Pós-Brexit. Von der Leyen diz que UE está pronta para negociar

Parlamento Europeu discute, em Estrasburgo, o mandato para as negociações da nova parceria com o Reino Unido

A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, disse esta terça-feira no Parlamento Europeu que a equipa europeia que será responsável por negociar a nova relação com o Reino Unido está pronta a começar os trabalhos. E defendeu "ambição" para essa negociação, lembrando que aquilo que a União Europeia oferece ao Reino Unido nunca ofereceu a ninguém antes, mas sublinhando também que "o tamanho importa" no que diz respeito ao mercado.

"Foi há apenas duas semanas que dissemos adeus aos nossos colegas britânicos", disse Von der Leyen, lembrando os momentos "emotivos" quando os eurodeputados cantaram Auld Lang Syne. "Desde então, focámo-nos na futura relação no Reino Unido. E vamos entrar nestas negociações com ambição, porque velhos amigos não se devem contentar com menos", acrescentou.

A presidente disse que é "música para os nossos ouvidos" o discurso de Boris Johnson em Greenwich em que disse que o Reino Unido vai ser "um campeão global do livre comércio". E defendeu um sistema comercial que é "aberto num lado e justo do outro". Os acordos, lembrou, substituem a incerteza por um conjunto de regras e devem beneficiar o povo.

"O tamanho importa", lembrou a presidente da Comissão, frisando que a União Europeia representa um mercado de 440 milhões de pessoas.

"Quando concordámos com a declaração política com o Reino Unido, ambicionámos uma relação comercial de zero tarifas e zero quotas para todos os bens", lembrou, dizendo que a União Europeia nunca ofereceu isso a ninguém. "Um novo modelo de comércio, uma ambição única no acesso ao mercado único, mas isso implica garantias correspondentes em concorrência justa e a proteção dos padrões sociais, ambientais e dos consumidores", referiu.

"Estamos disponíveis para negociar em todos os modelos, mas todos têm uma coisa em comum. Não só vêm com direitos, mas com obrigações para ambos os lados", indicou, mostrando-se surpreendida por Boris Johnson ter citado o caso da Austrália, lembrando que a União Europeia não tem acordo de comércio com este país e que está a começa a debater a necessidade de ter um.

"Estamos atualmente a fazer trocas comercias nos termos da Organização Mundial de Comércio. Se esta é a escolha britânica, por nós tudo bem"; referiu, acrescentando. "Claro que o Reino Unido pode decidir contentar-se com menos, mas acho que devemos ser mais ambiciosos", disse.

Von der Leyen disse que o discurso de Boris Johnson em Greenwich foi um bom começo, cheio de "ambição". Mas avisou, não é tempo de recuar numa série de áreas, como concorrência, direitos dos cidadãos ou na luta contra as alterações climáticas.

A presidente da Comissão Europeia defendeu que alcançar um acordo com o Reino Unido "é do nosso interesse mútuo e será consistente com os valores que partilhamos, de abertura, de justiça, de justiça social, valores que não são do passado, mas são valores para ficar", concluiu.

Antes, a representante do Conselho Europeu defendeu "uma base sólida" para o mandato de negociações. E avisou: "Não podemos adiar muito o início desta discussão e temos que aprovar o mandato muito rapidamente, também pela posição do primeiro-ministro britânico que não pretende alargar o prazo". E deixou claro que os britânicos "não podem ter os mesmos direitos" que um estado-membro.

No debate, os vários eurodeputados defendem também que é necessário garantir que os direitos dos cidadãos são tidos em conta e que qualquer acordo com o Reino Unido não significa um recuo em relação aos valores europeus.

Barnier: "As negociações vão ser muito difíceis, temos de nos preparar para tudo"

O principal negociador da UE, Michel Barnier, admitiu que as negociações serão difíceis, lembrando o "período de transição limitado" para chegar a acordo. "É uma escolha de calendário da parte do primeiro-ministro britânico", lembrou aos eurodeputados, explicando que isso terá consequências.

"Não estamos a tentar restringir as negociações. Este não é só um acordo comercial normal. Quando negociamos com o Canadá ou o Japão, procuramos convergência de posições. Se não alcançarmos um acordo, estendemos as negociações", explicou, lembrando que com o Canadá isso levou sete anos.

"Até ser alcançado o acordo, há a continuação do status quo. Neste caso, não haverá status quo. A 31 de dezembro, como decidido pelo primeiro-ministro britânico, o Reino Unido deixará a união aduaneira e o mercado único e voltaremos aos termos da Organização Mundial de Comércio. Nessas circunstâncias, haverá quotas e tarifas em todos os produtos britânicos. É o resultado se falharmos em chegar a um acordo", alertou.

"Sempre vos disse a verdade", explicou Barnier aos eurodeputados. "Depois do Brexit não pode ser "negócio como antes". Haverá mudanças em várias esferas, algumas podem ser temporárias, outras serão finais. Mas vamos tentar mitigar os problemas ao encontrar um acordo mútuo", disse.

"As negociações vão ser muito difíceis. Temos que nos preparar para tudo, até para o facto de podermos não ter um acordo básico até ao final de outubro", alertou.

Barnier defendeu ainda que a União Europeia sempre respeitou a decisão do Reino Unido de sair, "por muito que a tenhamos lamentado". Contudo, indicou que há uma questão para a qual é preciso uma resposta da parte dos britânicos. "O Reino Unido ao afastar-se da união aduaneira e do mercado único também deseja afastar-se do nosso modelo económico e social? Essa é a questão para a qual estamos à espera de resposta".

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