PP dá liberdade a Rajoy para negociar com Ciudadanos

Ainda não há casamento para formar governo. Nem sequer data para a investidura. Tudo dependerá dos próximos encontros do líder dos populares com Rivera e com Sánchez

A 10 de agosto, Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP), escrevia na sua conta de Twitter: "Uma vez conhecidas as condições do Ciudadanos irei submetê-las à aprovação do Comité Executivo." Ontem, o mesmo Mariano Rajoy, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do dito comité: "Com toda a franqueza, não falámos sobre as condições. Ninguém disse uma única palavra sobre elas."

Feitas as contas ao dito e ao não dito, está tudo mais ou menos na mesma. "Podemos aceitar muitas coisas. Ou não", acrescentou ainda o primeiro-ministro em gestão e candidato a chefe de governo na conversa pouco esclarecedora com os jornalistas.

O órgão do partido limitou-se a dar carta branca ao líder para negociar com o Ciudadanos. Mas, acreditando nas palavras de Rajoy, ninguém abriu a boca para opinar sobre as seis condições que Albert Rivera impõe para votar favoravelmente na sessão de investidura. As exigências definidas pelo Ciudadanos passam por: limitar para dois o número de mandatos de um primeiro-ministro, acabar com os indultos a políticos corruptos, permitir que os detentores de cargos públicos possam ser julgados por tribunais comuns, reformar a lei eleitoral, instituir a demissão imediata de qualquer político acusado de corrupção e criar uma comissão parlamentar para investigar o caso Bárcenas (que envolve corrupção no interior do PP).

Do lado do Ciudadanos as cartas estão postas na mesa. Só haverá voto favorável se o Partido Popular disser que sim às seis condições "sem alterar uma única vírgula".

Também havia esperança de que Rajoy pudesse aclarar alguma coisa sobre a data em que pretende apresentar-se ao debate e à votação de investidura. Outras contas que saíram furadas. O tabu continua. "Antes tenho de falar com o senhor Sánchez [secretário-geral do PSOE]", e mais não disse o líder dos populares.

Hoje cumprem-se 21 dias desde que o rei Felipe VI encarregou Rajoy de tentar formar governo e continua sem haver data para a investidura. Está ultrapassado em quatro dias o anterior recorde, estabelecido em 1996, quando José María Aznar era o candidato à chefia do executivo.

Ontem também foi dia de reunião para os socialistas. A Comissão Permanente do PSOE voltou a dizer a Pedro Sánchez para continuar a fazer finca-pé no não a Mariano Rajoy. "Votaremos contra por duas razões. Por convicção ideológica e por uma questão ética. Só é possível uma renovação democrática em Espanha sem o senhor Rajoy", afirmou em conferência de imprensa o secretário-geral dos socialistas.

Próximos capítulos: Mariano Rajoy voltará a marcar encontros com Albert Rivera e com Pedro Sánchez. Se conseguir o sim do Ciudadanos, aumentará a pressão para que o PSOE se abstenha. Mas, caso não haja acordo com Rivera, ganhará ainda mais força o cenário de novas eleições.

Na primeira votação de investidura, Rajoy precisa de maioria absoluta (176 votos favoráveis), algo que, neste momento, parece ficção científica, uma vez que PP e Ciudadanos somam apenas 169. Não conseguindo passar na primeira votação, haverá uma segunda 48 horas mais tarde, bastando então maioria simples. Havendo 169 sim (ou 170 contando com o deputado da Coligação Canária), do outro lado ficam 181 não (ou 180). As contas são simples: a abstenção do PSOE é quase fundamental, uma vez que não parece lógico que Rajoy vá buscar os outros seis sim de que necessita a formações políticas regionais e independentistas.

Caso Rajoy se apresente à investidura e não consiga ser aprovado pelo Parlamento, começará uma contagem decrescente de dois meses. Se nesse período ninguém for capaz de arregimentar uma maioria para formar governo, Felipe VI será obrigado a dissolver a assembleia e convocar novas eleições - que seriam as terceiras em menos de um ano. Resta saber quando acontecerá o debate e as votações de investidura. Sendo certo que Rajoy continua sem esclarecer se aceitará apresentar-se perante o Parlamento caso não tenha garantido os apoios necessários.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG