"Pensava que ia haver mais festa em Miami. No final, foi o anticlímax"

Entrevista a Rui Ferreira, jornalista português do Diario Las Américas, de Miami, onde vive há 20 anos, depois de 15 anos.

A festa pela morte de Fidel Castro limitou-se à Pequena Havana, em Miami, ou foi geral entre os exilados cubanos e os cubano-americanos?

O que houve foi uma catarse emocional, como a que já tinha havido em 2006 [quando deixou o poder]. Mas, em comparação com esse ano, ontem houve muito menos gente na rua. Dentro da Área Metropolitana de Miami há dois grandes núcleos habitacionais em que vivem cubanos, Hialeah e Pequena Havana. Desta vez não houve festa em Hialeah. Na Pequena Havana, o pessoal esteve toda a noite a celebrar, frente ao restaurante Versailles, mas nesta manhã já não estava lá ninguém. Isto é coisa para demorar mais este fim de semana e na segunda-feira voltam todos ao trabalho.

O que significa para esses cubanos a morte do Fidel?

Depende. Para os mais velhos é uma libertação. Esta cidade sempre foi bastante macabra, pela quantidade de pessoas que ficaram à espera que Fidel morresse e afinal foram primeiro... Para os mais jovens não é tanto assim, porque a imigração cubana a partir de 1994 é económica, jovem, são pessoas que a cada seis ou sete meses vão a Cuba ver a família. Mas realmente fiquei espantado, pensava que ia haver mais festa, muito mais gente na rua, que o contentamento seria maior. No final, foi um bocado o anticlímax. Todos estes anos à espera que o homem morresse e quando ele morre uma pessoa fica paralisada, em choque. Acho que, no fundo, os cubanos respeitam os mortos, mesmo os que são seus adversários. Estou há 20 anos em Miami, vivi outros 15 em Cuba, sei bastante bem que as pessoas da oposição no final de contas admiravam o homem.

Talvez não tenha havido festa porque acham que nada vai mudar na ilha...

Eu acho que Raúl Castro está agora muito mais livre do que estava há 24 horas. Porque viver à sombra do irmão sempre foi horrível. E ele fez muitas mudanças nos últimos anos. Estive em Cuba três vezes no último ano, e ele fez bastantes mudanças com as quais o irmão não estava de acordo. Até as criticou naquelas cartas que ia escrevendo. Agora tem as portas um bocado mais abertas. O que me preocupa em Cuba é como vai reagir todo aquele pessoal que defendia Fidel de capa e espada... Raúl é uma pessoa aberta, já estive com ele uma vez e não me causou má impressão. Mas não deixa de ser um ditador. No sentido em que mantém os cubanos amarrados de pés e mãos. Pelo menos, abriu a iniciativa privada às pessoas e a Cuba de hoje é muito diferente da que era. Tive um choque a primeira vez que lá estive no último ano por causa da forma aberta como está o mercado. Penso que Cuba já é um país capitalista. Acho que está a caminhar para ser um regime estilo chinês, ou seja, um país dois sistemas.

Acha então que pode haver ainda maior abertura?

Acho que sim, mas não vai ser uma coisa rápida, no mínimo seis meses. Acha que uma das coisas que vai fazer, por exemplo, é acabar com um dos tabus do comunismo, que é o despedimento como forma de disciplina laboral. Em Cuba é proibido exceto por razões políticas. Acho que Raúl vai acabar com isso. Sempre disse que em Cuba não está proibido ter opiniões, está proibido é divulgá-las. Mas a verdade é que os cubanos têm quatro opiniões diferentes sobre o mesmo tema... dependendo da hora do dia. E o governo cubano sabe isto muito bem e sabe o que deve dizer e o que deve fazer. Porque a verdade é que, faça o que fizer, o governo cubano nunca perdeu o apoio popular. A URSS acabou porquê? Acabou porque o Partido Comunista perdeu a base popular de apoio.

Mas acha que agora pode haver alguma espécie de levantamento?

É um risco. Por isso é que acho que o Raúl vai abrir mais as portas agora, precisamente para não perder essa base social de apoio. Os cubanos estão habituados a não pagar impostos, a receber tudo do Estado, da saúde à educação... isso vai ter de acabar. E acabar é permitir que haja médicos privados, professores privados... Como está também não pode continuar. E temos de pensar no exército que Raúl Castro criou, que deve ser o que mais empresas tem no mundo. Ele controla todos os aspetos da economia.

Após um ano de abertura aos EUA, o que pode mudar com Donald Trump?

Eu acho que a última coisa que preocupa Trump neste momento é Cuba. Ele esteve aqui em Miami, fez o seu discurso, pôs os cubanos de extrema-direita muito felizes, mas o problema é que esses cubanos são os velhotes que não entendem bem o inglês. Ele disse: "Quero fazer um acordo melhor com Cuba do que o que foi feito antes." Não disse que ia fechar as portas. Os que estavam à frente aplaudiram e acharam que ele tinha dito que ia acabar com o regime em Cuba.

E não vai?

Trump é um empresário e são os empresários que estão a negociar com Cuba. Qual era o interesse em recuar? Ele vai chatear-se com a Delta Airlines, que começa agora os voos diretos para Cuba? Vai chatear-se com os grandes consórcios agroalimentares? O que é que ele ganharia em cortar relações? Nada. A abertura das relações entre Cuba e os EUA foi abençoada pelo Papa. Sabe qual foi o último acordo entre dois países abençoado pelo Papa? O Tratado de Tordesilhas, há 500 anos! O problema é que os anticastristas de Miami vivem na twilight zone.

Mas é mais a velha geração...

Sim, e são cada vez menos.

Disse que esteve 15 anos em Cuba. Conheceu pessoalmente Fidel?

Sim, em três ocasiões. Era um encantador de serpentes, capaz de te convencer das coisas mais mínimas com a sua conversa. O Marcelo Rebelo de Sousa teve uma frase encantadora quando o conheceu. Quando lhe perguntaram sobre o que conversaram, ele disse não conversámos nada, eu fui lá para ouvir, porque ele fala, fala, fala... Todas as vezes que falei com ele só disse: "Olá comandante, como está? Mucho gusto." Da primeira vez estava com o Joaquim Chissano [ex--presidente de Moçambique] e falámos em português e ele ouviu e falámos de Eça de Queirós. Ele era um fanático por Eça. A segunda vez encontrei-o no Palácio da Revolução, recebi um convite para um cocktail e ainda hoje não sei porquê. Foi aí que lhe apertei a mão e vi que tinha mãos frias e femininas. A terceira vez foi no Palácio dos Congressos, numa reunião latino-americana.

Com que ideia ficou dele?

Era uma pessoa que te convencia de qualquer coisa, era bastante culto, um leitor voraz, com uma memória boa. Nunca deixou de ser camponês, sempre gostou muito do campo, e muitas das reações que tinha herdou-as do pai e da casmurrice profunda que têm os galegos. Ele vai marcar a história, ele marcou a história, para o bem ou para o mal. Há muita gente que o odeia e tem razões para o odiar e há muita gente que o adora e tem razões para o adorar. Ninguém lhe fica indiferente.

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