Partidos alemães iniciam diálogo, Merkel pisca olho à esquerda

Confiante no sucesso das conversações com liberais e Verdes para a coligação Jamaica, que podem demorar várias semanas, a chanceler prepara políticas sociais para responder aos votos de protesto

Prosseguem hoje em Berlim as negociações para se formar uma inédita coligação governamental com uma reunião entre liberais (FDP) e Verdes. A primeira ronda ocorreu ontem, com encontros em separado entre dirigentes destes dois partidos e do partido conservador alemão de Angela Merkel, CDU, e o seu parceiro da Baviera, CSU. Amanhã juntam-se todos à mesma mesa. A chanceler prevê estar à frente do novo executivo na época natalícia, mas há quem aponte para janeiro - e os pessimistas não descartam o cenário de novas eleições.

"Foi uma boa discussão, por vezes simpática, e acima de tudo com respeito mútuo e alegre", comentou o secretário-geral da CSU, Andreas Scheuer, à saída do encontro de duas horas com representantes do FDP. Mais do que abordar temas divisivos entre conservadores em grau variável, liberais e ambientalistas, os políticos quiseram dar um tom otimista e começaram por estabelecer agendas. "Concordámos que alguns de nós talvez precisem de criatividade para podermos prosseguir neste caminho", disse por sua vez Nicola Beer, a secretária-geral do FDP. O homólogo da CDU, Peter Tauber, destacou o "sentimento positivo" do encontro.

As eleições de 24 de setembro tiveram um sabor agridoce para Angela Merkel. Venceu, mas os 32,9% de votos representaram o pior resultado do partido em 60 anos. O que, aliado ao igualmente mau resultado dos sociais-democratas (SPD) liderados por Martin Schulz (20,5%) não criou condições, segundo o ex-presidente do Parlamento Europeu, para retomar a chamada grande coligação. Como um governo minoritário é impensável no sistema parlamentar alemão, a outra hipótese, tendo em conta os resultados, é a coligação Jamaica - em alusão à cor do país e dos partidos.

Mais de três semanas volvidas e os resultados das eleições continuam a provocar estragos. Ministro-presidente da Saxónia desde 2008, Stanislaw Tillich, de 58 anos, anunciou ontem a demissão de líder dos conservadores da região. Ao fazê-lo defendeu a sua substituição por alguém com uma "força nova e fresca", o que se decidirá em congresso no dia 9 de dezembro. A CDU ficou atrás do partido de extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha) naquele estado alemão oriental.

Esquerda, volver

Atribui-se à AfD, que chegou aos 12,6% de votos em termos nacionais, a capitalização do voto dos descontentes devido à política de acolhimento de refugiados e imigrantes. A limitação do número de imigrantes foi tema logo falado entre CDU e CSU. No entanto, conta a Der Spiegel que a estratégia de Angela Merkel é a oposta em se deslocar para a direita e esvaziar a AfD. "Há problemas sociais que temos de resolver. A CDU pende por vezes mais para a economia e menos no que isso significa na realidade para o cidadão", reconheceu a chanceler no congresso da juventude partidária dos cristãos-democratas. Merkel conta com o apoio do líder bávaro, Horst Seehofer, cuja CSU perdeu mais votos do que a CDU. "As questões sociais tiveram um papel principal nas eleições. Se queremos evitar o aumento de votos de protesto temos de nos ater a essas questões", disse Seehofer. E deu como exemplos as pensões baixas e as rendas altas em cidades como Munique. CDU e CSU planeiam baixar os impostos sobre os rendimentos em 15 mil milhões de euros.

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