Peña Nieto: de salvador a presidente mais impopular de sempre

Os escândalos que têm envolvido o chefe do Estado e a família, a perceção de que aumentou a violência e a corrupção no governo e o desacelerar da economia fazem que só 23% dos mexicanos aprovem a gestão do mandatário

O presidente mexicano Enrique Peña Nieto tinha acabado de pedir desculpa pelo escândalo da chamada Casa Branca, quando veio a público uma segunda polémica a envolver a compra de outra propriedade por parte da primeira-dama, Angélica Rivera. Seguiu-se a acusação de que terá plagiado quase 30% da sua tese do curso de Direito, já depois da divulgação de uma sondagem que diz que é o presidente mais impopular de sempre. Agosto não está a ser o mês de Peña Nieto.

Em fevereiro de 2014, o presidente que tomara posse dois anos antes surgia na capa da revista norte--americana Time, com o título "A salvar o México". A reportagem contava como as suas reformas económicas, que levariam à liberalização do setor do petróleo e ao fim do monopólio nas telecomunicações, estavam a mudar a narrativa do país manchado pelo narcotráfico.

Mas isso foi antes de, em setembro de 2014, 43 estudantes terem sido raptados e desaparecerem em Iguala, num drama que continua sem resolução e que abalou o país, destapando as ligações entre governos locais, polícias e cartéis de droga. O caso gerou indignação internacional e Peña Nieto foi muito criticado pela demora em reagir.

Foi também antes de, em novembro de 2014, uma investigação jornalística do site Aristegui Noticias ter revelado que a primeira-dama, uma ex-atriz de telenovelas, tinha comprado uma casa ao Grupo Higa. Nada de errado, não fosse a empresa ter ganho vários contratos públicos no Estado do México quando Peña Nieto era governador (2005-2011).

Foi feita uma investigação, que concluiu não ter havido conflito de interesses, a casa foi vendida e no passado mês de julho, no âmbito da aprovação de um pacote legislativo anticorrupção, o presidente pediu desculpa. "Apesar de ter atuado dentro da lei, este erro afetou a minha família, prejudicou o mandato presidencial e causou danos à confiança no governo", afirmou. "Senti na pele a irritação dos mexicanos. Entendo-a perfeitamente, por isso, com toda a humildade, peço-lhes perdão."

Apartamento em Miami

Mas, nem um mês tinha passado, quando outra investigação jornalística, desta vez do The Guardian, revelou problemas com outro imóvel da primeira-dama. Segundo o jornal britânico, Angélica Rivera e os filhos usam um apartamento luxuoso em Key Biscaine, Miami, que é propriedade do empresário mexicano Ricardo Pierdant, um grande amigo de Peña Nieto que estaria a pensar concorrer aos concursos públicos para gerir os portos mexicanos (algo que o governo negou).

O apartamento em causa, no valor de mais de dois milhões de dólares e comprado pelo grupo Pierdant em 2009, fica por cima de um que a primeira-dama comprou em 2005. Alegadamente, os dois apartamentos teriam sido unidos e seriam agora um só - têm o mesmo número de telefone. Mais, em março de 2014, a empresa do amigo de Peña Nieto terá pago os impostos sobre imóveis de ambos os apartamentos.

O gabinete da presidência emitiu um comunicado no qual acusou o The Guardian de "violar a verdade", mas não negou os factos. Em relação ao pagamento dos impostos, foi dito que Pierdant os pagou porque na altura a primeira-dama não tinha o dinheiro disponível, tendo entretanto já saldado a sua dívida.

Pelo meio, a família do presidente vai surgindo nas capas das revistas do social, exibindo sinais de riqueza quando a economia dá sinais de abrandamento, por causa dos baixos preços do petróleo que representam 20% das receitas do governo. No segundo trimestre de 2016, foi registada uma contração do PIB de 0,2% que levou à redução das perspetivas de crescimento neste ano para um máximo de 2,6% (previsões iniciais eram de 3,2%).

O último escândalo prende-se com a tese que Peña Nieto escreveu em 1995 para concluir o curso de Direito, na Universidade Panamericana, intitulada "Presidencialismo Mexicano e Álvaro Obregón [no poder entre 1920 e 1924]". Segundo a investigação do site Aristegui Noticias, quase um terço terá sido plagiado. Há 20 parágrafos que foram copiados ipsis verbis de um livro escrito pelo ex-presidente Miguel de la Madrid (1982-1988), sem que haja qualquer referência na bibliografia. O porta-voz de Peña Nieto falou em "erros de estilo", retirando importância às acusações e explicando que foram cumpridos os requisitos para a conclusão do curso.

Impopular

Desde finais de 2014 que a popularidade do presidente tem vindo a cair - e nem a detenção em janeiro do foragido líder do cartel de Sinaloa, Joaquín El Chapo Guzmán, alterou a situação. Já este mês, a sua aprovação atingiu o valor mais baixo de sempre. Segundo o jornal Reforma, 74% dos mexicanos (margem de erro de 3,3%) desaprovam a gestão do presidente, que tem o apoio de apenas 23% dos inquiridos (menos sete pontos do que em abril).

É o valor mais baixo de aprovação de um presidente mexicano desde que há registo, batendo até Ernesto Zedillo, cujo mandato terminou em 2000 e pôs fim a 70 anos no poder do Partido Revolucionário Institucional (PRI). A eleição de Peña Nieto, em 2012, marcou o regresso deste partido a Los Pinos. Resta saber se o PRI terá capacidade de ganhar nas próximas eleições, em 2018.

"Desde que assumi a responsabilidade de ser presidente do México, deixei claro que não cheguei aqui para ganhar uma medalha de popularidade. Se tivesse sido esse o meu objetivo, não teria feito as reformas que fiz, as transformações que o país precisa e que vão dar ao México um futuro de maior oportunidade para as novas gerações", reagiu Peña Nieto à Televisa.

Na sondagem do Reforma, mais de 60% dos inquiridos (1200 adultos) disseram sentir que a segurança no país piorou, com quase 70% a dizerem que a pobreza aumentou no último ano. Além disso, 55% sentem que a corrupção no governo piorou, um aumento de 15 pontos em relação a abril. O presidente faz esta semana o balanço do último ano do governo, tendo pedido aos mexicanos para não serem "derrotistas".

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