Protesto militar ameaça paz política na Costa do Marfim

Presidente Alassane Ouattara disposto a aceitar reivindicações de revoltosos, decisivos para a sua vitória sobre Gbagbo em 2011.

Tiroteio no Ministério da Defesa em Abidjan, tentativa de assalto ao quartel-general das Forças Armadas, medidas de segurança excecionais nas imediações do palácio presidencial, notícias de confrontos em vários pontos da Costa do Marfim - era ontem a situação que se vivia neste país da África Ocidental palco de uma breve mas violenta guerra civil nos primeiros meses de 2011.

A crise teve início na última sexta-feira na segunda mais importante cidade do país, Bouake, que foi capturada por militares revoltosos. Estes exigem um aumento de vencimento, promoções mais rápidas e direito a habitação própria, tendo a maioria integrado a rebelião que controlou o Norte da Costa do Marfim entre 2002 e 2011. Quando as forças de Alassane Ouattara entraram em Abidjan e capturaram o então presidente Laurent Gbagbo, que recusara aceitar os resultados das eleições de 2010, os combatentes rebeldes foram integrados nas Forças Armadas. Os rebeldes contribuíram, em larga medida, para a vitória militar de Ouattara sobre Gbagbo, atualmente a ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia, acusado de crimes contra a humanidade no período da guerra civil.

Além de Bouake, que esteve no centro da rebelião de 2002-2011, militares revoltosos teriam o controlo total ou parcial de, pelo menos, mais cinco ou seis cidades, entre as quais a terceira maior do país, Man. Muitos dos revoltosos escondiam o rosto atrás de capuzes ou máscaras improvisadas num sinal evidente de temerem represálias após o desfecho do protesto.

O presidente Alassane Ouattara, que se encontrava no Gana para a tomada de posse do seu homólogo neste país, regressou a Abidjan para acompanhar a situação. Por seu turno, o ministro da Defesa, Alain-Richard Donwahi, viajou para Bouake, onde iniciou contactos com os militares amotinados. Ao final do dia, o presidente Ouattara garantiu que seria alcançado um acordo e tomadas em consideração as reivindicações dos revoltosos. Ouvidos pela France24, estes mostraram-se determinados nas reivindicações e garantiram que, "se eles [as unidades fiéis ao governo] quiserem atacar-nos, estamos preparados para isso".

Forças da missão das Nações Unidas na Costa do Marfim (ONUCI) tomaram posições junto do aeroporto de Bouake e à entrada da cidade. Durante o dia de ontem foram realizados voos de reconhecimento sobre os locais sob controlo dos amotinados. Testemunhos de residentes em Bouake, citados pelas agências, davam conta de todo o "comércio fechado", com as "ruas desertas, quando habitualmente estão sempre muito animadas". Todos os testemunhos confirmavam a ausência de violência sobre os civis.

A Costa do Marfim teve presidenciais e legislativas, em 2015 e 2016, as primeiras ganhas por Ouattara e as segundas pela coligação do partido que o apoia. Desde o fim da guerra, o país recuperou o ritmo de crescimento que conhecera até ao início da crise de 2002-2011.

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