PSDB: o partido mais indeciso do mundo decidiu não decidir

Com um pé no governo e outro fora, os "tucanos" dividiram-se na votação de quarta-feira. No dia seguinte, optaram por ter dois líderes. E para 2018 estão, como sempre, hesitantes

O Brasil inteiro já tinha escolhido lado nos meses que precederam o impeachment de Dilma Rousseff mas o PSDB, um dos três maiores partidos do país, ainda se dividia entre os que achavam a solução "uma bomba atómica", como o chefe de Estado de 1995 a 2003 Fernando Henrique Cardoso, e os que saíam à rua, excitados, a gritar "tchau querida". Depois, meio PSDB, liderado pelo então presidente do partido Aécio Neves, achou que devia integrar o governo Temer, enquanto a outra metade seguia a opinião do governador de São Paulo Geraldo Alckmin, em sentido contrário. Não é de estranhar, portanto, que na votação de quarta-feira sobre a aceitação da denúncia do presidente, 22 deputados do partido tenham votado "sim" e 21 optado pelo "não".

O Partido da Social Democracia Brasileira, fundado em 1988 de uma costela do PMDB constituída por jovens quadros que não se reviam nas práticas clientelistas do partido do hoje presidente Michel Temer, nasceu no centro-esquerda mas migrou para o centro e depois para a direita moderada por causa dos disputados embates com o esquerdista PT, a sua némesis, nas eleições de 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014. Os tucanos, como são conhecidos os membros do partido por causa da ave sul-americana que lhes serve de símbolo, já estão habituados a chacotas nos corredores de Brasília sobre a sua "inabalável indecisão". Numa piada mais mundana, o humorista José Simão escreveu no jornal Folha de S. Paulo esta semana que "se tucano tiver dois banheiros em casa faz nas calças".

Pois a cúpula do PSDB, reunida um dia após a vitória na Câmara dos Deputados de Temer decidiu, ao seu estilo, manter uma solução de duplo comando na presidência do partido: o histórico senador Tasso Jereissati continua como líder interino e Aécio Neves como presidente na reserva, enquanto não completa a travessia no deserto após ter sido constituído réu na Lava-Jato por pedir dinheiro a Joesley Batista, o mesmo empresário que motivou a denúncia contra Temer. E ainda há mais um chefe, Fernando Henrique Cardoso, a quem foi atribuído o cargo vitalício de presidente de honra.

Como o PSDB faz parte do governo - com quatro ministérios - mas teve taxa de infidelidade ao presidente de quase 50% quarta--feira, os partidos mais leais a Temer exigem agora esses cargos. Tasso e Aécio, mais uma vez ao estilo do PSDB, disseram que não vão decidir nada. "Quem decide sobre o futuro dos ministros é o presidente, não nós".

Entretanto, em 2018 há presidenciais. E enquanto o PT cerra os dentes em torno de Lula e o populista de direita Jair Bolsonaro e a ecologista Marina Silva têm partidos à sua medida, o PSDB divide-se.

Há quem acredite que até ao ato eleitoral, Aécio possa recuperar o seu capital político, caso não surjam desenvolvimentos contra si na Lava-Jato. Alckmin, embora salpicado pela operação após a delação da construtora Odebrecht, segue firme na intenção de se candidatar, sustentado nos quase 60% de votos alcançados à primeira volta na eleição para o governo de São Paulo, estado mais populoso do Brasil. Mas essa popularidade paulista jogou, a dado momento, contra si: ao conseguir fazer eleger o empresário João Doria como prefeito da cidade, gerou uma criatura com ainda mais apelo eleitoral para 2018 do que o criador. Qual o candidato do partido então: Aécio, Alckmin ou Doria? O PSDB prepara-se para novo e longo período de indecisão.

Em São Paulo

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