De Aljubarrota ao Mapa Cor-de-Rosa: a boa Inglaterra e a má Inglaterra

O covid-19 está a causar problemas à mais antiga aliança diplomática do mundo.

A aliança diplomática entre Portugal e Inglaterra é considerada "a mais antiga do mundo ainda em vigor", vigorando desde a assinatura do tratado de Windsor, em 1386. Mas a relação foi marcada por altos e baixos. O mais recente é a decisão de os ingleses deixarem Portugal de fora da lista dos países considerados seguros, por causa do coronavírus, num revés para o turismo em especial para a região algarvia.

A conquista de Lisboa

O primeiro tratado entre Portugal e Inglaterra foi oficialmente assinado em 1373, mas a ligação entre Portugal e Inglaterra começou mais de dois séculos antes. Em 1147, os ingleses ajudaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa aos mouros (e de outras cidades portuguesas).

Os ingleses faziam parte do grupo de cruzados que ia para a segunda cruzada e que tinha deixado Dartmouth, no sul de Inglaterra, a caminho da Terra Santa por via marítima. Forçados pelo mau tempo a parar no Porto, foram convencidos a ajudar o rei a conquistar Lisboa, com a bênção do papa Eugénio III que tinha lançado a cruzada e que autorizou a sua expansão para a Península Ibérica.

Em troca da ajuda, o primeiro rei de Portugal autorizou que os cruzados pilhassem Lisboa.

De Aljubarrota a Filipa de Lencastre

Os ingleses combateram ao lado dos portugueses na batalha de Aljubarrota, a 14 de agosto de 1385, que afastou de vez as pretensões do Reino de Leão e Castela (aliado com França) e garantiu a independência de Portugal, consolidando D. João I, o Mestre de Avis, como rei.

Um ano depois, a aliança entre os dois países foi reforçada na assinatura do Tratado de Windsor e, a 2 de fevereiro de 1387, com o casamento no Porto de Filipa de Lencastre, neta do rei inglês Eduardo III, com o monarca português.

Os descendentes do casal (seis dos oito chegaram à idade adulta) ficaram conhecidos como a Ínclita Geração, epíteto dado por Luís de Camões, por se destacarem pelo elevado grau de educação, valor militar e importância na vida pública, entre eles o rei Duarte I ou Henrique, o Navegador.

A Armada Invencível

A famosa Armada Invencível foi organizada por Felipe II de Espanha (I de Portugal durante a União Ibérica) em 1588 para invadir a Inglaterra, mas foi derrotada pelos britânicos no Canal da Mancha. Além disso, no regresso a casa, enfrentou uma tempestade que destruiu muitos dos navios.

Entre os 130 navios, havia pelo menos uma dúzia que pertenciam à armada portuguesa. Um ano depois, os ingleses responderam com a sua própria armada, liderada por Francis Drake, que entre os seus objetivos tinha o de desembarcar em Lisboa e lançar a revolta contra Felipe II de Espanha, mas não foi bem-sucedida.

Na prática, durante a União Ibérica (1580 -1640), a aliança entre Portugal e Inglaterra esteve suspensa.

A guerra da restauração e Catarina

Após seis décadas de União Ibérica e do governos dos Felipes da dinastia dos Habsburgos, que se seguiu à crise dinástica resultante da morte de D. Sebastião em 1578, Portugal reagiu a 1 de dezembro de 1640 com a proclamação de D. João IV como rei, o primeiro da dinastia de Bragança.

Seguiu-se a guerra com Espanha que duraria 28 anos, com os ingleses a saírem em apoio dos portugueses nos últimos anos, em troca de benefícios comerciais. A aliança oficializou-se em 1662 com o casamento da infanta Catarina de Bragança, irmã do rei Afonso VI (filho de D. João IV), casou com Carlos II de Inglaterra, que acabara de reconquistar o trono.

Foi Catarina de Bragança que levou o chá para a corte inglesa, naquele que se viria a tornar num dos mais conhecidos hábitos dos ingleses.

Invasões napoleónicas

Quando o expansionismo de Napoleão chegou à Península Ibérica, as alianças que Portugal tinha com Espanha rapidamente caíram por terra e foram os ingleses que vieram em defesa dos velhos aliados.

Em segredo, o príncipe regente de Portugal, D. João, e o rei inglês, Jorge III, assinaram em 1807 um acordo que permitia a transferência de toda a corte portuguesa para o Brasil (então colónia), com os britânicos a providenciarem uma escolta naval.

A família real embarcou a 27 de novembro de 1807 e partiu dois dias depois a caminho do Rio de Janeiro, onde instalaria a capital do Reino, com os franceses a entrar em Lisboa no dia 30 de novembro.

Mas em agosto de 1808, 15 mil tropas britânicas desembarcaram em Portugal para ajudar à expulsão dos franceses, que voltariam em 1809 e em 1810. Nessa altura já tinham sido concluídas as Linhas de Torres, para ajudar a defender Lisboa, cuja construção foi ordenada por Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington. Derrotados, os franceses acabaram por partir, com João VI a regressar a Portugal em 1821.

O mapa cor-de-rosa

No final do século XIX, várias potências europeias queriam a sua parte de África. O desejo português de ligar a colónia de Angola (na costa oeste) à de Moçambique (na costa leste) e assumir a soberania de todo o território pelo meio, embateu no desejo britânico de um corredor de norte a sul do continente, desde o Cairo (no Egito) à Cidade do Cabo (na África do Sul). E isso culminou no ultimato de 11 de janeiro de 1890.

Em 1884, os exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens fizeram a ligação entre as duas costas e dois anos depois foi apresentada a primeira versão do mapa cor-de-rosa. Após anos de negociação, a rainha Vitória fez o ultimato a Portugal, ameaçando com uma guerra, com o rei D. Carlos a ceder.

O ultimado inspirou "A Portuguesa", composta em 1890 com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil, que viria a tornar-se no hino português. Haveria uma versão posterior à original em que, em vez de ser "contra os canhões" era "contra os bretões", isto é, contra os ingleses.

I e II Guerra Mundial

Apesar de alguns combates com as forças alemãs nas colónias em África, Portugal mantinha uma posição de neutralidade na I Guerra, até a velha aliada Inglaterra ter pedido para serem confiscados todos os navios alemães e austro-húngaros que estavam na nossa costa. Uma atitude que levaria a Alemanha a declarar guerra a Portugal a 9 de março de 1916. Estima-se que 12 mil soldados portugueses morreram na guerra, que terminou em 1918.

No início da II Guerra Mundial, Portugal lembrou que o velho acordo com Inglaterra ainda era vigente, mas uma vez que esta não pedia ajuda, o país podia manter-se neutral. E foi assim que se manteve até ao fim da guerra, com Salazar a vender por exemplo volfrâmio tanto aos ingleses como aos alemães e, quando pressionado, deixou de vender a ambos.

Os ingleses usaram a velha aliança para permitir a instalação de uma base aérea nos Açores, sendo mais tarde negociada de que forma os norte-americanos também poderiam usar o espaço, a partir de 1944.

Desde 1949 que os dois países são aliados da NATO.

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