Presidente da Câmara de São Paulo declara guerra aos graffiters

João Doria estabeleceu uma multa de dez mil reais, 2900 euros, para a pichação e diz que a polícia já apanhou mais de cem pessoas a escrever ilegalmente nas paredes em São Paulo desde que assumiu funções, em janeiro

Bastou um minuto ao artista brasileiro Iaco para agitar uma lata de tinta em spray e escrever "Doria" sete vezes numa parede cinzenta em São Paulo.

Bastaram quatro minutos para um polícia chegar, de arma em punho, algemar Iaco e arrastá-lo para a esquadra mais próxima - uma resposta rápida a uma provocação muito publicitada à guerra aos graffiti do presidente da Câmara João Doria. Afinal, esta não era uma parede qualquer.

Semanas antes, Doria vestiu um macacão cor de laranja e pôs uma máscara para ajudar a pintar de cinzento cerca de 15 mil metros quadrados de arte urbana na Avenida 23 de Maio.

O destino desses murais, encomendados pelo antigo autarca, abriu um debate sobre a mundialmente famosa cena de graffiti da maior cidade da América do Sul e o seu lugar na paisagem limpa imaginada pelo programa Cidade Linda de Doria.

O autarca, desde então, considerou demasiado apressada a mudança para repintar aquela movimentada avenida e agora insiste que a sua luta não é contra a colorida arte urbana, mas contra um estilo agressivo conhecido como pichação.

A fonte angular e rúnica conquistou faixas da paisagem de São Paulo enquanto artistas de rua invisíveis escalam edifícios e monumentos com rolos e latas de spray na mão, atraindo a ira de muitos dos que abraçam outras formas de graffiti.

"Um muralista é um artista e tem o nosso respeito", afirmou Doria numa entrevista dada neste mês, chamando a atenção para os seus planos de encomendar novos trabalhos de arte urbana. "Pichação é agressão... Não é um problema social. É mental, criminal."

Doria diz que a polícia já apanhou mais de cem pessoas a escrever ilegalmente nas paredes em São Paulo desde que assumiu funções, em janeiro.

Ele estabeleceu uma multa para a pichação de até dez mil reais (cerca de 2900 euros), dez vezes o salário mínimo mensal no Brasil. Mas os seus praticantes, conhecidos como pichadores, dizem que isso fará muito pouco para os dissuadir de escalar edifícios e viadutos de autoestradas e deixar a sua marca.

"Que outros artistas colocam a sua segurança em risco para fazer o que fazem?", questionada o pichador conhecido como Du. "Todas as formas de arte envolvem liberdade de expressão, mas a pichação é a expressão da liberdade. Estás a dizer ao mundo "aqui estou eu. Não me podes ignorar"." A maior parte dos pichadores escrevem pouco mais do que o seu nome de rua ou o nome da sua equipa, fazendo comentários sociais raras vezes. "Quem é Doria?", escreveu um numa tag.

Os pichadores competem frequentemente pelas tags em pontos mais altos ou mais audaciosas, mas poucos desfigurariam o trabalho de outro. Apesar de ser um sinónimo de decadência urbana, aqueles que a fazem dizem que a pichação não tem ligações a gangues em São Paulo.

Alguns no mundo dos graffiti questionam a distinção de outra arte urbana e pichação, que já foi apresentada na Biennale de Berlim, na Fundação Cartier, em Paris, e na Semana de Moda de São Paulo.

Inspirada originalmente por capas de disco de heavy metal nos anos 1980, esta caligrafia críptica ganhou admiradores na cena graffiti mundial, incluindo a fotógrafa Martha Cooper, que documentou a subcultura de Nova Iorque durante quatro décadas.

"Sou uma grande fã do que estão a fazer em São Paulo. Eles inventaram o seu próprio alfabeto", disse Cooper, que foi apresentada aos pichadores da velha guarda numa recente visita ao Brasil. "Não são de todo atos aleatórios de vandalismo", disse a fotógrafa. "É uma forma de tornar seu o seu ambiente."

Jornalista da Reuters, em São Paulo

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