Primeira "bebé roubada" em Espanha afinal fora dada para adoção

Inés Madrigal descobriu a verdade depois de recorrer a uma empresa especializada em análise genética dos EUA e encontrar a sua família biológica. Tribunal tinha dado como provado o tráfico de bebés, mas médico foi absolvido porque os crimes prescreveram. Inés apresentou recurso.

A primeira vítima reconhecida pela justiça do caso dos "bebés roubados" em Espanha revelou esta quinta-feira que, ao fim de 32 anos, encontrou a sua família biológica graças a um banco de ADN norte-americano. E que afinal não foi roubada, mas dada voluntariamente para adoção.

"Pela primeira vez tenho o puzzle de toda a minha vida completo", disse em conferência de imprensa Inés Madrigal, que já está em contacto com um primo em segundo grau, residente na Alemanha, que a informou de que os seus quatro irmãos biológicos também estavam à sua procura.

A funcionária dos caminhos-de-ferro acrescentou que o facto de ter encontrado recentemente a sua "verdadeira família" é "um triunfo", apesar de ter também ficado a saber que a sua mãe biológica morreu em 2013 aos 73 anos. Os irmãos e uma tia confirmaram que foi dada voluntariamente para adoção pela mãe, assim que nasceu.

Madrigal revelou que encontrou a família depois de ter procurado a ajuda de uma empresa californiana especializada na análise genética, que a levou a um primeiro em segundo grau em Espanha e daí ao resto dos familiares. Descobriu ainda uma velha mensagem no Facebook, de 2015, que não tinha lido, em que um dos irmãos dizia procurar um bebé nascido em junho de 1969 na Clínica San Ramón.

Inés Madrigal já deu estas informações ao Ministério Público e ao Tribunal Supremo, que está a analisar o recurso que interpôs contra a sentença que absolveu, em outubro de 2018, o principal culpado pelo seu "roubo" em 1969, o médico Eduardo Vela.

Crime sem castigo

O ex-obstetra, de 85 anos, foi na altura o único acusado no primeiro julgamento do caso dos "bebés roubados" durante o franquismo.

A sentença considerou que Eduardo Vela foi responsável de todos os crimes -- detenção ilegal, suspeita de parto cometida por médico, falsificação de documento oficial e entrega de um bebé de poucos dias sem o consentimento dos pais biológicos, cuja identidade se desconhecia -- mas absolveu-o de todos eles por concluir que o prazo legal prescreveu em 1987, quando a queixosa chegou à idade adulta.

No entanto, a decisão pode não ser a final, visto que Inés Madrigal apresentou um recurso junto do Tribunal Supremo. E apesar de a mãe biológica a ter dado para adoção, o facto de ele ter pedido à mãe adotiva para simular uma gravidez e ter inscrito Inés como sua filha biológica representam crimes de adoção irregular.

O ex-obstetra, que durante 20 anos dirigiu a Clínica San Ramon, em Madrid, é considerado um dos principais responsáveis do caso de tráfico de recém-nascidos que envolveu milhares de bebés desde a ditadura de Franco (1939-1975).

Muitas vezes com a cumplicidade da Igreja Católica, as crianças eram retiradas aos seus pais após o parto, declaradas mortas sem provas e adotadas por casais estéreis, preferencialmente próximos do regime "nacional-católico".

No julgamento, Eduardo Vela foi acusado por Inês Madrigal de a ter separado da sua mãe biológica, Inès Perez, e de falsificar a sua certidão de nascimento, em junho de 1969.

Desde que o escândalo foi denunciado pela primeira vez na imprensa, em 1982, Eduardo Vela, há muito denunciado por associações de vítimas, foi o primeiro a sentar-se no banco dos réus, graças ao testemunho da mãe adotiva de Inès Madrigal, que, entretanto, morreu.

A mulher, que não podia ter filhos, disse que o médico lhe ofereceu um bebé antes de lhe pedir para simular uma gravidez e declarar-se como mãe biológica do recém-nascido.

Durante o julgamento, Eduardo Vela admitiu ter assinado "sem olhar" o dossier médico que relatava que tinha assistido ao parto, mas retratou-se na primeira audiência, alegando não reconhecer a sua assinatura.

Apesar da amplitude do escândalo, nenhuma das mais de duas mil reclamações apresentadas por associações resultou, muitas vezes por causa da prescrição dos factos.

A prática de "roubar bebés" nasceu durante a repressão que se seguiu à guerra civil (1936-1939). As crianças foram retiradas das suas famílias, geralmente opositores acusados de transmitir o "gene" do marxismo.

A partir da década de 1950, as crianças nascidas fora do casamento, ou em famílias pobres ou muito grandes, foram alvos preferenciais deste esquema.

O tráfico continuou, pelo menos até 1987, já depois da transição democrática espanhola iniciada em 1977, funcionando como uma forma de ganhar dinheiro.

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