Planeta brexit: "Só quero o melhor para os meus netos"

Na região de Thurrock, a apenas meia hora de comboio de Londres, o "sair" obteve 73% dos votos no referendo. A quinta maior percentagem a nível nacional

Já é quase meio dia mas Matilda não quer deixar o parque infantil, onde aproveita a poça de água que se formou debaixo do escorrega para brincar descalça. Os pais, ele um trabalhador dos serviços de transporte de Londres e ela uma professora, olham para a filha e repetem pela segunda ou terceira vez: "É por ela que votamos no brexit." Em Thurrock não estão sozinhos: 73% dos eleitores desta região do condado de Essex votaram como eles no referendo sobre a saída da União Europeia. A quinta maior percentagem a nível nacional. Aqui, um argumento foi suficiente: a imigração.

"Não tenho problemas contra os imigrantes, mas tenho contra quem vem para cá viver dos subsídios. Não tenho a culpa que o nosso país esteja melhor do que o deles", conta Luke, o pai. "É hora de nos focarmos em nós", acrescenta Lucy, a mãe. O parque infantil fica na zona ribeirinha de Grays, a maior cidade da região de Thurrock, localizada a apenas meia hora de comboio a leste de Londres, junto ao estuário do Tamisa. Foi essa proximidade com a capital que atraiu muitos imigrantes, que conseguem arranjar aqui casas mais baratas, podendo continuar a trabalhar em Londres. Entre o censo de 2001 e o de 2011, houve um aumento de 1500% dos imigrantes de origem africana em Thurrock.

A missa já acabou na Igreja Batista de Grays, no centro da cidade, e a congregação está agora a trocar impressões enquanto saboreia uns bolinhos e um café acabado de fazer. O pastor Colin explica o que, na sua opinião, está por detrás dos números do referendo. "Em primeiro lugar, não tem nada a ver com a União Europeia", avisa. "A campanha foi mal feita de ambos os lados e as pessoas aqui concentraram-se só numa coisa, a imigração", refere, dizendo que o desemprego está alto na área e que as pessoas culpam basicamente os imigrantes.

"Não sou racista, mas os imigrantes estão a tomar conta de tudo. Só quero o melhor para os meus netos. Quero que quando crescerem possam encontrar trabalho", lança Norman, enquanto toma um café numa pequena esplanada próximo da igreja. Sharon, a sua mulher, acrescenta ao seu lado. "E vão poder comprar casa. Não dizem que os preços agora podem baixar?" É Sharon que fala dos problemas que a filha teve em arranjar escolas para os quatro netos, porque "os filhos de imigrantes tiveram prioridade e roubaram-lhes as vagas". E é ela que fala de como a criminalidade está a aumentar e há pessoas que já têm medo de ir até à cidade.

Em Grays não há bregrets - o nome que o The Independent deu aos eleitores que quiseram usar o voto no brexit como um puxão de orelhas ao governo de David Cameron, achando que nunca iriam ganhar, e agora se arrependem (em inglês, regret). Consequência, também, de os responsáveis da campanha do "Sair" estarem a recuar nas promessas feitas - desde o fechar das fronteiras até à ideia de que seria possível poupar 350 milhões de libras por semana e que esse dinheiro seria investido no sistema nacional de saúde. "Porque é que me haveria de arrepender? Não me arrependo de nada e não me interessa o que acontece à economia. Quando não temos emprego, vemos os imigrantes roubar-nos os subsídios e vivemos o dia a dia sem saber se temos dinheiro para comer ou para comprar fraldas, nada mais interessa", explica Dean, na mesa ao lado de Norman e Sharon na esplanada.

Norman, que um triplo bypass obrigou a deixar o trabalho do porto de Tilbury, um dos principais empregadores da região, usa uma T-shirt roxa, a cor dos independentistas do UKIP, que têm aqui um dos seus bastiões. Ali ao lado está a sede de campanha de Tim Aker, um dos 22 eurodeputados do partido de Nigel Farage, fechada por ser domingo, e em Thurrock, nas últimas eleições locais, foram eleitos 17 conselheiros do UKIP. "Se houvesse agora eleições gerais, pode crer que iam ganhar aqui", afirma. Em maio de 2015, Aker ficou em terceiro lugar, a menos de mil votos da conservadora Jackie Doyle-Price (que conseguiu a reeleição) e 500 da candidata do Labour, tendo o UKIP conquistado quase mais 25% dos votos que nas eleições anteriores.

Michael Casey, diretor do site de notícias Your Thurrock, explica o porquê do crescimento do UKIP. "Não sou um apoiante de Farage, mas as pessoas aqui sentem-se confortáveis com os argumentos dele. E o partido trabalha muito bem a nível local. Se há um problema, tentam resolve-lo de imediato, e isso atrai os eleitores", explica.

Há dez anos a trabalhar na região, Casey conta como encontrou em Thurrock uma mentalidade retrógrada. "Para eles, era melhor se estivéssemos em 1966, quando a Inglaterra ganhou o Mundial de Futebol, quando o West Ham tinha ganho no ano anterior o campeonato europeu e aqui à volta era só "brancos como nós", como costumam dizer." Segundo Casey, esta mentalidade existe até naqueles que ainda não eram nascidos em 1966.

Os saldos do centro comercial Intu Lakeside (um dos maiores do país com 250 lojas e outro dos principais empregadores da região) atraem dezenas de jovens de Thurrock na tarde de domingo. Mas muitos não estão minimamente preocupados com o referendo e repetem os argumentos que ouvem dos pais. "Assim vamos poder fechar as fronteiras e os imigrantes não vão poder entrar", diz uma jovem na zona da restauração, com as amigas a fazerem que sim com a cabeça. Segundo Michael, as escolas da região têm das piores médias nacionais dos exames obrigatórios por volta dos 16 anos. "Parece que não têm ambição", lamenta.

O comboio com destino a Londres parte a horas da plataforma 1 da estação de Chafford Hundred, que serve o centro comercial, e aos poucos o país do brexit vai dando lugar ao que votou pelo "ficar" e perdeu. Thurrock pode ser uma raridade, com 73% de votos no "sair", mas não é exceção num país onde de uma forma geral, só Londres, a Escócia e a Irlanda do Norte rejeitaram o brexit.


Enviada a Londres

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