisou: "O governo não deixará passar um único ato que possa prejudicar a unidade e a soberania de Espanha. O Estado funciona sempre e a democracia tem a mesma validade, independentemente do governo em funções." Após as eleições legislativas de 20 de dezembro, Espanha está como esteve a Catalunha: sem acordo para ter um novo governo.

Natural de Amer, em Girona, Puigdemont entrou cedo no mundo do jornalismo. Aos 16 anos já escrevia crónicas futebolísticas para o jornal 'Los Sitios'. Na universidade estudou Filologia Catalã, mas não terminou o curso. Em 1981 começou a trabalhar para o 'El Punt', onde seria chefe de redação. Um ano antes despertara para a política e para o independentismo, depois de assistir a um comício de Jordi Pujol (presidente da Generalitat entre 1980 e 2003, agora acusado de branqueamento de capitais). Na década de 1990, viajou pela Europa e fez uma recolha sobre o que se dizia sobre a Catalunha, tendo publicado, em 1994, um livro intitulado 'Cata... què? Catalunya vista por la prensa internacional'. Atento às novas tecnologias da informação, foi convidado, em 1999, a criar a Agència Catalana de Notícies e, em 2004, a dirigir o jornal em língua inglesa 'Catalonia Today'.

É aí que trabalha a sua mulher e agora primeira dama catalã, Marcela Topor. Natural da Roménia, a jornalista e tradutora de inglês conheceu Puigdemont em 1998, quando veio ao Festival Internacional de Teatro Amador de Girona. Ele ensinou-lhe catalão, ela, 15 anos mais nova do que ele, fez que ele falasse romeno perfeitamente. Casaram-se e tiveram duas filhas, Magalí e Maria, com 8 e 6 anos, respetivamente. Mars, como é conhecida na Catalunha, apoiou a investidura do marido, fazendo-se fotografar ao seu lado no interior do Parlamento catalão. Abraçando-o e beijando-o. Deputado catalão desde 2006, Puigdemont conseguiu o feito de pôr fim a 32 anos de liderança socialista na câmara de Girona, tornando-se aí autarca em 2011. Oriundo de uma família de pasteleiros, amante de livros e música, o agora presidente da Generalitat sempre tentou promover Girona no estrangeiro. E parece tê-lo conseguido: a cidade serviu de cenário às filmagens da sexta temporada da 'A Guerra dos Tronos', que tem estreia marcada para abril.

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